Manuel Serra (1932 – 2010) e as batalhas campais no PS de 1974


Morreu no Domingo Manuel Serra, um histórico do PS. Nos tempos que se seguiram ao 25 de Abril, foi protagonista, no Partido Socialista, de alguns dos momentos mais quentes, liderando uma ala que defendia a aproximação ao Partido Comunista. Foi eleito para o primeiro Secretariado Nacional do Partido em Dezembro de 1974, mas acabaria por abandoná-lo poucos dias depois.
Nos «Contos Proibidos», num episódio que já se publicou por aqui, Rui Mateus descreve esses momentos quentes do PS: ««Entretanto, o tempo se encarregaria de revelar novos episódios em matéria de financiamentos. Vinte anos após o 25 de Abril, ao ser preso por alegado desvio de fundos públicos, o ex-presidente da Venezuela, Carlos Andréz Perez, declararia que uma parte desses fundos teria sido entregue a Mário Soares. Foi a primeira vez que eu ouvi falar do assunto, que foi confirmado à Agência Lusa por uma fonte não identificada do Palácio de Belém («Público», 22/05/1004). (…)
Os trabalhos [do I Congresso do PS depois da Revolução] iniciaram-se com a leitura de um telegrama de saudações enviado por Mário Soares ao Presidente da República Costa Gomes. O mesmo, segundo os joranis da época, foi vibrantemente aplaudido de pé pelos congressistas.
Logo no início foi aprovada uma moção subscrita por Manuel Serra e Maria Barroso em que se afirmava que «o PS defenderá o modelo constitucional democrático que melhor consolide a aliança do Povo e das forças democráticas com o MFA. Depois, tendo em conta que a ratoeira comunista passava por sensibilizar o seu conhecido egocentrismo, Mário Soares foi reconduzido na Secretaria-Geral sem qualquer oposição, o que já não aconteceria com a orientação do Partido.
Para a Comissão Nacional, Manuel Serra não preconizou tal unanimidade e, depois de uma autêntica guerra campal, a lista da direcção histórica do Partido sairia vencedora pela escassa margem de 94 votos, tendo a lista de Manuel Serra obtido quase 44% dos votos dos congressistas. O nome de Mário Soares aparecera nas duas listas concorrentes, por ordem alfabética na lista da direcção histórica e à cabeça da lista que o PCP promovera por meio de Serra. Aliás, só por milagre Mário Soares não sairia daquele Congresso como secretário-geral de dirigentes afectos a Manuel Serra e ao Partido Comunista.
A confusão era tanta que ninguém se entendia e os organizadores do Congresso, predominantemente pró-Serra, que, vale a pena repetir, Soares encarregara da Segurança do Partido, utilizariam todos os meios de coacção e até força para impedir os «históricos» de exprimirem a sua voz e o seu voto. Eu próprio, que para além de fundador, fazia parte da Comissão Directiva vigente e era delegado em representação do núcleo de Malmoe na Suécia, fui inicialmente pura e simplesmente impedido de entrar no local do Congresso. Só depois de umas boas horas alguém conseguiu encontrar Manuel Tito de Morais no interior para vir à porta obrigar os «gorilas» a deixarem-me entrar.
As relações entre os «militantes» socialistas estavam longe de ser solidárias e nem sequer primavam pela boa educação. Era o resultado da invasão ocorrida no PS, após o 25 de Abril, de todo o tipo de novos militantes. Com isso mesmo tinha também contado o PCP. No final, ainda insconsciente do que ali se tinha passado, Soares afirmaria que não tinha havido «vencedores nem vencidos» mas apenas «socialistas e camaradas». . Provar-se-ia bem pouco depois, já em Janeiro de 1975, que assim não era. Aliás, Manuel Serra advertira já no seu discurso final, com a arrogância de quem quase conseguira o que se propusera, que saía do Congresso «com a fraternidade de militantes revolucionários, de militantes da classe trabalhadora». O primeiro Secretariado Nacional, eleito em 21 de Dezembro, ainda incluiu Manuel Serra que, contudo, abandonaria o Partido poucos dias depois, na esperança de levar consigo os «44% de militantes revolucionários, da classe trabalhadora». Se tal não aconteceu deveu-se, com grande grau de probabilidade, à visão de Francisco Salgado Zenha. Mas o Partido Socialista nunca recuperaria totalmente da psicose do golpismo que se iniciou log após o 25 de Abril e de que o I Congresso na legalidade seria um bom primeiro exemplo. Passaria a fazer parte da própria evolução e história do movimento socialista português.»

