Natal. Os presentes das crianças: Lições

Para Camila, essa minha filha companheira, que neste Natal de 2009 será mãe e para Félix, seu marido que passa a ser pai. Deve nascer uma Elisa ou uma Rebeca…..estou certo, no dia Natal!.

 

1. Sonata introdutória.

Perguntou-me um dia uma estudante da minha Universidade portuguesa: Senhor Professor, porque estuda crianças? A minha resposta foi breve: porque sou pai.
A seguir, proferi uma explicação mais cumprida. Não é apenas por sermos pais, é, sobretudo pelo que as crianças nos ensinam. Parece que não por serem pequenas? Somos nós, adultos, que dizemos as sabidas coisas da vida? Sabidas coisas, conceito que substitui todas as acções e aventuras na interacção da experiência da vida, interacção que, por habituados como estamos com ela, esquecemos de reflectir. Reflexão que nem nos faz mal, pelo contrário. Uma reflexão a ajudar-nos a crescer, a partir das crianças. Crianças adultas e crianças a crescerem. Como as filhas que tantos de nós, pais, temos. É verdade que a simplicidade e o carinho, a honestidade e a lealdade são parte da vida que praticamos e transferimos para a nossa descendência. Descendência que, sem darmos pelo facto, começa a aumentar. Um dia somos filhos, anos virados, somos autónomos e indivíduos, anos depois, caímos no chão de um amor que acompanha os nossos afectos, a nossa emotividade mais íntima, e, dessa intimidade, aparecem os primeiros descendentes que fabricamos. Não, não é um erro de estrangeiro dizer fabricamos, porque são feitos pelo amor à pessoa que os leva no seu corpo durante meses e que do seu corpo os alimenta.

Elisa, Rebeca, o nome não interessa, o importante é a pessoa...
Elisa, Rebeca, o nome não interessa, o importante é a pessoa…

Essa intimidade partilhada entre os pais perante a criança nascida, pais a olharem-se no bebé, a ouvirem as primeiras palavras, a brincarem com canções que ensinam palavras a essas crianças que, por vezes, sem sabermos, andam atrás de nós.
Mais tarde, começam a fazer parte de um grupo, interagindo e falando sem nós ouvirmos, mas sabemos pelas mudanças de atitudes que as crianças, essas nossas crianças, têm. E os sarilhos fora do lar começam. E aumentam à medida da inserção em actividades longe de nós. Como pais, ouvimos o que nos é referido e com firmeza, na linguagem da idade que fala, opinamos para que a nossa pequenada possa optar. Optar ela, não nós por ela.

 2. Primeira lição: pai, ouve.

 Saber ouvir.

Saber entender as palavras das histórias referidas no calor do lar ou mesmo no calor do debate que essa filharada tem com os seus pares. Há as crianças que adoptam os pais como aliados nas suas dificuldades para se inserirem fora do lar.
Sentem que esses adultos vão punir o parceiro que debate com ela, que vão esgrimir as luvas de boxe para esmagar os adultos do rival, vão salvar a sua vida de entre as alternativas cruzadas nas vias da vida, alternativas desencontradas a desnortear os seus sentimentos, o seu raciocínio e a sua razão.
Não é mentira quando afirmam: o meu pai bate no teu e ganha, a minha mãe sabe cozinhar melhor do que a tua, entre outras, que vão dizendo ao largo da vida. Assim, como esses ciúmes que os descendentes têm se os pais mostram afectividade entre eles sem incluir o seu pequeno corpo entre os seus corpos com carícias, tal como os sentem nas actividades partilhadas, dentro de casa, entre os pais. A criança dá-nos uma primeira lição: já não somos dois a viver sob o mesmo tecto, somos três, quatro, cinco ou mais.
Cada individualidade, entrelaçada na individualidade do outro. Nunca uma por cima da outra para mostrar que é mais querida ou mais preferida. A lição é simples: somos um conjunto de pessoas a experimentar a vida de forma diferente dentro de conceitos compartilhados e afectos unificados, mas entendidos conforme a acumulação da experiência que explica ao mais novo o que esses conceitos e sentimentos querem dizer ou significar.
Pais alertas ao facto da heterogeneidade de gerações em convívio dentro dos laços de amor ou de emotividade que uma família modelar, parece ter. Pais alertas, a modificar a sua linguagem e a sua forma de dizer para ter um lar e não uma sala de debate, uma sala de interrogações, uma sala que vitima os descendentes, os filhos.
Sem espreitar entre os arquivos que a infância entesoura com prazer, tesouro acumulado para definir a sua trajectória na vida. Tarefa difícil que se prolonga nos anos, até a criança começar a andar só pela estrada da vida, apoiada nas emoções guardadas dentro de si pelo saber falar dos adultos entre eles e com os mais novos. Palavras e frases que adultos pais sabem e aprendem, visão do mundo a adquirir pela observação da vida ao seu cuidado, a dos filhos, que, cedo demais, entram no convívio com o social.
Lição que eu denominaria de amor, entendimento e humildade para aceitar a experiência dos mais novos, incutindo-a dentro de si. O adulto guarda a sua criança nesses conceitos e desenvolve-os a par e passo enquanto a criança é socializada por outros.

