as minhas memórias-16-os nossos ancestrais, amavam?

membros da Nacão Mapuche, proprietaria do CHILI, até a invasão espanhola

Como sabem, ao longo da minha vida dediquei-me a entender o contexto da produção de crianças e percebi que essa produção, não é resultado exclusivo da transferência de saberes entre adultos e filhos de uma casa. A análise (de longa duração), percorre as vidas de três raparigas de dois continentes: Victoria, do clã Picunche do povo Mapuche, do Chile, Pilar, de Lodeirón, Paroquia de Vilatuxe, Pontevedra, Galiza, e Anabela, da aldeia de Vila Ruiva, Concelho de Nelas, Portugal. Analisei os seus pensamentos e os das suas famílias. De Pilar tenho já falado. De Victoria, apenas foi mencionada num outro ensaio, como Anabela. Hoje vou introduzir Victoria, do clã Picunche do concelho ou municipalidade de Pencahue, que limita com a cidade de Talca, capital da Província Maule.

Os Picunche eram denominados Promaucaes pelos conquistadores, no século XVI. Na altura que os Castelhanos foram ao país frio, o chile dos Quechua, esses habitantes da hoje República do Peru, esse inimigos imbatíveis, impossíveis de conquistar nas guerras índias (Villalobos, Sérgio e tal. 1974; Lizana, Elías, 1909; Ovalle, Alonso de (1646) 1969, Pedro de Valdivia, (1545-1542) 1991. Os purum auca, os inimigos imbatíveis para os habitantes do norte do sul do hoje continente americano. Os que dançam, para os Castelhanos, os que se divertem, para quem fez uma tradução errada das palavras mapudungun. Puru, feliz para os Mapuche e para os que Mapuche têm querido entender. Para os Mapuche, Picunche, são as pessoas do Norte, che é pessoa, e Picun, Norte. Habitantes do Norte, aliás, do Norte do rio Choapa, que separa os lugares nos quais viviam. Até Valdivia entregar as terras dos nativos aos invasores, como relata ao Imperador Carlos V, nas suas cartas. Eram sessenta as famílias invasoras. Terras assaltadas, mais tarde beliscadas, com raiva, com lanças, com flecha e arco, perdidas e tornadas a recuperar no dia em que o contrato de compra e venda entrou nas transacções, séculos depois. Picunche que teciam, teciam a lã dos guanacos locais da Cordilheira de Los Andes, das lamas e vicunhas importadas pelos prévios invasores Inca. Tinham uma horta em cada grupo consanguíneo de lares contíguos, ou rucas, feitas de madeira e barro. Madeira não elaborada, fibra de madeira, ramas de uma árvore, plantas de junco ou coligue entretecido e enchido com lama ou barro, a quincha, como o material é ainda denominado e usado por grande parte da população do país. Antigamente, pelos Pehuenche, os Huilliche, os Picunche, os Mapuche, as várias famílias dos Rauco. Os habitantes não parentes, às vezes inimigos outras aliados, conforme a contingência dos tempos. Por