Comments

  1. Carlos Loures says:

    A primeira vez que se ouviu falar de Manuel Serra, foi quando do assalto ao quartel de Beja, em 31 de Dezembro de 1961. Ele era um dos mais destacados elementos católicos que integraram o movimento em que, o então capitão, Varela Gomes ficou gravemente ferido. Já depois do 25 de Novembro de 1975, quando a sua FSP não tinha condições para prosseguir luta, estive em diversas reuniões com ele e com a esposa, a advogada Marinela Coelho, na tentativa (em que se empenharam numerosos antifascistas) de promover o advento de uma organização em que a esquerda extra-parlamentar se unisse – uma espécie de BE avant la lêtre, mas com mais ambição. Só depois de fracassadas estas diligências, Manuel Serra e Marinela Coelho aderiram ao PS, onde continuaram a sua vida política. Lamento profundamente a sua morte, pois Manuel Serra era um homem de grande coragem.

  2. Carlos Loures says:

    Rectifico algo de errado que digo acima. As reuniões da AEPNA, a tal organização não-alinhada, que vários militantes de esquerda quiseram levar por diante, foram (de facto, depois do 25 de Novembro) por volta de 1980. Porém, Manuel Serra e Marinela Coelho que tinham extinto a FSP em Dezembro de 1979, não voltaram à vida política, como erradamente, digo. Peço desculpa pelo erro.


    • Eu conheci o Sr. Manuel Serra em 1974. Quando se tornou dissidente do PS. Foi ele que “apadrinhou” a abertura da sede FSP, em Rio Maior. Mais tarde esta sede foi destruida, no recheio dos móveis da Moçidade Portugesa de Rio Maior, em 1975 e pelos móquistas, sob o comando do homem da moca, meu sogro.

  3. Nuno Castelo-Branco says:

    Pois, ainda há uns dias, na homenagem ao Camossa, se falou na ligação do M.Serra com o sector dos monárquicos no assalto ao Forte de Beja. Vera Lagoa – que aparentemente não gostava nada dele – escreveu uma crónica que se bem me lembro, tinha como título o Manecas das Intentas. O Carlos Loures deve saber bem dos meandros de tal alegação. Podia esclarecer?

  4. Carlos Loures says:

    Não estive por dentro desse processo. A alcunha que a Vera Lagoa pôs ao Serra, pegou «Manecas das Intentas», por ter estado ligado a diversas «intentonas», desde o golpe da Sé até ao ataque ao quartel de Beja. Não tinha conhecimento das ligações dele aos monárquicos. Aos católicos sim, concretamente à JOC. Era também dirigente sindical, da Marinha Mercante, creio. É natural que a Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) que começou por ser de esquerda, casada com o Tengarrinha, e ligada ao PCP e depois derivou para a direita mais reaccionária, não gostasse de uma pessoa, como o Serra, que sempre manteve uma grande verticalidade.

  5. Carlos Loures says:

    Mas, de facto, havia monárquicos entre os civis envolvidos no assalto ao quartel de Beja. Estive preso com um marceneiro lisboeta (da Fundação Ricardo Espírito Santo), de cujo nome não me lembro, mas que era conhecido pelo «Conde», por ser monárquico.

  6. Nuno Castelo-Branco says:

    ehehehehe, Carlos, com que então um marceneiro monárquico e bem na tradição da mais activa oposição dos tempos de 1910-20.

    Ainda bem que o Carlos não é do PC, pois dizer uma coisa dessas era motivo para auto-crítica obrigatória, seguida de expulsão ou opóbrio ad eternum!

    Mas de facto, o Camossa esteve envolvido com o Serra na intentona de Beja. Ele e o Amado, segundo creio.

  7. Carlos Loures says:

    Esse marceneiro, o «Conde», quando entrou no nosso calabouço, onde estávamos já uns quatro ou cinco (foi em 65 e tinha havido uma grande vaga de prisões), depois de se apresentar, a primeira coisa que perguntou, foi se podia dizer palavrões. Dissemos-lhe que sim, embora tivesse que pagar cinquenta centavos por cada um – tínhamos instituído essa regra para sanear a linguagem. Então o Conde puxou de cinco escudos, pô-los sobre a mesa e pausadamente, contando pelos dedos, foi gritando o que se imagina. O carcereiro, alarmado, abriu o postigo. Nós ríamos que nem perdidos. No fim, respirando fundo, o Conde explicou: estava há muitos meses numa cela com gente do comité central do PCP. Eram terminantemente proibidos os palavrões. Quando o Conde se distraía, o Rogério de Carvalho já nem dizia nada, olhava-o por cima dos óculos e o Conde já sabia que ia ouvir um responso dos antigos. Então pediu transferência e ali estava ele.
    Quando, de manhã, fazíamos a nossa hora de ginástica, o Conde ficava estendido no seu beliche imóvel, olhando o tecto. Era um novo tipo de ginástica que lhe tinham ensinado – ginástica mental – imaginava os exercícios e, segundo ele, era tão eficaz como praticá-los. Toda uma personagem, o Conde.

