O ser e o parecer da liberdade de expressão

Parece-me incontestável que uns palermas do PS, com a complacência, a anuência, o apoio, do primeiro-ministro urdiram uma teia destinada a eliminar da comunicação social vozes dissonantes dos muitos predicados do chefe do executivo.

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Parece inegável que, além de imprudente, José Sócrates fez uma triste figura ao abordar, num restaurante cheio, responsáveis de uma estação televisiva acerca do “problema Mário Crespo”. Mais uma vez pôs-se a jeito. É repetitiva esta habilidade de se comportar como um elefante numa loja de porcelana.

É indiscutível que o chefe do Governo aldrabou o país no caso PT / TVI. A confusão entre o saber de forma oficiosa ou por via oficial não abonou a favor do primeiro-ministro. O cargo exige que nada do que lhe chegue ao conhecimento seja oficioso. Tudo o que lhe chega ao conhecimento é oficial. Ponto.

Parece-me absurdo que o país grite “censura” no caso da publicação, pelo semanário Sol, das escutas do processo “Face Oculta”, sem conhecer os fundamentos invocados na providência cautelar apresentada pelo agora famoso administrador da PT.

Parece-me absurdo que se fale em censura e “algo nunca visto em Portugal desde o 25 de Abril” quando, em diversos jornais, revistas, estações de rádio e televisão, Manuela Moura Guedes, por exemplo, tenha possibilidade de dizer e repetir que há censura em Portugal.

Parece-me desnecessário que se façam manifestações públicas em defesa de algo que nunca deixou de existir – a liberdade de expressão. Prova disso são os inúmeros artigos de opinião em jornais, rádios e blogues, as entrevistas e declarações televisivas críticas para com as pessoas que hoje se encontram no poder. Se isto não é liberdade de expressão…

Parece-me disparatado o pedido de providência cautelar apresentada pelo agora famoso administrador da PT. Disparatado e perigoso. É sabido que nestas coisas o feitiço vira-se sempre contra o feiticeiro. O Sol só tem a agradecer.

É discutível a legalidade da publicação das escutas. Não sou especialista na matéria e já ouvi de tudo.

Parece-me estranho que o presidente da PT, mesmo depois de se sentir “encornado”, não tenha demitido os administradores que o encornaram, ou não se tenha demitido ele próprio. Como tenho Henrique Granadeiro por um homem muito sério e profissional, imagino que venha a tomar um dos dois caminhos muito em breve.

É garantido que todos os governos, passados, presente e futuros, têm a tentação – e às vezes mais que isso -, de controlar a comunicação social e procurar afastar as vozes incómodas. Uns convivem melhor com as críticas, outros apresentam sérias dificuldades neste domínio. Parece ser o caso presente.

Comments

  1. Carlos Fonseca says:

    Caro José Freitas, estou de acordo com tudo, à excepção de considerar o Granadeiro um homem honesto.
    A honestidade tornou-se em atributo difícil de aplicar com rigor e justiça, especialmente a ‘carreiristas’ do género de HG. E se não tivesse sido ‘encornado’, pactuaria ou não com golpe? É aqui que reside a minha dúvida – uns milhões de ordenado são obstáculo de monta para a coragem de ser activamente honesto. Duvido e duvidar é suspeitar sem acusar.

  2. maria monteiro says:

    o que continua a ser estranho, mas verdadeiro, são os “grandes exemplos” transmitidos de pais para filhos, de padrinhos para afilhados … o ser e o parecer nas famílias politicas, empresariais, religiosas… “se for eleito e/ou bem pago ficarei calado” … digamos que é uma forma muito discreta de honestidade

  3. António Soares says:

    Agora temos mais um emigrante, do nosso banco de Portugal…depois de deixar as contas em ordem,vai para vice do BCE,por boas( notas)do trabalho que fez aqui.Será que temos de ser sempre assim????Que sucata de gente!!!

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