2. Segunda lição: pai, eu existo.

Crianças que aprendem com os outros. Mas, nós adultos, orgulhamo-nos de pensar e dizer quanto transferimos do nosso ego para os nossos filhos. Sem reparar o contexto dentro do qual esse outro, o filho, abaliza o nosso saber. De certeza há a idade onde os pais são a primeira e última palavra… parece. Para pais e filhos,…parece.
E o médico, e os primos, e os avós, e os filhos dos amigos, e esses mesmos adultos amigos dos pais? As histórias, os brinquedos, a música, a situação económica do lar comparada à economia das outras famílias, parentes, vizinhos e amigos? Não é destemido dizer que a aprendizagem é sempre social. Não é destemido dizer que a criança, desde o dia do seu nascimento, é uma entidade social.
Mal saem dos nossos corpos, esses pequenos são já um bebé social, porque pertencem ao mundo dos pais e das suas famílias. Vão vivendo com eles o pensar, o dizer, o sentir. As formas de agir entre milhares de pessoas a povoarem os dias da vida. É o adulto que tem a tendência a guardar a criança para si. Com amor, com orgulho, com um sentido estrito da disciplina, com um sentir estrito de posse sobre o pequeno.
Posse que nasce do amor que um progenitor, isto é, um gerador de vida –, sente, pelos simples facto da legislação entregar a criação dos mais novos, aos seus adultos, desde que não abusados por violência doméstica.
A lei manda um estado de inocência nos menores de sete anos, uma responsabilidade até penal pelos delitos que os mais novos possam cometer, entendam ou não o que fazem. Posse que esses pequenos nos ensinam que não existe: apenas a obrigação do adulto indicar que o dinheiro dos outros, aos outros é que pertence. Medite o adulto como a criança é sabida, até ao ponto de reclamar pelo que a desgosta ou de gritar pelo que deseja e que o adulto estima não deve ser atingido ou, o adulto entenda, que há uma contenda, um debate entre ele e o mais novo, para impedir lesões corporais e emotivas. O papel dos pais é o de serem mestres da vida.
É a outra oferta que a pequenada nos entrega: não serem mimados, mas docemente orientados e saberem ouvir com serenidade a agitada gritada que produz a frustração de querer atingir um objecto ou um presente, não obtido. Reflexões faladas entre os adultos para saberem que o amor evidencia-se no amparo da pessoa pequena que tem os seus próprios objectivos retirados dos recursos do lar e da forma que os seus adultos os usam. A oferta é a paciência de sermos a trave mestre entre o social e o indivíduo que começa a entender.

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Pai, ouve....existo......

Pai, ouve....existo......