  8. Nuno Castelo-Branco says:

    Caro Carlos Loures,

    O que será necessário fazer, para que o meu amigo escreva um post a contar tudo o que sabe sobre o marceneiro? Que conto fabuloso, pode ter a certeza de que será um êxito de bilheteira. Divulgá-lo-ei o mais que puder.

    Ou será necessário ir a rastejar até à Ericeira para me fazer a vontadezinha? Estas histórias não podem ser perdidas. Já viu bem o que tem em mãos? Aproveite, homem!

  9. Carlos Loures says:

    Sobre o marceneiro, de pouco mais me recordo. Era um tipo alto e, pese embora a sua origem humilde, com ar aristocrático. Tirando os palavrões, era um tipo educado, que ouvia a minhas discussões com os outros (todos do PC, menos eu), como se estivesse a observar extra-terrestres. Às vezes ria-se. Nunca teorizou sobre a sua ideologia e não respondia às provocações, quando os pecepistas lhe chamavam a atenção para o paradoxo que ele constituía – um operário monárquico. Não estivemos muito tempo com ele, porque passados dias, fomos, os jovens, transferidos do Reduto Norte para o Sul, onde ficámos, salvo erro, 21 presos na mesma sala.
    Mas o Nuno não conhece o mercado – estas histórias interessam a poucas pessoas. Além disso, a maior parte delas nem as escrevi. Esta, a do Conde, é contada em primeira mão. Em memória do Manuel Serra (que não era monárquico).


  10. Olá a todos vós que escreveram comentários sobre o Saudoso Manuel Serra.
    Continuai!… e dizei tudo o que vos lembrais e sabeis.
    – Sim da JOC.
    – Sim do Sindicato na Marinha Mercante
    – Sim do Caso da Sé.
    – Sim do caso de Beja, etc.
    Muitas dores de cabeça para a PIDE.
    Também muita desilusão de certas indivíduos que se dizíam Camaradas e de Esquerda, nas alturas mais necessárias.
    Alguns se aproveitaram da força de carácter, facilidade de alocução dele e estímulo revolucionário, talvez para melhor o lixarem.
    Teve muitos amigos e camaradas de luta honestos, mas também alguns de “meia tigela”.
    Era bom que aqueles que com ele combateram o fascismo dissessem algo em que participaram pessoalmente.
    Estou a compilar “histórias de luta revolucionária com o Manuel Serra pela Instauração da Democracia em Portugal”.
    Conheci-o desde miúdo, sou amigo e familiar, lutei na sombra com ele e de certo contribuí para muita coisa interessante que saiu dele e de alguns como ele.
    Não posso nem devo falar delas (poucas) porque simplesmente ele nunca falou e respeito a sua decisão. Posso simplesmente dizer que de certo fez alguma coisa para que o MFA no 25 Abril se concretizasse. Diga-se que ele nunca foi de dizer nem de se gabar do que fez. Lembro-me de me dizer : Para que pá… Sabes que dissestes ou fizestes! Isso deve-te chegar. Mas estava de acordo com ele que há muita coisa que se não deve dizer. Também nada fiz de especial porque são histórias minhas e….
    Um abraço de fraternidade para com todos os camaradas e amigos do saudoso Manuel Serra… descansa em PAZ prezado amigo e companheiro.
    Virgílio Cordeiro

  11. José Mário Rodrigues says:

    Maravilhosas estórias.

    Manuel Serra tinha um irmão igualmente revolucionário. Alguém sabe do percurso dele e de estórias para partilhar?

  12. Ernesto Soares says:

    Nem toda a verdade histórica está descrita.A primeira infiltração – ilegal,subterrânea e de não militante, aliás, guterrista,- foi de Manuel alegre. Soares e e seus acólitos tinham dado a primeira vitória à contra-revolucao. A vaidade dos que só eram opositores à situação vigente ante 25/abril por não lhes ter sido dado lugar no regime,conforme a História e a posterioridade o comprovam!,são os grandes responsáveis do retrocesso revolucionário e da situação calamitosa ,corrupta e miserável do país. A História os julgarão. Um dia,o povo se libertara!…

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