A máquina do tempo: em demanda de Eça* (2)

Na manhã seguinte, sob um sol magnífico, num fiacre de praça chegamos ao palacete de Neully onde vive Eça de Queirós. Quando me apeio e enquanto o Sousa paga ao cocheiro, ouço gargalhadas de crianças. Venho depois a saber que, na casa ao lado, funciona um Orfanato. É a hora do recreio.

Uma criada abre-nos a porta. D. Emília, a esposa de Eça, vem-nos receber e apesar de sorridente o seu rosto não esconde as sombras de uma viva preocupação. Depois da troca de amabilidades de circunstância, diz-nos que o Dr. Melo Viana, que com o Dr. Bouchard, tem acompanhado a evolução da doença de Eça não acredita já na cura. Havia alguma esperança em que os ares de Glion, perto de Genebra, lhe fossem favoráveis. Ramalho Ortigão, de passagem em Paris, oferecera-se para o acompanhar à Suíça.

Porém, ao cabo de duas semanas regressara a Paris, pior do que partira. O médico francês ministrou hoje pela manhã um soro especial vindo do Instituto Pasteur e o doente está melhor, mas teme-se que sejam falsas melhoras. Ontem, a esposa e os médicos interrogavam-se sobre a oportunidade da entrevista, mas Eça, com ouvido apurado, percebeu o que diziam e insistiu em nos receber:

– Ora, digam aos moços que venham. Mal não me pode fazer. Até me vai distrair.

Por isso, nessa manhã recebi no hotel o telefonema a confirmar a entrevista.
Acompanhados por D. Emília e por uma prima sua, carinhosa enfermeira do doente, entramos no quarto iluminado pelo sol da manhã. Muito magro, muito branco, de olhos encovados, Eça espera-nos, sorridente, sentado num divã, vestindo uma leve «cabaia». Oferta do conde de Arnoso que a trouxe da China, como nos disse depois, durante a conversa. «Pareço um mandarim», comenta.

– Vêm colher dados para o necrológio? – pergunta, ironicamente, após as apresentações. Dizemos que não, nem pensar. Estamos, explico, a publicar aos domingos entrevistas com vultos da cultura portuguesa. E ele não podia faltar na galeria. Finge acreditar. Pede-me que comece. As senhoras, desculpam-se com afazeres. Saem do quarto. Ficamos os três. Puxo pelo caderno de apontamentos.

– Falemos dos seus tempos de Coimbra. Foi em 1861 que ali chegou. Eram tempos de grande efervescência intelectual. Como foi esse seu primeiro contacto com a vida da universidade?

– Naqueles tempos, segundo a fórmula do Evangelho, o romantismo estava nas nossas almas. Fazíamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare. Lembro-me do quarto da Rua do Forno, creio eu, no último andar, quase nas confidências humorísticas das estrelas. O busto de Shakespeare, que era o nosso calvário da arte, estava ali, ao pé de uma medalha de Dante, e da Inocência de Greuze! Lembra-me também uma gravura do Juízo Final e dois esboços holandeses.

Sobre a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e de alguns volumes da Enciclopédia – num quadro a figura de Napoleão, sobre uns rochedos enfáticos via os prantos do mar e o voo das gaivotas. Havia também uma colecção de minerais e duas caveiras polidas e lavadas que riam serenamente. Na parede havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam escritos versículos da Bíblia e dísticos da Imitação. Mas, como eu andasse nesse tempo constipado, um pagão fez raspar toda aquela decoração ascética, dizendo que o misticismo, proibindo o sol, o calor, os banhos tépidos, as flanelas, todos os cuidados corporais, me era nocivo, e que o ateísmo era para mim uma necessidade higiénica.

Outro aconselhou então que se forrassem as paredes com pele humana; um outro achou ostentosa a pele humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta e duradoira, lhe parecia preferível a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse o quarto com as folhas dos compêndios; eu opus-me asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um preso, se lhe quisessem forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos! Tirou-se à sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pele humana. Dispersámo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!

– Seu pai, quando estudava em Coimbra foi um dos fundadores do Teatro Académico. O senhor foi ali actor. Sabendo-se que é uma pessoa sensível, mas tímida, como conseguiu compatibilizar a timidez com a actividade teatral? Que dificuldades encontrou?

– A maior dificuldade era a dicção. Havia uma palavra que eu não conseguia pronunciar bem: era – solidariedade. Na noite da representação tomei o partido de a cantar, separando as sílabas como notas de música. Era na casa dos adereços do teatro que nós discutíamos a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, arredando bastidores, proclamávamos o Moisés e o Pensieroso com grave detrimento da Vénus de Milo – a grande Afrodite.

