Um Moçambique que passou


Ao fim da tarde, o whisky dos administrativos, na cantina local.

Hoje é Sábado e parece-me acertado fazer uma pausa nas nossas preocupações com o devir da nação da bola, com fumos de tabacos alheios ou com a transcendência das malandragens de outras personagens que preenchem alegremente o nosso dia a dia.

Indianos, numa rua da velha Lourenço Marques.

Assim, decidi apresentar-vos uma parte importante do trabalho executado pela minha mãe ao longo de décadas. Considero estes testemunhos pictóricos, uma fonte de informação única no âmbito da compreensão daquilo que foi e representou a fase final da presença portuguesa além-mar. Na linha daquilo que Jean-Baptiste Debret fizera no Brasil durante a permanência da Corte no Rio de Janeiro, a minha mãe começou desde cedo, a recolher aspectos característicos da vida na antiga colónia de Moçambique. Interessaram-lhe sobretudo, as incontornáveis cerimónias públicas, as actividades dos quadros administrativos locais, os sectores da economia, a vida familiar e sobretudo, a sua grande paixão pelos usos e costumes daquela excepcional gente que forma aquilo que hoje reconhecemos como povo moçambicano. As cantinas onde um pouco de tudo se vendia e onde ao fim da tarde o pessoal da administração bebericava o muito anglófilo whisky, a consulta ao feiticeiro capaz de curar maleitas e de afastar os maus espíritos, as ruas onde se aglomeravam gentes oriundas do então Indostão britânico, das Maurícias e “estranhos refugiados” europeus do pós-1945, as mesquitas, a comunidade macaense ou goesa e muitos outros temas que compunham com veracidade, a realidade moçambicana daquele tempo.

Mainato nas lides domésticas.

Como é evidente, não se trata apenas de uma obra decorativa, mas com um importante cunho documental e que considero inédita, num país que aprendeu há apenas umas décadas, a esquecer os caminhos trilhados durante séculos. São mais de cem e quarenta pequenos quadros de uma riqueza documental incomparável e que ainda não mereceram a curiosidade ou interesse de quem devia zelar pela preservação de um património que é a nossa razão de ser como nação. Sem qualquer resultado, tudo fiz para encontrar uma entidade que se interessasse por este acervo que um dia, por expressa vontade da autora, deverá ser entregue intacto ao país. Os nossos ignaros e irresponsáveis dirigentes ainda têm um atávico complexo relativamente a um passado já distante, enquanto em nome do progresso, vão alinhavando negócios com potentados de escusos contornos éticos.

A vacinação.

Não se trata de uma obra apologética ou ferozmente crítica do derradeiro período da administração portuguesa em Moçambique, mas tão só o testemunho daquilo que de bom e mau teve. As campanhas de vacinação, as entidades públicas na Província, as escolas, as actividades camponesas, os usos e costumes locais, o absurdo de situações discriminatórias, etc. De qualquer forma e como curiosidade, aqui vos apresento como prenda de fim de semana, algumas cenas de um outro Portugal que morreu.

Pesagem e venda de algodão

Como diziam os moçambicanos à saída do jogo com Portugal, …” a partir de terça-feira, seremos todos portugueses!” E isso é o que conta.

Loja de tecidos indianos.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Com trabalhos destes que a senhora tua mãe nos lega, o passado glorioso e um certo Portugal não morre, caro Nuno!

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