o crescimento das crianças em vilatuxe

Fundada no Século XI, recostruida no Século XIX, 1864,centro de eunióes dos fregreses

1 Durante os anos 1995, 1996 e 1997, fiz trabalho de campo entre os Picunche do Valle Central do Chile. Do que fica dos Picunche. Hoje são a memória de costumes que não têm explicação para eles. E não se denominam Picunche, eles próprios: ou são proprietários, ou inquilinos, ou pessoas habilitadas pelos seus estudos superiores, como se pode ver das genealogias que construí no trabalho de campo. Conheci aos Picunche em criança, de forma diferente a como os conheci em adulto, ou em criança adulta. Eram para mim, pessoas habituais. Até para mandar em elas. Anos mais tarde, saí do Chile e não voltei durante trina e três anos. Em 1994 fui oficialmente convidado a visitar o País e dar cursos e conferências. Retornei á terra que conhecia no Valle Central, terra na qual tinha vivido por dois anos e meio em 1971, até esse Setembro trágico de 1973, que me devolveu á Inglaterra. Ver essa terra outra vez, foi uma emoção. Visitei o Concelho de Pencahue, da Província de Talca e encontrei um arquivo deixado pelos espanhóis, que se tinham apoderado do País em 1542. E a minha visão mudou. A minha visão ia já mudada. E entendi aos Picunche, como nunca o tinha feito antigamente. Resultado de esse entendimento, sã as notas que escrevo em este texto. Em conjunto com as notas que fiz de Vilatuxe, a aldeia Galega que tinha estudado a partir dos anos setenta. Fui vinte e cinco anos depois. E entendi Vilatuxe de forma diferente, como o digo em estas notas. Os anos mudam às pessoas. As políticas mudam os contextos. Entretanto, não abandonei Vila Ruiva, em Portugal, que faz 17 anos que conheço e estudo. É desse conjunto de vivências, notas, convívio quotidiano com os habitantes, que me ocorreu continuar a elaborar uma tese que faz já tempo, ando a pensar e continuo a defender em este livro. Enquanto oiço a minha querida Nozze de Fígaro, que me inspira o como eram as pessoas vivas na memória social que faz indivíduos que hoje são.

2 Tese que é muito simples. Toda cultura de uma sociedade, tem duas culturas em interacção: a dos adultos e a das crianças. É dito que as crianças aprendem dos adultos, embora eu diga que todo adulto aprende das crianças. A influência é mútua, a causa do desenvolvimento paralelo dos ciclos de vida. A aprendizagem é mútua e é preciso reconhecer o facto, para poder entender o processo educativo. A resposta a como era quando não era o que sou, passa a ser o crescimento da criança E como é ao longo do livro que falo desta tese que defendo, não acrescento mais na introdução.

3 Não foi fácil escrever. São histórias unidas pela expansão colonial e pelo crescimento mundial do capital no mundo todo. Os três sítios têm visto crescer e derrubar, sistemas sociais e políticos durante os últimos quinhentos anos. Em correlação. Um livro antropológico, é sempre centrado na etnografia. Mas, para entender a etnografia, foi preciso entender os arquivos. Da nova escrita, introduzida entre os Picunche pelos espanhóis, da antiga escrita existente na Galiza e em Portugal. Todos os três, reinos unidos antigamente. E acudir as genealogias, para conhecer o desenvolvimento das pessoas. Porque parte da minha tese, é que cada indivíduo é depositário do passado e do presente, para ser semente do futuro. Em Vilatuxe, vi aos pequenos de faz 25 anos, hoje adultos reproduzidos. E vi aos amigos já crescidos, a viverem no meio de um sistema que mudou pela adesão á União Europeia.

Como Vila Ruiva, que começa a entender que a agricultura não é o futuro de ninguém, mas não é abandonada. O que no seu tempo denominara Estratégias para maximizar, feitas pelos próprios indivíduos em grupo, hoje denomino contexto dentro do qual os indivíduos têm que viver para se defender e manter os seus objectivos de vida. E assim manter a vida. Caso difícil nos três sítios. Foi difícil de escrever, pela necessidade de coordenar o hoje, o ontem e o antes de ontem. Foi difícil. Tive que reiterar historias de vida, factos e nomes, para manter a atenção dentro do ir para trás e para em frente, em longos períodos da Historia de três grupos de três Países diferentes. Foi difícil pela afectividade recordada. Foi difícil, pela autobiografia que os restudos contêm. Pela ausência de algumas pessoas que antes, aí estavam domesticamente comigo. Foi possível, pelo elo de ligação sistemático das três raparigas que me acompanharam na pesquisa, o tempo todo nos três diferentes sítios. Aprenderam, por amabilidade, a ler arquivos de quinhentos anos. Amavelmente deixaram me falar de elas e das suas histórias pessoais. Amabilidade que eu retorqui com o estudo das suas genealogias e passados longínquos. Victoria Berrios, do Chile, Pilar Medela da Galiza, e Anabela Lopes, de Portugal. Em cujas casas vivi com as suas famílias.

