Texto para um amigo

(jaime casais)

(Este meu amigo, arquitecto e pintor galego que vive na Corunha, pediu-me para escrever um pequeno prefácio ou texto de apresentação para um livro seu a sair em breve. Transcrevo-o aqui para aqueles que, eventualmente, se interessem por estas coisas da pintura).

JAIME CASAIS

 Este livro, há muito tempo esperado, sobretudo a partir do dia em que tivemos o privilégio de ver o volte-face da pintura deste grande artista e amigo, Jaime Casais, está para breve. O amigo Jaime quis dar-me a honra de o prefaciar. No entanto, como na altura em que escrevi este texto ainda o livro estava em projecto, eu preferi dar-lhe não o título de prefácio, propriamente dito, o que implicaria uma abordagem da obra nas suas diversas vertentes, mas o nome do autor. Até porque, para mim, é mais grato falar do autor e da sua obra, mesmo sem livro, do que propriamente fazer a clássica análise de um livro. E quer o autor quer a obra são do meu profundo conhecimento. Para felicidade minha.

Há já uns tempos escrevi um pequeno texto sobre o meu amigo, arquitecto e artista Jaime Casais. Como o amigo é o mesmo, ainda que a amizade se tenha apurado, e o pintor tenha evoluído no seu trabalho para obras mais valiosas e mais interessantes, eu mantenho, ainda com mais convicção, as palavras em relação ao amigo, e acrescentarei alguma coisa nas minhas considerações em relação à obra.

Assim, como dizia nesse primeiro texto, falar de pessoas que não deixam a vida parar no tempo não é fácil. É preciso deitarmos mão do que melhor existe dentro da nossa dinâmica de pensamento e análise. Jaime Casais é uma dessas pessoas. Um homem multifacetado, engenheiro técnico, ligado à arquitectura e à construção, à reabilitação do património histórico-artístico quer civil quer religioso, ligado à arte de uma maneira geral e à pintura em particular, homem ligado ao mar e ao pôr-do-sol de Finisterra, iluminado pela luz cristalina da Corunha, embalado pela rendilhada poesia dos matizes da costa galega, profundamente tocado pela curiosidade humana, apaixonado pelo pensamento e pela reflexão, criador de amizades e respeitador da mais profunda generosidade com que entende o valor de um amigo. Um homem com todos os genes que compõem a semente humana da arte e da vida, os dois lados de um artista.

Nesta atraente fase do pequeno formato onde avidamente se embrenhou, decorrente da sua indómita vontade de busca e de mudança, Jaime Casais foi uma surpresa. Deixou, aparentemente sem saudades, o figurativo bem demarcado e a identidade pictórica com o desenho e as proporções correctas, desprendeu-se da hipotética geometria dos sentimentos, e sem perder o modo tocante do movimento e da tinta na procura dos inexauríveis mistérios que estão para lá da pintura, manteve na sua criação um predomínio de figuras humanas e de cenas da vida. Uma surpresa porque, neste abandono da linha desenhada do engenheiro, do arquitecto e do construtor, ele entra abertamente e com toda a pujança por um caminho muito mais livre, espontâneo, emocional, sentimental e mesmo rebelde do pensamento artístico. Uma rebeldia que, ainda que clássica, se reinventa de forma admirável, gerando com facilidade um inédito prazer em quem pousa os olhos nos seus quadros.

Já antes o havia dito, mas agora confirmo com mais certeza, que a sua arte está muito para além das aparências, e que as relações formais, muito menos austeras e muito mais livres, dão lugar à sábia ideia de que uma boa forma não se vê, sente-se. A obra de arte é tanto mais arte quanto mais os efeitos ofuscarem as relações formais. Há muito tempo que penso, e muitas vezes tenho dito que o Homem vive no meio de duas grandes forças: a força que o prende à sua condição humana e a força que tende a projectá-lo no Universo, em direcção à sua dimensão universal. Nesta luta entre a resistência da condição humana e o movimento de fuga para fora dessa mesma condição, reside, a meu ver, a interface onde, provavelmente, a arte e a vida se articulam. Além disso, creio firmemente que o sentimento artístico enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera a necessidade de identificação com a verdade, desenvolve o sentido da estética e da beleza, contribuindo, desta forma, para a compreensão da maravilhosa complexidade dos seres e do mundo.