Crianças que aprendem com os outros. Mas, nós adultos, orgulhamo-nos de pensar e dizer quanto transferimos do nosso ego para os nossos filhos. Sem reparar o contexto dentro do qual esse outro, o filho, abaliza o nosso saber. De certeza há a idade onde os pais são a primeira e última palavra… parece.
Para pais e filhos,…parece. E o médico, e os primos, e os avós, e os filhos dos amigos, e esses mesmos adultos amigos dos pais? As histórias, os brinquedos, a música, a situação económica do lar comparada à economia das outras famílias, parentes, vizinhos e amigos?
Não é destemido dizer que a aprendizagem é sempre social. Não é destemido dizer que a criança, desde o dia do seu nascimento, é uma entidade social. Mal saem dos nossos corpos, esses pequenos são já um bebé social, porque pertencem ao mundo dos pais e das suas famílias. Vão vivendo com eles o pensar, o dizer, o sentir.
As formas de agir entre milhares de pessoas a povoarem os dias da vida. É o adulto que tem a tendência a guardar a criança para si. Com amor, com orgulho, com um sentido estrito da disciplina, com um sentir estrito de posse sobre o pequeno. Posse que nasce do amor que um progenitor, isto é, um gerador de vida –, sente, pelos simples facto da legislação entregar a criação dos mais novos, aos seus adultos, desde que não abusados por violência doméstica.
A lei manda um estado de inocência nos menores de sete anos, uma responsabilidade até penal pelos delitos que os mais novos possam cometer, entendam ou não o que fazem. Posse que esses pequenos nos ensinam que não existe: apenas a obrigação do adulto indicar que o dinheiro dos outros, aos outros é que pertence. Medite o adulto como a criança é sabida, até ao ponto de reclamar pelo que a desgosta ou de gritar pelo que deseja e que o adulto estima não deve ser atingido ou, o adulto entenda, que há uma contenda, um debate entre ele e o mais novo, para impedir lesões corporais e emotivas. O papel dos pais é o de serem mestres da vida.
É a outra oferta que a pequenada nos entrega: não serem mimados, mas docemente orientados e saberem ouvir com serenidade a agitada gritada que produz a frustração de querer atingir um objecto ou um presente, não obtido. Reflexões faladas entre os adultos para saberem que o amor evidencia-se no amparo da pessoa pequena que tem os seus próprios objectivos retirados dos recursos do lar e da forma que os seus adultos os usam. A oferta é a paciência de sermos a trave mestre entre o social e o indivíduo que começa a entender.

 

 

 

 

 

 

3. Terceira lição: pai, quero saber.

Pai, Quero saber....

Pai, Quero saber....

Trave mestre. Transferência da experiência de vida. Explicador carinhoso da interacção com outros. Para começar, com a mesma família dentro da mesma casa, com os irmãos os melhores rivais que a vida entrega a um ser humano. Especialmente, se são irmãos de género e idades diferentes, ou mais preferidos pelos adultos a viverem por perto. O adulto deve entender não ser um modelo para o agir do pequeno, apenas uma indicação. A arrogância da vida adulta é agir como corrector de provas dos que estão a experimentar o quotidiano. Arrogância nascida dessa entrega, acima mencionada, que a lei faz dos mais novos, ou que o amor e a paixão entre dois, geram. O adulto dentro do lar é a pessoa mais amada e temida que um ser novo pode ter. Porque não ensina: corrige. Castiga. Desorienta. Diz amar e esquece. Queira o adulto ou não. Os seus objectivos de vida passam a ser mais importantes que educar a sua descendência de forma harmoniosa. Educação estimada como dever e não como parte do objectivo da vida adulta. Objectivo complexo ao envolver o entendimento do contexto dentro do qual os seres gerados e criados, vivem. Contexto estendido para além do lar e reflectido dentro do lar. Apenas com esta lição, a criança, já adulta, é capaz de dizer depois como é importante saber o sentimento do outro e respeitar esse sentimento para não ferir. Apenas uma criança orientada e não possuída, é capaz de ser um adulto jovem que ensina ao adulto maduro a importância de não falar demais, de não dizer o que a outra pessoa não entende. Lição difícil de aprender: é bem mais fácil, tenho observado, gritar, bater, ignorar, fechar-se nos deveres do trabalho fora de casa, com a justificação de ser esse o trabalho que alimenta a descendência.

 

 

