O Wikileaks e a máfia nórdica

21 de Junho de 1994. Jan Fredrik Wiborg, um engenheiro civil norueguês, cai da janela de um hotel em Copenhaga e morre. As circunstâncias do acidente nunca foram apuradas, mas o suicídio/acidente passou a ser a explicação oficial. Na altura da morte, Wiborg tinha consigo uma pasta de documentos comprometedores para o Governo norueguês, documentos esses que provavam a falsificação de informações na escolha da localização do novo Aeroporto de Oslo. A pasta desapareceu e Gardermoen acabou por ser a localização escolhida em detrimento de Hurum.

Os jornalista noruegueses Paul Enghaug, Wenche Harbo, John Hultgren e Alf Endre Magnussen iniciaram então uma profunda investigação sobre o caso, publicando como resultado dessa investigação, no jornal Aftenposten, o extenso artigo «Wiborg e as previsões meteorológicos para Gardermoen. Duas histórias sobre o novo aeroporto», que viria a vencer o SKUP Award em 1999.

Uma longa reportagem, na qual é demonstrada a forma como Wiborg morreu a lutar contra os Ministérios, as Agências Estatais e o Parlamento norueguês, sendo que este nunca chegou a receber as previsões de Wilborg que indicavam com exactidão o número de dias que o Aeroporto teria de ser encerrado todos os anos por causa do rigoroso Inverno local. Aliás, foi o Ministério dos Transportes a restringir a discussão às condições de visibilidade, esquecendo todas as outras variáveis climáticas. O próprio Ministro, Sissel Ronbeck, mentiu descaradamente ao Parlamento, já para não falar na viciação dos aparelhos de medição utilizados nas duas localizações possíveis para o Aeroporto.

Toda a reportagem centra-se em duas questões: Jan Fredrik Wibor foi assassinado? As previsões meteorológicas foram manipuladas? Se em relação à segunda pergunta os jornalistas provam cabalmente o grande embuste conduzido conscientemente pelo Governo norueguês, em relação à primeira não há provas que possam ser aceites em Tribunal – a única coisa que fica provada é que não havia qualquer razão para suicídio e que a tese do acidente, tendo em conta as características do hotel, é virtualmente impossível. 

Cerca de 10 anos depois, a Wikileaks mostra bem a forma como os Estados Unidos intervieram na decisão final do Governo norueguês, com conivência deste, na escolha da empresa americana JSF, em detrimento de uma concorrente sueca (Saab Gripen NG) e de um projecto conjunto europeu (Eurofighter Typhoon), para a compra de 48 aviões F-35, que deveriam substituir os velhos F-16 . A 21 de Julho de 2008, a Embaixada americana traça o perfil do Ministro da Defesa da Noruega, considerando-o útil em diversos aspectos. Em 22 de Setembro, o Governo americano é informado pela Embaixada de que o processo de decisão de escolha do novo avião entrou numa fase crítica, porque o Governo tenciona entregar a vitória ao concorrente sueco ou deixar a decisão para o Governo seguinte. A frase seguinte é esclarecedora: «High-level Washington advocacy on this issue is needed to help reverse this trend». A 30 de Outubro, há uma referência a uma reunião com vários membros do Governo noruguês e em particular ao Ministro da Defesa, que terá dado vários sinais, em privado, de que o avião americano ia ser o escolhido.

A 25 de Novembro, a Embaixada americana anunciava que a empresa JSF fora a escolhida pelo Governo da Noruega e de que um esforço conjunto da Lockheed Martin, da Embaixada de Oslo, da Eucom e do Departamento de Estado e da Defesa dos Estados Unidos foi decisivo para esse resultado histórico – a primeira vez que aquela empresa conseguia vender os seus aviões ao estrangeiro. O próprio Embaixador mostra-se supreso com a rapidez da decisão. A 16 de Dezembro, numa espécie de balanço do negócio, extraem-se lições para o futuro e volta-se a relevar o papel do Ministro da Defesa norueguês em todo o processo.

Ao mesmo tempo, jogando num duplo tabuleiro, a Embaixada americana de Estocolmo comunicava ao Governo Federal que era necessário dar uma resposta ao Governo sueco relativamente à utilização dos radares ASEA, de fabrico sueco, nos novos aviões que em nome dos interesses da NATO iriam defender a região nórdica. Ao mesmo tempo, é sugerido que se espere pela decisão norueguesa de aquisição dos F-35 acima referidos.

Tendo em conta este pequeno histórico acerca da forma como a política é gerida nos países nórdicos – onde vivem e governam pessoas que, ao contrário do que é comummente aceite, são tão pouco recomendáveis como as pessoas de qualquer outra parte do mundo – não há qualquer admiração no facto de Julian Assange estar a ser perseguido pela Justiça sueca. Logo nesta altura, é extremamente conveniente. Foi violação como podia ser outra acusação qualquer, caro Rui.

Entretanto, continuam por explicar as explosões de Estocolmo. As autoridades falam em actos terroristas. Vá lá que ainda ninguém se lembrou de acusar os simpatizantes do Wikileaks de serem os responsáveis…

Comments


  1. Está fascinante, Ricardo… :)) Y eu nem sabia destas maroscas!!


  2. Não me parece que possa estabelecer-se, a partir do post, qualquer semelhança entre e Noruega e a Suécia bem como entre a corrupção e o terrorismo.

    Sou céptico a esse respeito e, aceitando os factos narrados, duvido da legitimidade das conclusões.


  3. A questão é saber se é terrorismo ou se é encenação terrorista. Isso é que é o grave Y o mais premente.

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  2. […] século. Todos sempre souberam que há lideranças corruptas em quase todos os países do mundo, mesmo nas mais insuspeitas nações, que praticamente todos os partidos que governaram mais do que dois anos estão atolados até ao […]


  3. […] poder do dinheiro e dos interesses dos grandes grupos económicos. Já abordei, em tempos, o caso Jan Fredrik Wiborg, um engenheiro civil assassinado, presumivelmente pelo Estado norueguês, em 1994. Na altura da […]

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