A cada um o seu Bolo!

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Este post vai direitinho para o bonacheirão do Carlos Loures.

Uma das curiosidades consequentes de qualquer golpe de Estado, consiste sempre na apressada mudança dos nomes, sejam estes os das ruas, avenidas, praças e até cidades, ou noutros casos, a alarvice chega mesmo à pastelaria.

Pois bem, em Portugal somos peritos neste tipo de actividade e aqui deixo alguns exemplos:

1. A Av. Rainha Dª Amélia passou a chamar-se Av. Almirante Reis, o tal senhor que apenas se notabilizou por desfechar um tiro na própria cabeça. Fez bem, coitado. Como teria passado os anos a seguir à vitória da Rotunda? Aliás, esteja onde estiver, a rainha agradece. A Almirante Reis é frequentada por uma certa calibragem que não é passível de se coadunar com o vestido de cauda de Dª Amélia. É a ironia da justiça deste mundo.

2. Uma localidade. Lembram-se de Poço de Boliqueime? Pois… Quando Sua Excelência o Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva ascendeu a 1º ministro – já foi, já foi e não vale a pena “fazer de conta” que não -, o autarca lá do sítio logo mudou o nome à terra, promovendo-a a Fonte de Boliqueime. Mas, o problema é que o cavalheiro agora é o Supremo Magistrado, o Venerando  Presidente da República! Então como é? Para o segundo mandato, há que adequar a vila à sua nova categoria, saltando de Fonte, para Termas de Boliqueime. No mínimo! Aqui fica a sugestão.

3. Agora vem um dos meus favoritos.
Quando o Afonso Costa concluiu que a coisa já estava feita e que o Directório do PRP não corria riscos de ir parar à fronteira, lá saiu, mais os amigos,  dos Banhos de S. Paulo, onde “faziam de conta”, despreocupadamente nuzinhos e de toalha enrolada à cintura. Não fosse a Guarda Municipal pensar que estavam envolvidos na tramóia. Enfim, começaram logo a mudar o nome às coisas, a começar pelas ruas, avenidas, praças e navios da Armada. Logo depois, pegaram na Portuguesa – o tal Hino que o Keil e o Mendonça dedicaram em 1891 a D. Carlos e a D. Miguel! – e impuseram-no como símbolo nacional. Tudo bem, é grandioso e bonito. Chegou a vez da Bandeira. Pronto, podemos tentar compreender.
Mas…
Que coisa, chegarem ao ponto de decretar sobre o novo nome do Bolo de Natal?! Incrível? Não, é verdade.
Daquelas cabecinhas pensadoras, AVENTARAM-SE algumas hipóteses, entre as quais o nome Bolo da Família. Mas não, a coisa cheirava muito a clerical. Estão a ver, família, logo eflúvios a incenso papista. Não dava.
Tiveram então a brilhante ideia de honrar o dito Bolo com o nome do primeiro presidente – aliás, pouco tempo depois forçado a demitir-se, acusado de cesarismo – Manuel de Arriaga. O Bolo era oficialmente conhecido por Bolo Arriaga!
Pelos vistos não pegou, até porque nestas coisas do merchandising, uma coroa sempre é uma coroa. Estará alguém disposto a ser cliente de uma marca cujo rótulo ostente o “ovo estrelado” com os dizeres Fornecedor da Casa Presidencial ? Por exemplo, imaginem vocências abrirem um negócio com o nome Presidente das Meias, o Presidente dos Cachorros Quentes, ou o Presidente dos Frangos. Falência tão certinha, como a reconhecida perícia de Sua Excelência a Senhora Doutora Dona Maria Cavaco Silva em fritar sonhos para a Consoada.
Já sabem como é. A cada um, o seu bolo, seja ele Arriaga, Bernardino, Carmona, Craveiro, Tomás, Soares, Sampaio ou Cavaco & Esposa. Cá por mim, obscurantista de tintes medievalescos à inglesa, abarbato-me com o velho e prestigiado Bolo Rei. Sem fava e com muitas frutas cristalizadas*

Feliz Natal a todos os Aventares e anexos!

