caluda! fuga, silêncio e fantasia

O que os adultos pedem às crianças

É o que se grita às crianças. É o que os adultos gritam às crianças, quando os adultos calculam. Quando os adultos querem pensar e pensar sem a pequenada em frente. Ou, com a pequenada em frente. Que, ao não saber o que os adultos falam, falam elas. Porque desejam ser ouvidas. E nem sempre ouvidas são. Porque o adulto tem que pensar, decidir, optar. E a pequenada fica confundida, confusa, contrariada. Ainda que não saiba que é assim que fica. E foge. E não ouve. E refugia-se na fantasia. Foge para a rua, não ouve e continua a falar, tece ideias dos contos de fadas.

1. Foge. Foge para a rua, para os amigos da rua. Eles sabem e dão acolhimento, dão camaradagem, dão ternura. Essa ternura que os adultos parecem não ter para eles, por mandarem calar. Os amigos da rua constituem um grupo unido que transfere afectividade, mesmo que dentro das disputas. Mas afectividade, essa que pode existir porque não há laços de hierarquia consanguínea, familiar, paternal, maternal. São, esses amigos da rua, todos iguais. Com a diferença de quem sabe jogar melhor ao berlinde, quem sabe atirar o pião de forma mais acertada, quem emboneca a boneca com fitas mais brilhantes. A hierarquia entre eles, define-se pelas habilidades. A hierarquia dentro de casa, é de idade. E de origem. Os filhos do papá, os filhos da mamã, os filhos do papá e da mamã, esses meios-irmãos que até avós e tios diferentes têm entre eles. Donde, a concorrência de qual é o papá mais valente, vive-se no seio do lar; e de qual é a mamã mais diligente, vive-se dentro da casa. Na rua, os adultos desaparecem para ficar o domínio da conversa apenas a aferir as habilidades para a brincadeira e o jogo. Os adultos que calculam, precisam de gritar e dizer caluda aos pequenos, enquanto combinam como vão fazer para repartir a autoridade entre esses papás que são e vivem fora, esses papás que o não são e vivem dentro. A escola, os deveres, o convívio, são secundárias. A distribuição entre os ancestrais consanguíneos, é que a conversa rival primária: o teu papá não aparece, a tua mamã anda apaixonada pela outra família e o novo bebé…Na rua,

de forma natural, a pequenada é pequenada que de adultos não falam, embelezados pela habilidade de atirar o pião, de subir a correr as escadas do bairro, de brincar na bicicleta. Esse direito à igualdade da Revolução francesa, é praticado pelas crianças que fogem de casa e hierarquizam as suas relações apenas com base nas habilidades. Com as emoções usadas para apoiar o melhor jogador, ou o melhor contador de histórias. Ou o melhor que saiba evidenciar a sua capacidade para o desafio que parte vidros, que tira uma fruta do vendedor, que empurra um adulto não identificado, que atira um bolso, que fuma um charuto. Esse não ouvir dos pais e nos pais da casa, faz fugir para o sítio da igualdade. Nos lares onde isto acontece. Porque há os lares que acolhem e criam todos por igual, embora haja um sempre que fica de fora, ao pé da nova família da mamã. Normalmente, da mamã. Enquanto os papás, esses que sempre perdem os seus filhos, pressionam para fazerem outro que seja o elo de união, ou fantasiam de ser o papá de todos, dos deles e dos dela.

