As minha memórias – 4 – Produção rural

Casa de inquilino no Chile e na América Latina

O título da música que aparece neste capítulo, não é parte do texto que pretendo lembrar. Refere-se a uma batalha denominada Guerra do Pacífico ou de Arica, que narrei noutro capítulo destas memórias. Porém, demos uma «espreitadela» a esse dia 7 de Junho de 1880, em que os chilenos assaltaram uma rocha de 150 metros (as restantes dimensões desconheço-as) de altura sobre o nível do mar. Morro de granito sem outra entrada que pelo costado sul da praia de Arica, o lado peruano. Os chilenos, determinados a entrar no Peru, não tinham outra alternativa senão escalá-la pela íngreme encosta chilena, com recurso a baionetas e cordas. Após várias horas de luta, os chilenos conseguiram tomar posse do morro, esse outeiro arredondado e insulado. A Batalha de Arica, também conhecida como o Assalto e Toma do Morro de Arica, enfrentou à República Peruana contra a República de Chile no sul do Peru. A luta foi cruenta, sendo o campo de batalha a cidade de Arica em Junho de 1880.

A historiografia peruana considera a batalha a mais dura de todos os enfrentamentos ocorridos desde o 27 de Maio hasta o 7 de Junho de 1880.

Posteriormente a este suceso, se desarrollan las Conferencias de Arica para buscar un tratado que ponga fin a la guerra, simultáneamente parte desde Aricala expedición Lynch al norte del Perú con el fin de destruir las haciendasazucareras, que tras la pérdida del salitre de Tarapacá constituían la principal fuente de ingresos del Perú, y pedir contribuciones de guerra a los hacendados peruanos Las conferencias de paz se realizan a bordo de la fragataestadounidense Lackawanna bajo los auspicios del gobierno estadounidense, el22 de octubre de 1880. El fracaso de estas negociaciones dio paso a la continuación de la guerra. Fonte: Emílio Rojas, Luís (1991). Nueva Historia de Chile. Santiago, Gong Ediciones. Bem como a mina memória, após os meus estudos da História do Chile, no Colégio e na Universidade.

A minha intenção era narrar a vida rural, mas como patriota chileno, apenas consigo relatar este troço da História do Chile, que cria orgulho entre os meus concidadãos, dentro e fora do país. Não por matar forças inimigas, que bem mereciam por ataque à traição, sem aviso, mas pela valentia e força dos soldados chilenos que nada temiam e foram sempre em frente, sem se arredar pela guerra ou por outras calamidades que acontecem no país. Como narrava ontem, o Chile dentro de si, não era muito pacífico. Levou anos, desde o dia da independência da coroa espanhola, esse 18 de Setembro de 1810, para pacificar a população, especialmente os mais encapotados dentro da vida económica e política, que por tudo ou por nada, já andavam em guerras civis, mataram dois Presidentes da República e esqueceram-se rapidamente dos tormentos sofridos pela pior ditadura do país (1973 – 1980). Carlos Ibáñes del Campo foi Ministro e Presidente do Chile entre os anos de 1927 e 1931, foi sucedido pela curta mas efectiva república Nazi de Marmaduque Grove e do general Augusto Blanche, situação contra a qual se rebelou, vindo novamente a ser Presidente (l952-1958). Porque Carlos Ibáñez  neste sítio? Foi um dos generais que derrubou a República Nazi causando a queda de Dávila, que governou como fascista, apenas um mês.

Mas a minha intenção não era entrar pelas águas da política de palácio. Era o trabalho rural, temática à que volto.

O trabalho rural, como expliquei no capítulo 3, era realizado por inquilinos. O interessante é saber como é que trabalhavam, trabalho que bem conheço por ter participado nele enquanto passava as minhas férias de verão na hacienda de uma irmã da minha mãe.