engano, eram denominados Araucanos pelos Castelhanos (Silva Pereira, Luís, 1998; Bengoa, José António 1985; Villalobos, Sérgio 1974). Cultivavam o que ainda hoje usam para a sua alimentação e condimento: milho, feijão verde, cabaços ou pencas (origem do nome da aldeia de Pencahue que analisava, a quente guinda ou piri-piri, ou ají em mapudungum; a batata que salvou a Europa e a fez crescer demograficamente e em proteínas, e mani ou amendoim. Havia outras plantas, desconhecidas entre nós, nos verdes vales regados pelos canais de águas tiradas aos rios circundantes, o branco Claro, e o navegável Maule. Espantados ficaram os Castelhanos ao verem um homem com tantas mulheres, até seis ou sete, e tantos filhos. Varias Crónicas sobre o Chile, relatam a fertilidade das terras, a fertilidade das pessoas, a fertilidade do imaginário que adjudica um deus ou espírito a cada fenómeno natural, a cada animal, a cada pessoa. Até hoje, com nomes mortos na memória, mas vivos na dos Mapuche (ver Silva Pereira, 1998). Mapuche e Picunche partilhavam os mesmos deuses, a mesma cosmogonia, que os Castelhanos apagaram rapidamente nas Doutrinas ou Reduções (reservas) para as quais transferiram esses habitantes. Habitantes que, em breve, se misturaram com os Castelhanos e outros povos do Estado Espanhol, que aí chegaram. Desde 1666 em frente, é possível ver nos arquivos da Parróquia de Pencahue, esse imenso manuscrito que tive a sorte de encontrar, os nascimentos de Yndios, espanhóis, escravos, mulatos e mestizos, verificando-se uma percentagem crescente de mestiços ao longo do tempo, filhos de mãe índia e sem pai conhecido, ou casado com a mãe. Ocorre no século XVIII, a Encomenda ( Eyzaguirre, Jaime,1963), ou seja, a entrega de índios à custódia espanhola – ignorantes que nem sabem nem podem cultivar por serem preguiçosos, como comentavam os espanhóis. A Encomenda acabada e os nativos, chamados posteriormente, na cronologia da História, inquilinos, começam a aparecer no arquivo de matrimónios (que tive a felicidade de descobrir na cave da paróquia) em combinações reprodutivas de espanhol com mestiço, índio com mestiço e eventual espanhol com espanhol. É só em 1829 que aparece a primeira referência ao chileno, passando, anos depois, por decreto da já República do Chile, a serem todos chilenos, excepto, os não nascidos no Chile, ou os que mantêm o jus sanguinis – direito à nacionalidade pelo local original de nascimento da ascendência, numa terra, onde prima o jus solis – direito à nacionalidade por ter nascido dentro das fronteiras do novo Estado ou nova República, que começara a existir, material e simbolicamente desde 1810, passando a ser um país livre, por direito de guerra, em 1818 e legalmente, desde 1833, data da primeira Constituição .

