Prémio Pessoa 2009 para D. Manuel Clemente

Prémio Pessoa 2009 para D. Manuel Clemente

 O prémio Pessoa é um prémio cultural, e o Júri deliberou bem ao atribuí-lo ao Bispo D. Manuel Clemente que é um homem da cultura, a despeito de ser um homem da igreja.

Na página do JN que relata a notícia desta atribuição, vem ao fundo, uma fotografia e uma opinião da Senhora Esther Mucznic, pessoa de quem não gosto, dizendo: “Há aquela ideia absurda de que a religião não é cultura”. A ideia não tem nada de absurdo, porque a religião, na realidade não é cultura, embora leve de arrasto muitos aspectos culturais. A religião professa uma fé, e, por conseguinte, a fé nunca pode ser agonista da cultura como conhecimento, na medida em que a cultura é fundamentalmente científica e, obviamente, antagonista da fé, no que quer que seja.

 A defesa do diálogo e da tolerância, o combate à exclusão e o apelo à intervenção social da igreja, o ecumenismo, justificam que o Bispo D. Manuel Clemente tenha sido eleito vencedor do prémio pessoa 2009, leio eu no jornal. Não estou totalmente de acordo, porque estes atributos seriam o mínimo que se pode exigir a uma igreja social actuante. E se tomam isto como virtudes excepcionais de um prelado, mal está a igreja em que ele se insere. Há-de haver mais qualquer coisa que distinga D. Manuel Clemente da sensaboria intelectual e cultural desta igreja que conhecemos. E há.

 Basta que D. Manuel Clemente saia e se descarte da masmorrice e medievalismo da igreja, o que não é difícil para uma pessoa inteligente, e tenha uma intervenção relevante na vida cultural e artística, literária e científica, o que, aproveitando o beneplácito público que permite a posição que a igreja ocupa na sociedade, mercê da sua poderosa penetração e influência, é um factor positivo. Merecedor de um prémio, obviamente. Claro que não são as opiniões de Mário Soares, Cavaco Silva, Rui Rio e outras que me levarão a ter uma opinião sobre os méritos de D. Manuel Clemente. Que é um humanista cristão- poderia ser um grande humanista sem ser cristão- é indiscutível, que é uma pessoa inteligente, um homem da cultura e um prescrutador do complexo entendimento do mundo, um homem com uma abertura de espírito que não é comum dentro da retrógrada pobreza mental da igreja,  um homem ecuménico, de paz e justiça, ninguém tem dúvidas. E, como dentro da igreja não é fácil vislumbrar alguém com estas características, o prémio está muito bem atribuído.

 Antes de terminar gostaria, no entanto, de dizer que a minha admiração pelo Bispo D. Manuel Clemente tem precisamente os limites que eu imponho à admiração das pessoas que muito admiro. Não consigo conceber como é que pessoas inteligentes como D. Manuel Clemente se integram dentro de uma igreja historicamente tão vergonhosa e pecaminosa, filosoficamente tão frágil, por mais extrapolações teológicas que possa haver, quase indigente do ponto de vista intelectual e científico, socialmente atrofiante e redutora da liberdade cultural e da mentalidade aberta, encurralando o ser humano numa provinciana sacristia mental de efervescências crendícias de que é exemplo a patranha de Fátima.

 Respondem-me que é a fé e eu aceito respeitosamente. Porque eu respeito “religiosamente” a fé de quem quer que seja, ainda que não tenha qualquer respeito pela religião, qualquer que seja.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Continua em grande. No receituário dos «aditivos», não te lembraste do famoso pau-de-cabinda. Meto uma cunha pelo pau-de- cabinda e pelas medicinas alternativas. Abraço.

  2. Carlos Loures says:

    Ó Adão, como é que o pau-de-cabinda veio parar aqui, junto do D. Manuel Clemente? ~Já agora, para tentar desfazer o mau aspecto, opino, dizendo que não conheço suficientemente bem a obra do bispo e que por isso aceito a tua opinião de que o prémio está bem entregue.

  3. Adão Cruz says:

    Há coisas do DIABO, Carlos. Ele tece-as, o demo, não há dúvidas!