Comecei a morrer há alguns anos, quando ainda respirava, o que é só um sinal aparente de vida. Comecei a morrer quando já não conseguia contar as rugas, quando o simples acto de caminhar se transformou em ginástica. Comecei a morrer, quando tudo em mim se tornou incómodo: a incontinência, os nomes que me fugiam da cabeça, a tendência para contar várias vezes as mesmas histórias, a dificuldade em perceber os programas de televisão. Passei a viver num cemitério e morri em casa. Parece que, de vez em quando, davam pela minha falta, o que é diferente de sentirem a minha falta, claro. Se alguém sentisse a minha falta, talvez não tivesse morrido tanto como morri.
Agora, descobriram-me, como se fosse um continente desconhecido que já existia antes de ser descoberto. Ressuscitei nas capas dos jornais e nos programas de televisão. Depois, começaram a escavar e descobriram mais alguns como eu. O ar encheu-se de palavras em forma de lágrima, mas só em forma, porque falar é fácil e escrever é falar mais baixinho. É mais fácil tratar de mim, agora: dou muito menos trabalho do que quando tinha incontinência e não me lembrava dos nomes e contava sempre as mesmas histórias que só eram interessantes para mim.
A verdade é que só me custou estar sozinha até deixar de respirar. Depois, estive sempre acompanhada: sim, que não há companhia mais constante do que a morte. Depois de ter morrido este tempo todo, transformei-me numa sobrevivente, num exemplo, quase num tratado de sociologia, numa prova de que este mundo não é para velhos, se é que alguma vez foi.
Quando, daqui por cinco minutos, se voltarem a esquecer de mim, muitos outros poderão continuar a morrer em silêncio, não em paz, em silêncio, com uma voz assim muito fraquinha. Um dia, um deles aparecerá morto numa capa de jornal ou num programa de televisão e voltarão a falar de mim, que sou uma das mortas mais desconhecidas da História.
Fotografia de Sandra Bernardo







belo texto, ainda que triste. muito triste.
Querem diminuir as hipóteses de cairem numa velhice solitária? Invistam mais nos afectos, na familia, sejam mais tolerantes e compreensivos e amáveis, sejam menos egoistas e individualistas, livrem-se da inveja, da ambição desmedida e procurem combater permanentemente a natural estupidez humana. Filosofem mais e deixem-se de lamentações e medos inuteis.
O meu unico comentario e o seguinte: Tenho a minha mae a viver aqui, pois não sei mais o que posso fazer, tudo esta mal para ela, o acusa-me de estar mal disposta depois de um simples Bom Dia, quando os cães vao a visitar e porque e por interese como todos os outros e vão todos ver um dia, tantas coisas que me diz todos os dias, mais foi sempre assim, e depois os idosos são abandonados. So eu e que sei o que ela me faz sofrer.
Falar ou escrever sobre isso, como eu fiz, é fácil. Difícil é envelhecer sozinho ou acompanhar, todos os dias, o envelhecimento de alguém.
Compreendo muito bem o seu sofrimento.
Não devemos criticar as familias que colocam os seus velhos nos lares ou os “abandonam” à sua solidão só porque não é “humanitariamente correcto”.Há muitos casos em que os velhos se tornam insuportáveis, pois ao não digerirem bem a sua mortalidade e a sua decrepitude, tornam-se azedos e cruéis.Aproveitando-se dos laços de sangue e da consciência moral de quem os acolhe, abusam dos mesmos, inflingindo uma violência psicológica constante.
Não sei se isto é comum a toda a velhice ou se apenas ataca naqueles que sempre foram mais amargos e egoistas que os demais.Não sei se esta “amargura” é biológia ou apenas o resultado de uma vida em que não se adquiriu muita sabedoria: aprender a morrer em paz.
Para aqueles que ficaram muito indignados com as mortes solitárias recentemente mediatizadas um conselho: procurem analisar as coisas para além das aparências e do que fica bem dizer.
biológica e não biológia.