É desta combinação de sangues, que os ancestrais de Victoria, aparecem, como a sua genealogia, escrita nos livros do meu achado. Época em que os matrimónios eram rituais celebrados conforme o estatuto social das pessoas. Tempos em que os pais só o eram, se fossem da mesma raça ou etnia. Entre Picunche, a união é patriarcal, o longo ou chefe da família, mora com as suas mulheres de idades diversas, na mesma ruca ou rucas perto umas das outras, onde vão morando os filhos mais crescidos, que tomam mulher e têm filhos. Todos em conjunto, vão trabalhando as terras férteis, em família no sistema de mingaco, ou reciprocidade consanguínea sistemática, para trabalhos pesados que precisam de muitas pessoas. Trabalho e festas eram combinados, com comida e chicha ou álcool de milho ou maíz fermentado. As rucas, todas juntas dentro da mesma área ou lov em mapudungum, facilitava o trabalho da família extensa, patriarcal e de filiação patrilineal: as mulheres saíam dos seus lares e das suas famílias para ingressarem no sítio de rucas ou casario do cacique o chefe do grupo doméstico alargado. É assim que começa a família de Victoria, até onde foi possível traçar a sua origem nos ditos arquivos paroquiais. Originária de Rauquen, localidade elevada a Paróquia, em 1699, como Doutrina de Rauquen, em consequência da Doutrina Encomendada pela custódia de índios e terras de uma família espanhola, os Parot. Rauquen, casario Picunche onde morou a última Cacique da denominada monarquia Picunche, Doña Ana, que em 1665 organiza um malon ou ataque por surpresa, à Vila de San Agustin de Talca ou Tralca (trovão em português). A derradeira Cacique ou chefe política Picunche, derradeira, dizia, porque o casario Picunche, de propriedade nativa, passa à categoria de Doutrina, Paróquia depois e a Encomenda e Hacienda dos espanhóis. É pelos anos de 1700 que o espanhol encomendado de Rauquen, casado com Pascuala Allende, faz o primeiro filho, o primeiro mestiço, na pessoa de Tránsito Cerpa, inquilina de Rauquen, filho fora do matrimónio, criado pela mãe, que veio a casar com Fortunato Arredondo Cerpa, e com Juana Maria González Zapata, filha, neta e bisneta de nativos do dito Rauquen, todos inquilinos já da hacienda de espanhóis, e das novas Haciendas de Rauquen, Libún e outras como Quepo, Las 200, Toconay, Corinto, Carrizal, localidades onde as mulheres, cortadoras de folha e tecelãs, cultivam, também, as terras dos proprietários. Vivem com o seu grupo, ou com o homem com o qual fazem filhos e deles esses homens, preocupam-se; casam com nativos (inquilinos) ou com espanhóis que fazem crianças com elas e cujos nomes (apelidos) dão, somente, aos filhos varões. A ancestralidade de Victoria, pelo lado materno, é de origem Picunche, como é possível apreciar em tipos corpóreos, em costumes e crenças. A avó, mãe da mãe de Victoria, é neta de nativa e de espanhol (não casados), segundo a sua genealogia. No século XVIII, os nativos são seres humanos, mas não são pessoas. Entidades desconhecidas ainda a acreditarem no deus Pillán, que traz malefício aos que lhes fazem mal a eles próprios. Um roga pragas Pillán, usado até à actualidade, para as pessoas se defenderem de pragas que lhes são rogadas. Para os Picunche, tratava-se dos invasores que lhes tinham tirado terras e hierarquias. A hierarquia Picunche é muito simples: o cacique ou pater famílias de um grupo consanguíneo extenso; os shamanes ou gestores das divindades heterogéneas que governavam pessoas, as suas condições, e as sua pertenças. Mais do que chefias ou estratos, são estatutos sociais adquiridos pela capacidade ou poder de lidar na coordenação de actividades e habilidades da família extensa. O cacique, coordena actividades reprodutivas; o shaman, habilidades existentes, ou restauradas caso haja incapacidade temporal, e orientadores de espíritos. Uma cosmogonia que permeia os ditados das crenças católicas, pregadas em homilias e catequeses pouco entendidas por causa da língua, da experiência histórica, e dos símbolos, como tão directa e simplesmente, é dito por Gomes da Silva (1989). Eu acrescentava, pela luta de memórias acumuladas cronologicamente, sincretisadas na aceitação do Outro no Eu. Como a Historia Colonial demonstra. Como analiso nos meus livros de 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto; 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo; Afrontamento, Porto; 2008: O presente, essa grande mentira social. A reciprocidade com mais-valia, Afrontamento, Porto, entre outros

Bibliografia:

Iturra, Raúl: vide ut supra

Lizana, Elías, 1909: Apuntes para la historia de Guacarcahue, Imprenta y Encuadernación, Santiago, Chile;

Ovalle, Alonso de, (1646) 1969: Hiftórica relación del Reyno de Chile, Instituto de Literatura Chilena, Santiago, Chile;

Silva Pereira, Luís Cirilo da, 2000: Médico, Xamã ou Ervanária, ISPA, Lisboa;

Valdivia, Pedro de, (1542-1545), 1991: Cartas de Don Pedro de Valdivia, que tratan del descubrimiento y conquista de la Nueva Extremadura, Editorial Andrés Bello, Santiago, Chile;

Villalobos, Sérgio, 1974 Eyzaguirre, Jaime, 1963: História de Chile, Zig-Zag, Santiago de Chile;

Villalobos, Sérgio; Silva, Osvaldo; Silva, Fernando; Estelle, Patrício, 1974: História de Chile, Editorial Universitária, Santiago, Chile.

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