4. Coda final: pai, eu dou.

Descendência que é, colegas pais, o nosso melhor carinho, o nosso melhor ensino, o nosso melhor amor. A paixão entre adultos acaba, o amor pode-se partir, o carinho pode ficar à distância. Mas, o amor pelos filhos, continua se entendermos que aprendemos deles tanto e quanto eles de nós. Como Antropólogo – parece duro dizer, mas é verdade -, a criança dos nossos filhos é a nossa observação participante da vida. Aprendemos delas as formas de crescerem e entenderem o mundo e as ideias que dessas cabeças, nascem ao ritmo da aprendizagem. É a oferta de Natal que, nestes meus anos de idade, os meus filhos me fazem: acompanhar, entender, aceitar, mostrar como a vida é diferente entre a geração deles e a nossa, como a nossa juventude não é elo nenhum para a experiência da juventude deles. Nós, maduros já, precisamos aprender que tornamos a estar sós no crescimento das crianças e na sua conversão em adultos que opinam, ouvem, calam e apenas dizem se for conveniente para esse adulto (que já não muda) entender. As crianças passam a ter as suas vidas autónomas depois de terem tido vida independente no calor da orientação dos pais. Eis o prazer da vida, sermos acompanhados por uma juventude adulta capaz de entender as desorientações dos adultos que sonharam ser os proprietários dos pequenos, os seus corregedores e não apenas os seus orientadores. É o que agradeço à minha descendência que já vai no quarto neto. Não é a neta o presente de Natal, são as formas de entender o mundo, o que me orgulha neles. E não apenas dos descendentes consanguíneos, como de todos os que tenho adoptado ao longo da vida, enquanto trabalhava com eles para entender a criança e assim entender a interacção social. Feliz Natal, filhos! Feliz Natal, colegas pais! Obrigado pelo presente de serem adultos que entendem e acompanham sem passarem os limites da minha intimidade e da intimidade deles. Descendência que vive em todos os cantos do mundo pelo qual tenho andado a observar a vida através dela. Obrigado pelo lindo presente, materializado nesse dia precioso quando esta minha filha me levou no meu carro, conduzido por ela, entre Mafra e Ericeira, para assim ser eu a ter o sabor de observar a paisagem do entardecer e não estar sempre subordinado a ter que dar-lhe prazer a ela. Essa filha que se orgulhou de ouvir um pai, o seu, proferir uma conferência sobre crianças e teve a humildade de dizer o que tinha apreendido além do amor paterno-filial. Essa intimidade que apenas os filhos orientados e não subordinados, são capazes de dizer, com um sorriso bondoso e de carinho na linda cara jovem de quem conduzia o meu carro. Senti-me completo. Tal e qual a sua mãe também se sente. Com essa filha orientada, tal e qual a outra, nascida no Dia de Reis, faz já trinta anos. Tal e qual me senti completo quando a minha estudante perguntou porque estudava eu crianças. A minha resposta a questão levantada pela estudante, por nome Ana Sotomaior de Almeida, era: Ana, é porque sou pai! E não Pai Natal. Apenas um pai a apoiar com o meu comportamento, penso.

Menina que pensa e aprende

Menina que pensa e aprende

 

Bibliografia.

 

Este texto foi escrito ao som do voo do avião que levava de regresso a minha filha a sua casa na Grã-Bretanha. Texto também retirado dos meus Diários de Trabalho de Campo e de meu Diário Pessoal. Bem como de:

 

• Iturra, Raúl, 1996: (Organizador e autor) O Saber das Crianças, ICE, Setúbal.

•1997, 1ª edição; 2007, 2ª Edição: O Imaginário das Crianças. Os Silêncios da Cultura Oral, Fim de Século, Lisboa.

•1998: Como era quando não era o que eu sou. O crescimento das Crianças, Profedições, Porto.

•2000: O Saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto.

             .2008: O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, Repositório ISCTE-IUL

•Murray, Lynne E Andrews, Liz, 2000: The Social Baby, CP Publising Richmond, Surrey, Grã-Bretanha.

•1999: The Children’s Project, CP Publishing Richmond, Surrey, Grã-Bretanha.

•Opie, Peter E Iona, 1988: The Singing Game, Oxford, Grã-Bretanha.

•2000: Babies An Unsentimental Anthology, John Murray, Londres.

•Vieira, Ricardo, 1998: Entre a Escola e o Lar, (1992), Fim de Século, Lisboa.

•Sampaio, Daniel, 2000: Tudo o que temos cá dentro, Caminho, Lisboa.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Eu tinha lido este belo texto há umas horas atrás. Foi reformulado? Pelo menos graficamente, parece tê-lo sido. Parabéns, meu amigo – á beleza e profundidade dos textos, alia-se agora um grafismo de mestre.
    Um grande abraço.

  2. Raul Iturra says:

    Meu Caro, obrigado pelo comentário. Sim, o reeditei. Três horas a mais, para conseguir escrever um bom texto. É a minha filha mais nova, que anda por rodo o mundo, trabalha na Universidade de Cambridge – minha Universidade – e o seu marido também, é ecologista de Flora and Fauna. Entre os vários sítios que tem andado, esteve três meses na ilha de Caiu, ou como se escreva, plantaram 100 mognos e cedros para fazer violinos. Ensinaram a população como tomar conta das plantas. Organizava peças de teatro, porque nem todos sabem ler e escrever. Para se deslocar a São Salvador da Baia, tinha que ir de Kaiac, navegando quase três horas para ai chegar. O mínimo para essa filha adorada, era este texto…..