os biscateiros ou essa terrível ânsia de viver

Para os Biscateiros que foram o meu modelo de escrita. Em comemoração do 1º de Maio.

Em procura de um texto para comemorar o Dia do Trabalhador, encontrei este que tinha guardado desde 2007, o ano do meu acidente vascular cerebral, do qual melhorei, contra a opinião do meu neurologista, como um Freud qualquer, quem fizera a sua auto psicanálise, essa associação de ideias desencontradas, o mantiveram vivo até os 80 anos, até 1930. Experimentei, deu bom resultado. Eram o fim dos anos 7 deste Século. Dezasseis livros escritos e publicados, salvaram a minha vida e a minha capacidade de pensar e a pouco e pouco, com apoio físico e fisioterapia, a capacidade de andar sem cair. Um casal de operários e uma minha filha que vinha semana sim, semana não desde a Grã-Bretanha, colaboraram para recuperar parcialmente a minha autonomia, ainda não bem restituída. Não conhecia ao meu sujeito de análise. No entanto, por causa da ilusão dessa colaboração, pensei, e foz esta associação, que vós transmito.

O texto diz assim, dentro do meu agradecimento e recuperação de memória:

o divã da auto psicanálise de Freud... usado por mim no meu imaginário

Conhecê-mo-lo na rua. Magro, nem sujo nem limpo, vestido de forma juvenil como a juventude de hoje, essa que dá o aspecto de andar, a par e passo com os tempos. Na nossa juventude era diferente: andávamos de fato e gravata, penteados com brilhantina, cheios de perfume. Tudo o que as funções familiares podiam permitir, ou as posses económicas facilitavam. Aliás, quanto mais dinheiro entrava em casa, mais exibição das possibilidades do lar. Quanto mais investimento em capital, mais investimento nas pessoas do grupo doméstico: estudos para uma vida futura, profissão, carro para namorar ou passear com os amigos. Quem muito tem, muito exibe. Quem nada tem, é um biscateiro. Neste mundo, dividido em classes sociais, para além das definidas por Kart Heinrich Presborck Marx, existem pelos menos duas no calão português: queque e biscate. Conceitos que abrangem, o primeiro, o ser humano não trabalhador e elegante; o segundo, define quem deve ser um peão de todo o tipo de trabalhos, porque não estudou nem ninguém da sua família se importou com os seus modos de andar, falar, ler, escrever, saber história ou outro tipo de conhecimentos. O biscate vive de trabalho em trabalho, bebe, não se importa com as suas amizades, namora todo o que pode e até tem filhos fora do matrimónio. Tanta é a sua falta de cuidado, que acaba por ser protegido por pessoas que o acarinham e que, por compaixão, acabam por amar o menino abandonado.

Foi o que aconteceu connosco. Mal o vimos na rua, reparámos no seu ar sério e composto, na sua elegante forma de ser, a sua beleza em forma física e palavras faladas, que quisemos trazê-lo para casa e investir na sua educação. O que mais chamou a nossa atenção foi a vontade que tinha de viver. Esse esforço para saber e preencher o vazio herdado na sua educação. Não foi fácil. Juntar biscates com os queques que havia em casa, foi um esforço piramidal. Um grande engano, reconheço hoje. Os primeiros mostravam a vontade de viver, enquanto os nossos deitavam tarde para tarde acordar e, por vezes, se estavam para aí virados, ir à instituição de ensino. Ao levar-mos o biscate para casa, existia a intenção dos nossos aprenderem com a visita. Mas, foi tudo ao contrário. O biscate não abandonou o seu desejo de viver e, no entanto, queria viver também á maneira do queque.

Colaborava, é verdade, nas venturas e desventuras do lar, ao ponto de ser um apoio para os mais velhos. No entanto, um certo tipo de apreensão começou a surgir: não conseguia ser queque, pela sua origem de classe. Ainda que hoje estejam facilitados os ingressos nas escolas e noutras instituições como forma de remediar o passado desesperado em trabalhos obrigatórios, o biscate queria ser também um queque e trabalhar para si.

Infelizmente, hoje em dia, qualquer trabalho requer o 12º segundo ano. O nosso biscate tinha apenas a 4ª classe. O nosso biscate namorava tantas meninas quanto podia, fez um filho a uma delas e, sabe Deus, a quantas mais. Porque as contas, nestas matérias, estão sempre saldadas, como debato num livro a ser no Chile, brevemente.

O problema para o biscate residia no facto, de não ser queque. Sem reparar que ser queque é um pecado capital? Normalmente remediado mais tarde, discretamente, pelas famílias. A luta contra si próprio e a sua cultura causavam-lhe depressões de todo o tamanho, até ao internamento num sítio especial, do qual saiu sarado.

A história ainda tem muito para ser contada, mas entre a falta de escola e a falta de lar, seria um livro infindável. O problema poderia ser resolvido, se os pais das crianças que falo, souberem ler entre linhas de forma a organizarem o comportamento dos seus rebentos e despoletar neles essa ânsia terrível de viver que tem o biscate.

Na minha ansiedade de recuperar toda a normalidade, solicitei um favor a uma antiga estudante. Amizade que passara a ser de intimidade, sem me saber eu explicar a doença que me acontecia. Ciúmes e desencontros, iam dando cabo da minha capacidade de homem trabalhador. Soube tornar a auto psicanálise, e, com orgulho, aprendi à solidão que a escrita dá. Sempre apoiado pela antiga estudante, hoje amiga. Sem ela não escrevo nem tenho ideias geniais que me transfere. Outro biscate que soube mudar a sua vida e me acompanhar em dias de desespero, dias de fim de matrimónio fiel.

Agradeço desde o fundo da minha alma e dou-me inteiro pela luta da simpatia. Reparo que pessoas de classes sociais diferentes não conseguem entender-se, aceito essa imensa solidão que me assalta e me ilude dos tempos pasados em que a minha solidão era um requinte que eu procurava para descansar de tanto trabalho

  • Retirado do livro em que trabalho, com o mesmo título. No entanto, o título mudou para O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade, editado por Monografias.com, Rio de Janeiro e Madrid

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