Descaramento barrosão


Uma das questões que sempre se colocou à economia portuguesa, consiste no papel desempenhado pelo Estado como uma das essenciais ferramentas que garante o funcionamento do país como comunidade autónoma. Critique-se a sua função motora ou procure-se com ela terminar, voltamos sempre a um beco sem saída. De facto, a iniciativa privada portuguesa sempre do Estado dependeu e nele se apoiou para incipientemente medrar. De secretaria em secretaria, de ministérios em ministério, de almoço em almoço, os empresários lá vão conseguindo os urgentes óbulos que garantam o seu estatuto, permitindo depois, a recompensa dos benfeitores com cargos pós-políticos que estabeleçam rendas e um relativo fare niente prazenteiro. Daí, a total subsidiariedade relativa aos poderes públicos e a permanente osmose entre agentes económicos, financeiros e políticos, ser uma das características basilares desta construção nacional, não se adivinhando nem remotamente, uma alteração substancial nesse pressuposto.

Vista e reconhecida esta indesmentível verdade, mais valerá aceitá-la como permanente, sendo contudo urgente a procura de uma solução que regule o próprio funcionamento da estrutura complexa e aparentemente indesejada. Os factos são o que são e estando os portugueses habituados – e dele são partidários – ao modelo do Estado interventor nas suas vidas, talvez fosse curial encontrar uma fórmula que mitigasse os impulsos esbanjadores ou delapidadores dos agentes que dele se servem. A selecção de decisores consiste no problema a que há que dar urgente remédio, não valendo a pena continuar a sonhar com Thyssens ou Krups há portuguesa, uma vez que deseparecido o grande Alfredo da Silva, pouco restou como memória das grandes azáfamas industrializantes que ergueram ateliers, fábricas, chaminés e armazéns.

O sr. Durão Barroso – desde que foi para a “Europa” desabituou-se da pequeno burguesa monomania doutoral que por cá grassa -, esteve em Lisboa e perorou medianamente acerca dos malefícios da intervenção dos Estados na economia. Sendo o presidente da Comissão Europeia, decerto deverá beneficiar de uma visão do conjunto dos países que compõem a detestada organização a que preside, não podendo vislumbrar em Portugal – queira ou não queira, a sua terra -, a mesma situação que se vive na Alemanha, França ou Reino Unido. Barroso atacou fortemente os Estados que não souberam fazer o trabalho de casa e “não aproveitaram as oportunidades nos tempos das vacas gordas”. Ficamos todos perplexos, dado o inusitado descaramento da afirmação, proferida diante farta plateia de empresários dependentes do saquinho de esmolas providenciadas pelo contribuinte português e principalmente, tendo ao seu lado o homem presidencial de quem foi secretário de Estado e ministro. Durante uma década de mandato, Cavaco Silva beneficiou de contínuas “frotas de ouro do Brasil” que descarregaram colossais somas que levaram o sumiço que se sabe e que foram parar às reservas bancárias e às garagens de muitos dos convivas políticos e económicos presentes na reunião “pelo desenvolvimento”. O caudal continuou na outra década de mandato subsequente e hoje em dia, ainda existem alguns tesourinhos a explorar e quantas vezes esquecidos num gabinete de planeamento que deles se esquece. Os agricultores que o digam.

Vir agora o presidente da CE apontar o dedo a si próprio, não deixa de ser uma originalidade que a ninguém surpreenderá. Para cúmulo, o próprio PC assume agora o discurso outrora exclusivo dos manuais “reaccionários nacionalistas, salazaristas, monárquicos e passadistas”, usando termos como invasão, traidores e expulsão dos prevaricadores. Coisas agradáveis de escutar. Ainda teremos o PC como único defensor do 1º de Dezembro! Mais vale tarde, que nunca.

Comments

  1. António Soares says:

    …Resumindo,o (Cherne), nem é peixe,nem é carne!!!Mas isso já nós sabíamos…

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