Os pés pelas mãos

(texto de Marcos Cruz)

OS PÉS PELAS MÃOS

A minha filha está na cozinha, em bicos de pés, a tentar chegar com as mãozitas a um pacote de bolachas que eu afastei o suficiente, julgo, da borda do balcão. Afinal, julgo mal: ela fez cair o pacote. Ponho-me a imaginar o que pensará ela sobre a conquista – se achará que foram as mãos as responsáveis, se atribuirá o mérito à inclinação dos pés, se premiará o conjunto ou se nem perderá tempo a reflectir sobre isso, que é o mais provável. O meu pai está na cozinha, sentado, a dizer-me que a ciência, mesmo sendo um cemitério de hipóteses, é o único caminho para a verdade, ao passo que a filosofia é, na generalidade, um amontoado de disparates. Segundo ele, a filosofia é apenas um degrau, um degrau que está abaixo da ciência. Eu pergunto-me, e pergunto-lhe por outras palavras, sem que ele mostre vontade de me ouvir, se esse degrau não estará para a ciência como os pés da minha filha estarão para as suas mãos na abordagem ao pacote de bolachas.

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