Who’s afraid of the big, bad wolf?

Recentemente fui passar um fim-de-semana ao campo. Fiquei naquilo a que se chama uma “casa de hóspedes”, destas em que a estada decorre num ambiente familiar, e que funciona às mil maravilhas se calha a gente de gostar da família que lá vive. Da família, felizmente, pouco vi, porque os seus amáveis membros rapidamente deixaram os hóspedes com a empregada e fugiram para os seus divertimentos equestres. Chegámos já de noite e não foi nada fácil descobrir o monte no qual se erguera a casa que nos receberia. Caminhos enlameados, nem uma única placa informativa, escuro como breu numa noite sem estrelas.

“Porque está tão escuro?”, perguntava esta citadina acagaçada. “Porque estamos no campo”, respondia o meu companheiro, que, como todos os que cresceram no campo, tem um gosto especial por me fazer sentir inapta sempre que deixamos a cidade para trás.

É verdade, no campo não há luz. E a escuridão, como sabem todas as crianças, é um território alarmante porque nele há espaço para que tomem corpo todos os nossos temores. Pousei o inútil GPS e fiquei a olhar pela janela do carro, enquanto o carro avançava a custo sobre trilhos de lama. Vi bandos de homens brandindo garrafas partidas, alcateias de lobos esfomeados, reuniões de feiticeiras aborrecidas com a interrupção, vi tudo isto e mais alguma coisa até que ao meu lado ouvi uma voz tranquilizadora: “É ali, já a vejo”.

De todas as pessoas com quem me cruzei nesses dias, gente da terra ou que levava ali muitos anos, não encontrei ninguém que parecesse assustado com a escuridão. Só os maricas da cidade é que teimam em ver ameaças no escuro porque nunca viveram a mais de cinquenta metros de um poste de electricidade. E a ausência da escuridão – essa que faz das histórias de fantasmas contadas à lareira um prazer que arrepia e dará pesadelos mas do qual não se quer fugir -, essa ausência obriga-nos a procurar outras, tão ou mais tenebrosas histórias, de monstros que passeiam à luz dos lampiões e que não desaparecem quando se liga o interruptor.

Deve ser essa a explicação para os mitos urbanos. O rapaz que, depois de se render aos encantos da loura espampanante que conheceu na discoteca, acorda numa banheira coberto de cubos de gelo e com um rim a menos. A saga das mulheres assaltadas no multibanco por um ladrão munido de uma seringa e que vai combinando, a cada versão, três dos seguintes adjectivos: coxo, romeno, velho, maneta, desdentado, cigano, louco, gago, furioso, negro, e etc.

Há uma moral em todas essas histórias, seguramente. O medo da diferença, personificada no agressor estrangeiro, o castigo infligido aos fornicadores imprudentes. À perpétua luz das cidades, o medo é do outro. Como essa senhora tão fina, proprietária de imóveis na minha rua, que, tendo combinado com alguém que vinha ver a loja para alugar, desabafava, “espero que não demore muito, estou aqui sozinha na loja e ainda há bocado tive que meter-me lá dentro porque vi passar dois pretos. Tenho muito medo de pretos, sabe? Não sei porquê, mas tenho.”

Eu abri a boca para dizer “Porque é racista, minha senhora, é por isso”, mas levei uma cotovelada de quem já suspeitava das minhas intenções e tive de alterar, mesmo em cima da hora, para uma resposta adversativa mas mais cordial.

No campo, na última noite na casa no cimo do monte, só restávamos nós, todos os outros hóspedes tinham partido. A empregada despediu-se com um sinistro “Ficam com a casa toda por vossa conta”, acompanhado de uma risadinha que a mim me pareceu digna de um Vincent Price, mas que, a esta distância, admito possa ter sido cordial, e saiu para a sua própria casa, a uns duzentos metros. Uma alcateia perfilava-se em torno da casa, o mais velho dos animais farejava no ar o cheiro dos humanos…

– Cala-te lá com os lobos! Não há lobos por estas bandas, por favor dorme!

Está bem, não há lobos aqui, eu acredito. Adormeci a certificar-me de que tinha o telemóvel com bateria, pronto para ligar para o 112 ao menor sobressalto. Creio que o meu último pensamento antes de adormecer deve ter sido “Quanto tempo levará a GNR a chegar aqui depois de ligarmos?”

Quando acordei, no dia seguinte, o sol começava a subir, já se viam as árvores de fruto e as terras lavradas, e o campo tornara a ser encantador, como o é sempre para os citadinos, desde que na sua versão benigna. Já de regresso a casa, aqui na rua onde a escuridão nunca reina, reflectia sobre a minha bravura. Eu que tive sempre tanto brio em andar sozinha pelas ruas da cidade, a qualquer hora, sem necessitar de guarda-costas, basta que me cortem a electricidade para ficar com o rabo entre as pernas. Sejam as estradas desertas em noites sem estrelas ou gente com um tom de pele diferente teimamos em ter medo do que não conhecemos, não é?

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Medo do desconhecido, por isso nos mete tanto medo usar, pela primeira vez, uma determinada palavra! Sem lobos!


  2. É o medo do desconhecido que permite e desculpa muitas atrocidades.
    Com ou sem lobos.

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