2. Não ouve. A criança desobedece. Quer as escolas, quer os analistas, quer os pedo-psicólogos, andam cheios de pequenada com tiques, que falam para serem ouvidos pelo ancestral que os colocou nessa situação. E não ouve o outro nem a toda a situação que se lhe apresenta na realidade agora mudada. Se a pequenada não entendia os cálculos que os adultos falavam e mandavam calar, ainda menos entende a disciplina que o novo adulto traz para casa. Uma disciplina que precisa de ser partilhada para manter a comunicação e a conversa. A criança acaba por não saber distinguir que a vida moderna não ouve os seus sentimentos. Que a vida moderna distingue entre amor e paixão. Na memória social, existe o facto do cultivo da passagem da paixão ao carinho. Toda a relação tem um ciclo biológico de desejo, que diminui com o desejo satisfeito e não desenvolvido. Um desejo modelado pela cultura, pela sociedade, pela conveniência do que é bom fazer para continuar a História. Que entre os melhores abastados da sociedade, acaba por ser cultivado e convertido em carinho que liberta a individualidade do outro. Que cultivam a intimidade que nem sempre passa pela cama. Pela penetração. Que pode passar pela penetração de outros corpos, até outros corpos do mesmo sexo, saiba o outro ou não. A pequenada não ouve porque não tem os conceitos para sentir com o seu corpo o que os adultos sentem e explicam a si próprios. Tudo se passa pelo curto ciclo de vida da infância, como um meteoro de poucas horas de duração nos curtos anos de vida de infância. Dentro de famílias patriarcais, fatimizadas pela crença de Portugal. E que acaba num comportamento de dedicação aos livros ou hobbies, ou a sonhar acordado de que nada do que acontece, é assim. Dois papás, duas mamãs, oito avós, tios ad infinitum, primos de todos os cantos. Era melhor a rua. E é melhor não ouvir. Para desespero de quem, adulto, não pode agir como foi ensinado: a mandar na infância que mora sob o mesmo tecto. Como acontecia poucos anos antes, quando esse adulto era criança e havia uma mãe em casa o dia todo, e um pai na rua, o dia todo. Com papás e mamãs de todos os cantos na rua o dia todo, a criança não ouve, porque não há ninguém com quem falar. E a criança não ouve, porque não tem palavras como conceitos para entender. E acaba com a queixa dos seus docentes a um dos pais e mães, que ralha com eles. Porque esses docentes, também pais e mães, não sabem o que dizer que não tenha a ver com o Estatuto da Carreira Docente. A criança não ouve, porque não sabe o que está a ouvir. Não sabe pensar no assunto. Não tem epistemologia. Tem sentimentos. E foge outra vez, desta, para a fantasia.

3 A fantasia. O derradeiro refúgio da criança. Reflectida nos desenhos. Como esses que pedi às crianças de Pencahue, dos Picunche do Chile. Como esses de Villatuxe de hoje, na Galiza. Como esses anuais de Vila Ruiva em Portugal, como esses do Vale de Trás-os-Montes, como esses de Cotas de Vila Real, como os de Livingstone na Escócia, como esses de Cambridge. Que reflectem a procura, sempre, do papá. Ainda nos desenhos dos bairros de Santa Inés, Viña del Mar, Chile, Rocuant, Valparaíso, Chile, outros que guardo e nem me lembro. Desenhos acumulados em trinta anos de pesquisa que fala da criança. Pequenada que se refugia na fantasia que foge e não ouve. Fantasia, hoje, que serve para comprar a afectividade do pai não pai, da mãe não mãe, do pai que vive com o pai, da mãe que vive com a mãe. Pares heterogéneos que a criança nem coloca em questão. Se for modelar a relação, até entende pelo menos o modelo que pode comparar com os outros de arranjos de pares que moram juntos como melhor acham. A fantasia que coloca a miudagem a imaginar que o mundo é assim e desenvolve a sua autonomia que paga no futuro, quando adulta, por não ter modelo de compromisso da intimidade, com adultério ou sem ele por parte dos seus adultos. Um imaginário que faz extorsão do adulto mais emotivo. Uma fantasia sem objecto comum de vida, como acontece quando há interesses de trabalho em conjunto. Fantasia que o pai ou a mãe, não pai ou não mãe, sob ou fora do mesmo tecto, acaba por comprar com um telemóvel, com um carro, com dinheiro que leva à aquisição de calmantes ou, mal é possível, à vida fora de casa e a partilhar a vida com outros, com intimidade temprana, que pode fabricar filhos cuidados pela parte adulta responsável, que ainda fique no grupo do dito lar.

Eis que é mais fácil dizer caluda à criança. Até porque, se a criança de forma normal não tem resposta, o adulto que vive uma situação nova na nova Europa que é Portugal, também não tem resposta. E é caluda para o adulto como para a criança. Enquanto o tempo passa para os dois. E, felizmente, o tempo passa e acaba por ser entendido, ainda que ressentido, por ambas as partes. Caluda, pelos menos, no Natal, essa ritual festa familiar que junta, ou não, a família original que, no meio da paixão, fez filhos que o vento do compromisso não cultivado, acabou por tudo levar.

Nota: Escrevo este artigo à luz do aprendido no meu já cumprido trabalho de campo de trinta anos, do texto de Anália Torres Divórcio em Portugal. Ditos e entre ditos, Celta, Lisboa, 1996; de José Gameiro e do seu livro Os Meus, os Teus e os nossos, Terramar, Lisboa, 1997; e os de Daniel Sampaio e os meus, em amável colaboração à distância esbatida pelas conferências em conjunto. E, naturalmente, enquanto oiço Lagrime di San Pietro de Orlando di Lassus, Munich, 1595.

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