Poemas com história: Defesa de um ladrão de fogo

Este poema, publicado em «O Cárcere e o Prado Luminoso», terá sido escrito pouco antes da Revolução de Abril, quando a luta armada, através das acções da LUAR, da ARA e das BR, começava a ferir as estruturas militares da ditadura. Em 1973, Outubro, salvo erro, aderi ao Partido Revolucionário do Proletariado, que se formara em Setembro, em Argel. Como se sabe, o PRP apareceu como estrutura política das Brigadas Revolucionárias, que já existiam e operavam. Ladrões de fogo era uma designação que eu usava, desde há muito tempo, para os que lutavam contra o regime, fazendo apelo ao mito de Prometeu. O poema é, portanto, uma auto-justificação e, num sentido mais amplo, uma explicação dos mecanismos que levam os homens a pôr em causa a sua liberdade e até o seu bem-estar para lutar por uma causa. Neste caso, o roubar o fogo do Olimpo, o poder, retirando-o da mão dos deuses, os oligarcas, e entregando-o ao povo. Passado este tempo, vejo que apenas simbolicamente o fogo está em poder do povo. Mas já todos aqui conhecem o que penso sobre a Democracia que temos. Vamos mas é ao poema.

Defesa de um ladrão de fogo

Que podia eu fazer,

se a noite devorava o dia,

se a semente da luz apodrecia,

se a escuridão

esmagava entre os seus dedos

o último clarão,

se, envolto em gélido lençol,

o Sol arrefecia?

 

Que podia eu fazer

contra tão negra maldição,

como podia eu deter

esta implacável alquimia

que mudava o dia em noite

e a noite invadia

de horror e desespero,

de dor e solidão?

 

Que a cruel águia do destino

me dilacere o coração,

que a água e a terra

se convertam em prisão,

que o cristalino ar

se transforme em cela fria.

 

Os homens queriam fogo,

o mundo anoitecia,

os homens queriam fogo

e fogo havia

tão perto –

– tão à mão da minha mão.

Comments

  1. Adão Cruz says:

    Excelente. Bem tenho razão em chamar-te o poeta da lucidez. Um abraço

  2. regina pinho says:

    não presta o saite