4 Livro difícil de escrever, com a pedagogia que aprendi de Paulo Freire. Uma ideia. Persistente. Reiterada. Contextualizada. Debatida com outras visões do mundo. E que dedico as pessoas que deixaram as suas crianças viver, enquanto crescia o adulto que o ego produz para nunca ser o outro, mais sim a síntese de todos os outros em si. Essa Gloria mãe das minhas filhas, que cresceu quando ficou autónoma e independente e amiga para criarmos em conjunto a nossa descendência. Essa minha irmã Banquita, o presente que a mãe me fizera quando eu era já por largos anos, filho único, que cresceu quando soube ser igual ao seu homem, com luta, dor e calma. Á minha descendência Paula e Camila, adultas no ciclo infantil do saber cronológico da vida, a entenderem o real muito cedo crescimento de elas que ajudou a nossos pais a distinguirmos que um assunto é sermos amantes, outra é sermos procriadores. E que da procriação somos igualmente responsáveis e fortemente unidos.

5 Famílias as que agradeço a sua atenção, acolhimento e informações. No Chile, a minha irmã Blanca Isabel que quis abandonar a Inglaterra com a minha sobrinha Alexandra, essa pequena filha minha por amor, com mistura Huilliche pela parte do seu pai. Desse pai das famílias fundadoras do Chile, como a minha. Fundadores que tanta identidade roubaram. Até o ponto de eu me rebelar contra os factos e andar a viver fora e a reconstruir essa vergonhosa historia. Irmã e sobrinha que me emprestaram companhia atenciosa, lar, carinho, amigo e um dos seus carros. Na Galiza, ao meu antigo amigo Hermínio e a sua mulher, a mamã Esperanza, com as suas histórias, comidas, carinho. Em Portugal, ao meu também amigo António Lopes e a sua mulher Fernanda, que me deram casa, comida e agasalho material e emotivo. Sem nenhum de eles levar um tostão pela minha estadia nas suas casas. Porque ninguém me dera um tostão para esta pesquisa: no Chile não, por não ser residente. Em Portugal não, por não ser cidadão. Na Galiza não, por nunca ter reclamado a nacionalidade Espanhola, á qual tenho direito por jus sanguinis herdado da mãe, e á longínqua, herdada do pai. Só a Caixa Geral de Depósitos, confiou em mim para me conceder os créditos que vivo a pagar. Ainda que seja o Banco a ganhar os juros intermináveis, mas úteis para poder pesquisar. Juros que nem me cobravam se a lei não o mandar. A colaboração de Rui Miguel Martins, o meu introdutor infatigável a esta máquina maravilhosa da Internet. As universidades locais, que me deixaram dar cursos e me fizeram Professor Visitante, para poder ter dinheiro de bolso para  gastar na recolhida de dados, que todo investigador precisa. Foi a primeira vez da minha vida em que eu pesquisava sem assistência nenhuma. Sem companhia nenhuma para conversar intimamente excepto a amável simpatia do dia-a-dia, de Victoria, Pilar e Anabela, e de Alejandra Cárcamo. Essa amiga que fez pesquisa lado a lado comigo e Victoria. E a de essa mãe minha, que nos seus 86 anos, andou comigo em trabalho de campo, a ser antropóloga com observação participante. Como antigamente fizeram as minhas filhas, hoje profissionais transferidas aos seus homens. E telefonemas dos meus amigos pessoais. Que, por pessoais, não menciono.

6 As pessoas crescem quando somos crescidos. E nos divertimos, quando guardamos o sentido infantil do bom humor. E parece-me que assim é que vira a ser doravante. Desde que reparei que na vida académica, ou deixamos a burocracia para fazer ciência, ou nunca mais dedicamos a vida ao conhecimento.

Humberto Barbosa percebeu o meu cansaço eterno e acompanhou-me com o seu saber médico. Um ano e meio sabático e tanta escrita feita, desfazem. Como o meu computador, já cansado e a não querer escrever mais. Como o Alexandre Silva, que me tem instruído nos programas para escrever. Como Jack Goody e Maurice Godelier têm me assistido com o seu saber. Um Ramón Maiz, esse hoje fundador e Decano da Faculdade de Sociologia e Ciências políticas de Compostela. E o ISCTE, que me dera licença para voltar a residir, com a coragem dada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia de Portugal para o trabalho de campo com observação participante, nos três sítios mencionados, durante quatro anos de invernos sucessivos. E a de João Ferreira de Almeida, outro campeão da amizade. O antigo pequeno Carlos Varela e a antiga pequena Beatriz Ramos, que me deram tanta explicação e memória. A memória das crescidas crianças, que bem sabem como era quando não eram o que são. Como esses discípulos meus, José Maria Cardesín e a sua mulher Beatriz, que me tiveram em casa em Compostela, até que Hermínio…

7 E a sua mulher Esperanza, me receberam na sua casa do meu velho Vilatuxe. Hermínio, que em essa noite de frio, ao pé do fogão da sua casa de pastor de cabras, me dissera, cheio de sono, que era o bisneto de… um cura…e a trama começou, até ficar elucidada…no livro de quase 200 páginas…

Parede 10 de Julho de 1998.

Parede, de Junho de 2010,

Dias prévios para tornar a Vilatuxe…

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Bonito texto, lê-se de um folgo!

  2. Raul Iturra says:

    Caro Luís,
    E o comentário? Apenas essa frase? Eis porque já estou a ficar farto de enviar texto: foi e é um livro que me levara anos de pesquisa, viagens pagos por mim, como os assistentes. O valor do texto, no meu ver, está no método comparado que uso para entender a mente de três povos diferentes, usando as histórias de vida de três raparigas, que colaboraram comigo ao longo de muitos invernos da Cordilheira. Não acrescento mais. Apenas que o livro está esgotado e devia ir para uma segunda Edição, se a Profedições que edita A Página da Educação, onde também escrevo, agora Revista, quiser, mudando o título: o apelido como título e vice-versa. Obrigado pela sua paciência

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