Dia da Mulher: Não quero flores


Nem flores, nem qualquer outro gesto simbólico que assinale o Dia da Mulher.

Quero a merecida e tão propalada igualdade de géneros.

A passagem deste dia lembra-me sempre que as mulheres continuam a ser vistas e tratadas como seres inferiores aos homens.

O próprio facto de eu ter sido convidada, porque sou mulher, para escrever este post neste blogue, que é sobretudo feito por homens, contribui para essa ideia de inferioridade feminina. Hoje os homens deixam-nos escrever… Iupii!!!

Isto apesar de as mulheres presentes em muitos dos sectores importantes das nossas sociedades serem em maior número do que os homens.

No entanto, as mulheres estão presentes, e muito, nos lugares de base, raramente nos topos. Dirão que é normal. Uma mulher não pode nem deve fazer carreira, sobretudo se tiver família ou se pretender tê-la.

Uma mulher que tenha filhos, mas insista em manter a sua carreira, muitas das vezes tem que não só provar ser muito mais capaz do que os homens seus colegas, como enfrentar as opiniões do mundo, frequentemente da sua própria família. A mãe que com sacrifício deixa os filhos à noite para reuniões importantes ou para tratar de negócios é uma má mãe. Não devia ter tido aquelas crianças, coitadinhas, deixadas assim com o pai ou os avós ou, Deus nos livre, com uma ama qualquer. E, claro, se o marido se fartar e arranjar uma amante, é normal, não tinha mulher em casa a cumprir o seu dever. Um homem não é de ferro, tem as suas necessidades. Já o pai que faz exactamente o mesmo é um grande homem, faz tudo para sustentar a família e se a ingrata da mulher se «mete debaixo» dum qualquer que lhe apareça é uma desavergonhada, não merece aquele marido, devia era ser corrida com dois sopapos. Os sacrifícios que ele faz por ela e é este o agradecimento que tem…

Uma mulher pode desempenhar exactamente as mesmas funções que um homem, mas frequentemente o seu salário é inferior. Infelizmente, vivi pessoalmente um caso destes: quando trabalhava numa empresa privada, cujo dono era um senhor Inglês, um colega contratado depois de mim, para lidar com clientes de menos importância do que os meus (eu tinha nessa altura à minha responsabilidade os maiores clientes da empresa) entrou na empresa como efectivo, com salário superior ao meu, carro da empresa e outras regalias. Quando confrontei o patrão com esta situação, ele disse-me que o colega morava mais longe do que eu e tinha uma filha para sustentar e quando eu aleguei que, então, teria também filhos, o homem ficou atrapalhado e disse-me que nem pensasse nisso. Eu fazia muita falta. Escusado será dizer que, assim que tive oportunidade, me despedi. E esse meu colega foi despedido pouco depois por incompetência. Ele era realmente incompetente, mas não fiquei contente com o sucedido. Apenas vi nisso alguma justiça.

Em demasiados países a mulher continua a ser o pilar que suporta a família, mas também é o ser mais desprezado e humilhado da família. Ela própria transmite à sua prole os valores tradicionais segundo os quais foi criada, contribuindo para que tudo continue exactamente como sempre foi, em nome da tradição e da cultura a que pertence. É ela que conduz a sua filha a quem a vai fazer passar pelo ritual da excisão. É ela que muitas vezes negoceia a entrega da sua filha a um estranho que abusará dela e a maltratará para o resto da sua vida. Nos nossos países considerados desenvolvidos, é a mulher que perpetua estereótipos, passando aos seus filhos e netos exactamente as mesmas ideias com que foi criada.

O Dia Internacional da Mulher dói-me e humilha-me enquanto ser humano. Assim como me doem e humilham outros dias Mundiais ou Internacionais (Dia Mundial da Paz, Dia Europeu da Vítima, Dia Mundial do Animal são alguns exemplos) porque certos direitos deveriam ser inquestionáveis.

Maria Noémia Pinto, leitora do Aventar

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Tem toda a razão,mas Maria Noémia, essa questão de quem toma conta das crianças é muito pertinente. Novos desafios exigem novas soluções. Quem toma conta dos nossos filhos?

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