A arrogância dos ateus

Não conheço arrogância superior à da fé. Quando me asseguro que o Porto vai ganhar o campeonato porque é o maior estou a ser arrogante, na minha fé. Já se utilizar algumas evidências estatísticas revelarei alguma humildade, embora o campeão  em prognóstico seja o mesmo.

Vem isto a propósito da mensagem natalícia do Cardeal Policarpo, que nos acusa a nós, ateus, de sermos arrogantes. Deixe-se estar. Não lhe vou sequer lembrar que se a nossa cultura está marcada pelo cristianismo tal se deve a uma imposição violenta: até ao século XIX a religião era obrigatória, pagar os dízimos à igreja uma imposição legal, e assim, à porrada, também eu convertia o país à minha fé clubistíca. Tinha de reconhecer aos crentes a humildade que não têm, e não vou perder tempo com isso.

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Para compreender a perspectiva de D. José Policarpo, precisamos de recordar a história do País, da fundação até aos nossos dias. A Igreja tem estado sempre ligada ao poder, mesmo quando, para isso, teve de renegar aquilo que sempre afirmou serem os seus princípios – a Inquisição, que funcionou durante séculos como polícia política do Estado oligárquico, é um dos exemplos. Mais perto dos nossos dias, temos o apoio dado pela alta hierarquia clerical ao Estado Novo, apesar da PIDE ou dos massacres praticados nas colónias. A Igreja bem pode criar partidos democratas-cristãos; a verdade é que convive mal com a democracia. Portanto, o legítimo direito que, nós ateus, temos de contestar atavismos inaceitáveis. intromissões abusivas na vida política, emissão de opiniões sobre assuntos temporais (que ninguém lhes pediu), tudo isso, é considerado arrogância. Talvez mesmo atrevimento. A culpa não é da Igreja – a culpa é dos poderes institucionais que deixam que uma confissão de fé mantenha tão grande influência num estado laico.


  2. Bem aventado, J.José Cardoso e bem comentado, Carlos Loures. Esta gente não tem a noção do ridículo. Nem pensam que quase tudo o que dizem se vira contra eles. Não têm a noção dos momentos em que devem estar calados, como aconteceu agora no dia 22 com a proposta do papa Bento XVI, para abrir um diálogo com os ateus! Como se os ateus necessitassem de abrir alguma espécie de dálogo com os senhores irredutíveis detentores absolutos da verdade! Isto motivou o meu próximo post.

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