Assim sendo, eu penso que Jaime Casais evoluiu muito dentro desta área de pensamento e reaprendeu, em minha opinião, que a verdadeira arte decorre da vida, sendo esta, ao fim e ao cabo, o fruto maduro da arte. Por isso, esta profusa produção de pinturas em pequeno formato se encontra repleta de cenas da vida, cenas rurais, cenas de folclore da vida urbana, cenas da vida vulgar, da vida do dia-a-dia, baseadas numa apurada observação da realidade, a que a mão de Jaime Casais, utilizando um poderoso e ao mesmo tempo suave contraste de cores muito bem escolhidas, dá uma riqueza poética admirável. Cores sólidas e deliciosamente imbricadas sem perderem a identidade dos contrastes, por vezes vigorosos, reflectindo ímpetos de espírito que nascem de uma particular e vibrante aquisição sensorial.

Esta surpreendente capacidade de observação ao longo do caminho da vida, muito provavelmente mais interior do que exterior, é extremamente singular pelo facto de lhe permitir, dentro da enorme diversidade dos momentos, uma homogeneização da vida na arte e da arte na vida, através da captação dos matizes mais subtis e da criação de uma paz transcendental, que toca profundamente quem contempla as suas obras.

Da paleta simples e honrada, com um conceito muito pessoal da sua pintura, Jaime Casais parte todos os dias para uma viagem sem fim, repleta de horizontes fascinantes, dos quais ele consegue retirar e captar todo um mundo de vida calma, de vida dura e de vida de sonho, iluminado, mais do que pintado, por uma grande sensibilidade artística.

Não é preciso escrever muito para dizer o que pensamos. Preciso é transmiti-lo com a verdade que sentimos. E o que eu sinto é que a viagem deste grande artista tem ainda muitos mundos pela frente, a avaliar pela força, pelo trabalho e pelo entusiasmo que o conduzem. Este pequeno texto é o meu testemunho sincero, e o Jaime sabe que a minha verdade não se vende, assim como não se vende este meu casamento com a minha adorada Galiza e o meu amor por todos os grandes amigos que lá tenho.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Bem bonito, o teu texto, Adão!


  2. Obrigado, Luis

  3. graça dias says:

    excelente trabalho o do pintor J casais. é espanhol, o produto internacional é melhor e o resto sao tretas.

  4. maría says:

    Esta obra se corresponde a la pintura del artista coruñes Laureano Vidal; yo le he comprado 3 cuadros de este pequeño formato que comenta en el precioso artículo y tan real! sobre la obra de este pintor.
    Desconozco quien es Jaime Casais ni su obra, pero la de Laureano, sin duda! es inconfundible… En cualquier caso, yo le facilito la página web de Laureano por si quiere ver más pintura suya: http://www.laureanovidal.net o también en Facebook: laureano vidal artista (en esta última se podrá encontrar diferentes cuadros de este estilo en un álbum de fotos que pone Feria Baiona)
    Espero que mi aclaración le sirva de algo!!

  5. Jaime Casais says:

    Una vez aclarada la confusión, puesto que el cuadro sí pertenece a la obra de Jaime Casais, por
    favor, eliminen el comentario, puesto que es incorrecto.

  6. Diego says:

    En respuesta al post de María, indicarle que el desconocimiento de la obra de Jaime Casais puede haberle llevado a una confusión, en el margen inferior izquierdo puede observar la firma de Jaime Casais al que algunos conocemos y apreciamos su obra y podemos certificar que la obra es suya.


  7. soy laureano vidal pintor y creo que el sr. casais tendria que aclarar algo sobre el particular en lo referente a los cuadros. yo lo tenia considerado un marchante de arte y coleccionista de esta forma ,se presento en mi estudio y a comprado mi obra durante 8 años lo que yo ignoraba que borraba la firma y la sustituia por la de el (jaime casais).Rogaria quien tenga obra me lo notifique lo mas pronto posible.
    laureanovidal@msn.com
    lwww.laureanovidal.net
    en esta pagina abrir MUSEO VIRTUAL DE LAUREANO VIDAL

  8. juan Ramon says:

    Soy alumno de Laureano Vidal en La Coruña, y puedo decir que la obra de Laureano es inconfundible. Asimismo puedo asegurar tambien haber visto al señor Jaime Casais comprándole cuadros a Laureano en su estudio.

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