Depois das representações, havia ceias semelhantes às bodas de Gamacho!. Uma noite saíamos todos, de mantos, com coroas de loiro, simbolizando a geração dos Petrarcas, e cantando um coro lacrimoso. Na rua, havia uma reunião de famílias. Dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquela multidão de fantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, oferecido a Deus em nome dos discípulos de Petrarca!

(Continua)

*Nota: Esta narrativa constitui uma adaptação da biografia ficcionada de Eça de Queirós que publiquei em 2000 (C.L.)

Comments

  1. Luís Moreira says:

    O Eça não nasceu e morreu num andar ali ao Rossio, por cima de um café, do lado do Chiado? Ou só viveu lá?

  2. Carlos Loures says:

    Nasceu na Póvoa do Varzim (v.texto de ontem). Morreu em Neully, arredores de Paris, nas circunstâncias que estou a descrever. Morou entre 1866, quando acabou o curso de Direito em Coimbra, e 1872, quando partiu para Havana como cônsul, no 4º andar do nº 26 do Rossio (por cima do Café Nicola). O andar era propriedade dos pais. Quando, em 1898, se celebrou o centenário de Camões, Eça estava à janela a ver o cortejo e foi ovacionado pelos manifestantes. Facto que, com a modéstia que o caracterizava, conta à D. Emília, sua mulher, numa carta.

  3. Carlos Loures says:

    Afinal, no texto de ontem não referia o local de nascimento do Eça (devo ter partido do princípio que era do conhecimento geral) – nasceu, em 25 de Novembro de 1845, na Póvoa do Varzim. Um dos «lisboetas» mais emblemáticos, nasceu, afinal, no Norte. O contrário de Camilo, um homem do Norte, nascido em Lisboa.

    • Luís Moreira says:

      Então a tal placa que eu lá vejo é a dizer que viveu naquele andar e é por cima do Nicola,sim.

    • Luís Moreira says:

      Então a tal placa que eu lá vejo é a dizer que viveu naquele andar e é por cima do Nicola,sim.

  4. Carlos Loures says:

    Creio que os pais lhe sobreviveram e a casa ficou na família ainda durante alguns anos. Foi no seu quarto, cujas janelas deitavam para a Rua 1º de Dezembro (na altura, Rua do Príncipe) que Eça escreveu algumas das suas obras.

  5. maria monteiro says:

    nunca olhei para o prédio ou se olhei foi como se não tivesse visto nada. Para a próxima lá irei olhar para cima para ver a placa. Ainda hoje ao descer a rua do Alecrim a caminho do Dr.Ruah lá me encontrei com a estátua do Eça acompanhado da musa.

    • Luís Moreira says:

      Virada para o D. Maria, do lado do Chiado, o segundo prédio à esquerda, lá está a placa…

  6. Carlos Loures says:

    Fui cliente do Dr. Ruah (pai) que deve estar com quase 100 anos – o consultório era na António Augusto de Aguiar. A estátua do Eça tem sido por diversas vezes mutilada, sobretudo um dos braços da «Verdade». Esses locais – Camões, Chiado, Garrett, Carmo, Rossio, Baixa, são as ruas da minha aldeia.

  7. maria monteiro says:

    Pois agora é o filho Joshua Ruah. Tem consultório na R Alecrim e é médico do meu pai já há muitos anos. Além de excelente médico é uma excelente pessoa que nos vai acompanhando na doença e tem sempre tempo para dois dedos de conversa.
    Também são sempre ruas da minha vida. Havia uns amigos de Portalegre que tinham casa na Travessa da Espera e na Rua Ivens. A minha irmã estudou na ESBAL e eu, com o Quelhas fechado, por lá parava grande parte do tempo. Até o meu médico ginecologista era no LgCamões e a pediatra do meu filho na RChagas Uma ida ao médico era sempre um agradável passeio pela baixa…

  8. Carlos Loures says:

    É um pequeno mundo. É como uma aldeia. O Eça andou por todas essas ruas. Tal como o Fernando Pessoa. O Pessoa quase não saía desse pequeno perímetro – ir a Sintra era uma aventura.

    Joshua Ruah é o rábi da comunidade judaica, não é? É uma pessoa de uma grande cultura, se é o que eu penso.

  9. maria monteiro says:

    Não sei em que posição está dentro da comunidade. De grande cultura e ao mesmo tempo de muita simplicidade

  10. Ana Maria says:

    Boa noite!Já li Eça há muitos anos e decidi começar a lê-lo novamente começando pela”CIDADE E AS SERRAS”:Deparou-se-me uma curiosa dúvida que,de tanto pesquisar na Net não cheguei a nenhuma conclusão,talvez pudessem esclarecer-me.O Palacete nos Campos Elisios no 202 exitiu mesmo ou é “imaginário”?Se existiu,há fotos?Foi demolido ou recuperado?Ainda não fui a Paris,mas de certeza que farei uma busaca a este respeito.Obrigado pela vossa atenção.Cumprimentos.ANA

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