Como Se Fora Um Conto – A Mercearia do Sr. Janeira

Dia a dia dou por mim a beber a minha cidade, sem sofreguidão, saboreando cada momento, cada pessoa, cada rua, cada viela, avenida ou alameda.

Aprecio o sol coado pela suave bruma, engulo com satisfação os ditos, os palavrões, a calma do senhor que está sentado num banco de jardim a ler o jornal, ou a senhora atarefada que com o saco meio cheio vem da mercearia.

Com muito vagar, sinto o tempo a passar pelo meu corpo, andando para trás, e revejo a vida da minha rua na altura em que eu era pouco mais que adolescente e olhava tudo e todos, julgando que os não via.

Na minha rua havia de tudo, gente de todas as classes sociais e lojas e fábricas e tudo. Era uma rua muito completa e variada. Havia a farmácia, havia “a” mercearia e ainda outra mercearia e depois também um mini-mercado, havia uma garagem para concerto de automóveis e um picheleiro, duas lojas de modas e miudezas, uma padaria e um talho, uma fábrica de botões e uma escola primária, dois sapateiros e uma loja de antiguidades, uma loja de coleccionismo e uma tabacaria, e ainda um marceneiro e um senhor já muito velhinho que se dedicava a fazer lindíssimas caixinhas de madeira para guardar os utensílios de costura. Havia de tudo na minha rua, ou quase de tudo, já que não havia um café ou um restaurante. Nas outras só havia gente, boa, má e também assim-assim. E toda a gente vinha à minha rua para se abastecer. Era uma rua muito movimentada, ainda o é, mas nada parecida com o que um dia foi.

A loja do senhor Janeira, “a” mercearia, foi durante muitos anos o centro de tudo. Na altura, já lá vão muitos anos, tudo parecia girar à volta da mercearia, daquela mercearia. O senhor Janeira e a irmã, enfermeira muito competente e que trabalhava num dos grandes hospitais da cidade e fazia uns serviços de enfermagem nas redondezas, e a mãe deles, eram o centro do centro da rua. Pela pequena loja deles passavam todas as empregadas de toda a gente de bem da rua, e mais as das ruas que havia à volta da minha. Por lá se ouviam desabafos, mexericos, e conversas de circunstância. Até que apareceram os hiper-mercados e os clientes fugiram, e na mesma altura a velhice o atacou, e à irmã, como antes tinha feito à mãe deles. Por fim, depois da morte da mãe e mais tarde da irmã, sucumbiu à falta de clientes e fechou a mercearia tendo vendido o terreno onde ela estava instalada. Acabou a viver sozinho, falando quase com ninguém, tendo como única companhia um cãozito de raça cão, já sem os desabafos, os mexericos ou as conversas de circunstância com que antes o animavam, esquecido por muitos, lembrado por muito poucos.

Quase sem dar por ela, sinto saudades desses tempos. Como se fosse hoje, começam a chegar as figuras do passado, sem que para mim olhem, entretidas no seus afazeres. A senhora alta, comprida, que vivia na esquina, larga o amanho da terra que ainda tem, ou a lida da casa e vem à rua gritar pelo neto “Chiiiiicooo!”, e o Chico que não respondia, nunca respondia, era uma dor de alma ouvir aquela avó quase aflita e às vezes até uma canseira, e a avó que não parava de gritar por ele, até que muito tempo depois se ouvia lá do cimo da rua, de longe, “Já vooooouu!”, a empregada do doutor da casa amarela que à porta do senhor Janeira, com os pés no passeio e a cabeça dentro da loja, pede duas cebolas e três batatas, ah!, e também dois tomates e uma alface, que o senhor doutor gosta muito, ponha tudo numa saquinha que eu vou ali à farmácia aviar um medicamento para o menino que tem tosse e já cá venho buscar e logo à tarde cá virei pagar, – não é preciso menina, diz o senhor Janeira, fica na conta, o outro doutor, de verde, que de verde sempre se vestia, a sair da garagem no seu Renault verde, sempre cedo na manhã, tudo verde, que na Guarda Fiscal era preciso ser-se pouco verde para dar com as sacanices dos malandros, e a garagem a fechar-se pela mão da filha ou da esposa amantíssima, nunca vistas na rua, a não ser por breves momentos, sem que alguém delas soubesse o que quer que fosse, pagando tudo a dinheiro, falando de nada, só das compras, – quanto é?, obrigado, que a vida delas só a elas pertencia, nada na conta do mês do merceeiro, homem bom mas que não tinha nunca ninguém com quem falar a não ser as empregaditas dos doutores da rua e, se calhar por via disso, tudo fazia para que se tivesse uma conta mensal lá na loja para fidelizar os fregueses e ter mais um motivo para dar uma de conversa, pouca que fosse. Meus pais e mais tarde eu, quando já homem com vida instalada e filhos para criar, tínhamos. Não custava nada e sempre se ajudava o homem!

Hoje já não mora nenhum deles lá na rua, morreram todos e os herdeiros venderam as casas, mas a saudade maior vai para o senhor Janeira e para a sua mercearia.

Bebo a minha cidade como outros bebem o que está à sua frente em cima da mesa do café. Mesmo sem dar por isso, mesmo que o não queira, distraído ou nem por isso.

Não sei porque me lembrei de tudo isto. Às vezes é assim, lembro-me de coisas que hoje já nada têm a ver com o meu dia-a-dia. Acontecimentos, pessoas, actos e factos, que fui bebendo ao longo da vida. Coisas de que nos lembramos com o avançar da idade, creio eu.

Qualquer dia sou um velho, como outros o foram antes de mim, e só me vão restar estas recordações, e também a capacidade de olhar para elas com a calma e com o desprendimento de quem tem muito mais, mesmo que não tenha.

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