O trabalho era pesado e árduo. Às seis da manhã, era acordado pelo cunhado da mãe, para três tipos de serviço: regar hortaliças, um suplício, tomar conta da malha do trigo, diferente nas terras do meu pai e nas dos tios. Na do pai, era feita com cavalos, na dos tios, com maquinaria industrial; super vigiar o trabalho dos inquilinos; tomar conta do molho de palha resultante da malha do trigo e tantos outros trabalhos que eram diferentes de todos os que eu realizava ao longo do ano. Era para mim um prazer inesperado, excepto a rega das cebolas: era um martírio que começava às 7 da manhã, antes do sol de verão picar e queimar o corpo. O problema era a técnica e o espaço: meio hectare de sulcos plantado com hortaliça, regado a partir de um poço, havia, pois, que orientar a água sulco após sulco. Para regar um sulco, era preciso fechar o anterior com pedras e lama e retirar, do seguinte, para a passagem da água, o travão de pedras e lama e assim sucessivamente. Eram, ao todo, trinta regas, que levavam o dia inteiro de sol ardente, entre a pá e os tacões que fechavam o sulco ficava com as mãos feridas. Se eram trinta, era sessenta vezes que eu tinha que tratar do assunto, subir a chácara, descer outra vez, e assim, até às seis da tarde. Devo confessar que dormia como um anjo, nos meus oitos anos de abuso familiar. Até ao dia em que me neguei a realizar esse tipo de trabalho e outro primo, com mais forças que a minha fraca formação corporal, fazia-o… em meia hora…Era a vergonha da família. Pelo que me afastei da família e dos 21 primos e primas, juntei-me aos inquilinos com o pretexto de supervisionar os trabalhos, ia a casa raramente para tomas de banho, comia da mesma panela dos trabalhadores, com uma colher proporcionada pela tia, sempre a mesma comida, ao almoço e ao jantar: feijão maduro com esparguete e pequenos pedaços de carne e abóbora, fruto da planta cucurbitácea chamada aboboreira. Nunca me cansei e era um presente para mim, uma imensa alegria falar da história do Chile, ler livros de escritores chilenos, simples e divertidos para os trabalhadores, como esse por mim tão citado Gran Señor e Rajadiablos de Eduardo Barrios. A personagem principal, ao comer, tanta era a fome por causa do trabalho que começava ao nascer do sol e acabava ao anoitecer, que nem falava. Aprendi a encher o meu prato antes, pô-lo de parte e comer depois. A comida era feita pelas empregadas da casa, às vezes, uma surpresa, apenas para mim, enviada pela tia. O jantar era nas casas dos trabalhadores, enquanto Rufino e eu, o filho do capataz, aquecíamo-la numa fogueira que aprendi a preparar sob a orientação do Rufino. Acabado o trabalho, Rufino e eu, sem roupa, calatos, desnudos ou en cueros, como se diz no castelhano antigo que ainda se falava no Chile, especialmente nos campos, nadávamos no riacho que passava ao pé da parva de palha, que cada dia aumentava à medida que a malha aumentava, por causa da rapidez da máquina que cortava e separava o trigo da palha, não eram os operários que ceifavam, era a máquina. Desses duros trabalhos, ceifar manualmente as searas com gadanha ou foice, estavam livres os inquilinos, que tinham que meter o trigo em sacos carregando-os para um acoplado, excepto os chamados jornaleiros ou afuerinos, que vinham apenas na estação da malha. Durante o dia, em cima do meu cavalo, percorria a fazenda para vigiar os homens não fossem estar a dormir à sombra do molho de palha. À noite, Rufino, mais velho que eu quase cinco anos, por se encontrar na idade púbere precisava, ditava-lhe a sua libido, de mulheres, que ele tinha. Namorada e outros escapes. Costumava perguntar-me se era bom ou mau ter várias mulheres, se não atraiçoava a sua namorada. Pouca experiência tinha eu do assunto, contudo analisava e perguntava-lhe se estava enamorado ou não. Ele ripostava que até aos ossos, mas uma mulher não era suficiente para acalmar os seus desejos sexuais, que eram muito fortes. Às vezes, enquanto falávamos de sexo, eu via a sua mão deslocar-se até ao pénis para se masturbar, ou, como se diz em calão, bater uma pivia ou uma punheta, palavras que não constam nos dicionários. A sexualidade que eu aprendi nesses tempos, foi imensa, ouvia os jovens garanhões falarem de mulheres sempre, sempre, sempre, e do bom que era um orgasmo.

Mais do que uma vez vi que se masturbavam em conjunto ou um entrava no recto do outro, ou esfregavam os seus corpos em abraços, até atingir o grito final do prazer. Para muitos, as mulheres estavam proibidas por serem cuidadas pelos seus pais e ter um matrimónio casto. Se eram ou não, não tenho provas, mas ouvia a tia falar da necessidade de adiantar a festa dos casamentos, normalmente realizados a 8 de Dezembro, porque havia muitas raparigas grávidas. O casamento adiantava-se e era assim que a Hacienda tinha mais inquilinos ouchinas (palavra não usual nos dicionários por ser um termo calão) para trabalhar na casa patronal ou nas das suas irmãs. No meu ver, as palavras são para serem usadas, desde que se definam. Nem vergonha sinto de narrar estas formas de reprodução humana: são factos naturais da vida, como essa vez que o Rufino, ao sair do banho nocturno do riacho, começou a falar da sua namorada e o seu pénis crescia; para minha surpresa, masturbou-se, saltando o sémen a metros de distância. Passado o calor da libido e a minha surpresa, diz-me: Don Raulito, não conte isto a ninguém…O que iria eu contar, se ainda não estavam na minha pose esses conceitos? A libido sim e devem ter ocorrido, por esses dias, os meus primeiros sonhos molhados…que eu não entendia. Foi o próprio Rufino quem me explicou e assim aprendi as minhas primeiras experiências de prazer solitário, aos meus doze ou treze anos. Dai a saltar sobre uma china da casa, nem tempo houve para contar… excepto ao Rufino, já casado, quem me ensinara como era entrar numa mulher.

Os meus primos não sabiam nada disto. Iam de férias, liam, treinavam-se para o rugby ou para as corridas em canoa, porque pensavam que os trabalhadores eram para servir e não falar: eram de outra classe social. Mal ouvi essas palavras, comecei a defender a igualdade dos seres humanos e que ser dono de tantas terras, era um pecado que separava os homens em diferentes hierarquias. Foi o motivo final pelo qual nunca mais fui convidado a essas terras da família, acusado de andar a formar sindicatos e falar de igualdade. Nunca mais fui a essas terras, mas troquei-as pelas do pai, onde, como patrão, tinha imensas regalias. Com o correr dos anos, os nossos corpos cresciam e reclamavam sexualidade, que eu já tinha aprendido e praticava com as filhas dos inquilinos.

Falar assim neste tipo de texto? Porque não, se é a realidade de produção rural e da reprodução humana. Apenas acrescento que as chinas nos efervesciam e nos convidavam para as suas casas e faziam da nossa vida uma delicia…sempre e desde que a família não soubesse….

Continua

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.