* Lá “saquei” o molar e assim, estou limitado aos gelados.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Obrigado pelo bolo-rei . Por acaso, não sendo guloso, é dos poucos bolos de que gosto, mesmo não tendo sido, em 1910, crismado de «bolo-presidente». Vamos parti-lo e distribuir uma fatia por cada aventador. E beber um cálice de Porto. À vossa. Um abraço, Nuno (como é Natal, deixei a zarabatana em casa e vou deixar a sua anti-republicanice em paz«. Nada de setas envenenadas).

  2. Luis Moreira says:

    Molar, que também podemos crismar como “dente Rei ( é o que custa mais a “retirar”…não sei se isto pode ser considerado como uma seta envenenada para o Carlos…)

  3. Carlos Loures says:

    Não só não vou lançar uma seta envenenada, como vou apoiar a argumentação do Nuno. Com exemplos relativamente recentes. Todos sabemos quem foi Sá Carneiro – para além do dramatismo da sua morte, gostava que me esclarecessem que obra, que pensamento político ele nos legou, que justifiquem o aluvião de distinções toponímicas que lhe fizeram. Na sede do meu concelho, a avenida principal tem os eu nome. Na segunda cidade do país, deram o seu nome ao aeroporto internacional (enquanto se continua a esquecer, neste campo, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Bartolomeu de Gusmão…), Na maior cidade da margem esquerda do Tejo, deu-se nome de ruas a militantes do PCP – com a foice o martelo na placa toponímica. Escolhi dois exemplos do leque político, deixando pelo meio muitos outros. Quando um qualquer autarca chega ao poder, aproveita para «fazer justiça» e vai de crismar ruas, avenidas, praças, aeroportos. Naturalmente, que isto se compreende quando falamos de uma mudança de regime ou de sistema político. Não faria sentido, Nuno, que a Av. D. Amélia, proclamada a República, continuasse a ter o nome da rainha. E, por sinal, sobretudo na parte mais perto do centro, é dos locais mais feios e degradados da capital. No caso dos autarcas é puro oportunismo o qual, não se fica por aqui, e muitas vezes se desenvolve em sacos azuis e não só.


  4. Caros, sabe bem como são as coisas da vaidade humana. Isto dá para uma conversa no PRÓXIMO ALMOÇO aventareiro. Por exemplo, já reparou na quantidade de imbecis que tudo fazem para surgirem em “poses gagas” na televisão? Por tudo e por nada, é necessário aparecer.
    Quanto ao Sá Carneiro, a minha opinião é discutível e absolutamente pessoal. Nunca achei o homem nada de especial e creia-me que com 15 anos, já via bem a diferença de substância entre as pessoas. mesmo como dirigente, não chegava à unha negra do pé esquerdo do Soares. Aquelas cenas tristes do cerco ao encontro da Internacional Socialista no Porto, a oportuna espondilose que o “obrigou” a fugir para Londres no pós-11 de Março, as “sacarneiradas” do entra e sai no PPD, a colaboração muito entusiasmada na descolonização à pressa, enfim… Até neste último ponto se portou pessimamente e tinha alguma legitimidade política para fazer finca pé, não lhe parece?
    Olhe, pobre diabo, tem o nome num aeroporto e uma estátua – onde surge decapitado – a caminho de outro aeroporto. Não deixa de ser irónico, para uma pessoa que morreu num desastre de aviação. Palermices.

  5. Carlos Loures says:

    É como diz, Nuno – o Sá Carneiro era um politico «normal», com tudo o que sabemos querer isso dizer. Não deixou um pensamento político que mereça a pena reter – um político de carreira, chicaneiro, com um um bom sentido das oportunidades; não mais do que isso. No entanto, logo que o PSD chega ao poder numa autarquia, temos avenida, praça, aeroporto Sá Carneiro. É um abuso do poder e um falseamento da História.

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