Podemos continuar no Euro?


“Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.” * (Bertrand Russell)

No meu artigo  “Porque vale a pena apostar em África” publicado em 04.07.1997, afirmei entre outras coisas:

“ … O caminho da saída da crise [de então], de valores ideiais e materiais, portanto, não é o do euro. Nem para Portugal nem para os UE. Esta, para assentar finalmente com os pés no chão, terá que ser construida, antes que venha o euro, em primeiro lugar nos corações dos seus cidadãos … “. Ao mesmo tempo propôs uma estratégia diversa cuja perseguição asseguraria a Portugal uma ascenção sócio-económica orgânica e sustentável.

Como é sabido, uma vez que na altura o mar ainda estava azul e calmo e os subsídios fluiam abundantemente, essa estratégia não foi perseguida. Com efeito, os “capitães de água doce” optaram pelas medidas de costume. Precisamente aquelas que nos levaram à situação em que hoje nos encontramos. O euro acabou por ser introduzido com sucesso e parecia uma solução definitiva não só para os problemas de Portugal mas também para alguns outros candidatos menos fortes da zona Euro – apesar das suas economias fracas e pouco diferenciadas do tipo “me too”.

Hoje, quase 13 anos mais tarde e tendo-se chegado ao fim da linha, leio a seguinte afirmação taxativa do ex-ministro Economia Daniel Bessa feita numa entrevista na revista Sábado nº 300 de 28 de Janeiro 2010 (cf. anexo):

“Portugal terá que sair do Euro. Não podemos lá estar”

E diz mais: “… Se Portugal não for capaz de encontrar, depressa, outros factores de competitividade além do preço, nomeadamente inovação, pode ver-se obrigado a abandoná-la (a zona Euro)…”.

O meu conselho: o país devia tentar manter-se na zona Euro e iniciar uma rigorosa inovação e especialização nas necessidades urgentes de um determinado grupo-alvo no mundo. O primeiro passo está dado, com Angola um importante membro desse grupo-alvo mais prometedor já foi encontrado. Mas há muito mais países além dos PALOP onde Portugal poderá dar cartas.

Todavia, atenção: tudo só funcionará se a (necessária) inovação tecnológica, que se traduz em produtos e serviços, for precedida de INOVAÇÃO SOCIAL. E inovação social significa a formação de um pequeno núcleo de pessoas com as competências sócio-emocionais e técnicas em equilíbro, isto é, com a capacidade de ver o mundo com outros olhos.

No entanto, nem todos os “suspeitos de costume” – ‘espertificados’ nas faculdades de gestão, com MBA tirado nos States, etc.  – que hoje ainda dirigem as nossas empresas, serão capazes de dar essa viragem mental e prática. Mas pelo que se ouve cada vez mais lá fora não é impossível. De facto, parece que até empresas ainda há bem pouco tempo consideradas como ex-libris do “capitalismo predador”, de Saulo estão a virar para Paulo. Como assim? Muito fácil: verificaram sob a crescente pressão que trocar o egoismo primário – maximização do benefício próprio imediato – pelo egoismo secundário ou altruísta – maximização de benefícios alheios – traz um sucesso maior, mais lucrativo, seguro e, sobretudo, mais sustentável – e por cima muito menos estressante.

Agora falta que se constitua o tal “núcleo duro de cristalização” o qual, mudando as regras, crie os primeiros exemplos de sucessos. Sobretudo em tempos de crise outros aderirão rapidamente. E os políticos? Se eles forem capazes de esquecer as suas querelas estéreis que tanto os mantêm entretidos, a ajuda deles em termos de mudança de regras de jogo dava jeito. Mas as coisas também vão sem eles, pois os virados “Paulos” já não dependem dos subsídios deles e se precisarem de financiamentos tê-los-ão graças à atractividade do seu projecto. Basta começar de fininho e continuar em pequenos mas rápidos passos para frente.

Impõe-se agir com a máxima urgência, pois segundo Daniel Bessa “sair do Euro e regressar à desvalorização nunca será uma boa solução (significará, no mínimo, uma perda de 15 a 20% no poder de compra de todos os portugueses)”. “Vae Victis !” – ai dos vencidos. A saída é pela frente!

Rolf Domher

*Nem a estupidez nem a inteligência levam ao sucesso, apenas a estratégia certa é capaz de vencer a dualidade entre ambos os antagonistas sempre presentes.

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