Entre o ser e o estar

Em 1994, Vicente Jorge Silva baptizou os estudantes universitários de então de “geração rasca”. Aconteceu num editorial do Público, em plena luta estudantil contra a Ministra da Educação Manuela Ferreira Leite, por causa das propinas.
Ironia do destino, a classificação da autoria do então director do jornal Público, serve agora, com a devida correcção, para avaliar o que se fez a este país e às novas gerações.
Tanto quanto se sabe, a geração que estudava em 1994 não dominou os partidos políticos, os órgãos do poder, a banca ou que fosse. Não foi ela a responsável pelo desgraçado ponto a que o país chegou.
A outrora geração rasca e as novas gerações, passaram a estar, sim, à rasca. E essa diferença entre ser e estar, resulta da constatação evidente que muita diferença há entre a presunção e a água benta.
Em rigor, neste fim-de-semana ficou demonstrado que há várias gerações à rasca: os estudantes sem futuro, os desempregados ou os contratados a título precário, os reformados, etc.
Avós, pais e filhos, juntaram as suas vozes e fizeram-se ouvir nas ruas, de modo civilizado mas interventivo. Comprovando que temos uma juventude mais esclarecida e reivindicativa do que se poderia pensar. Atenta e inconformada. E que rasca não é o que são mas antes naquilo que os puseram. Rasca é quem pôs o país como está.
Quem pensa que as manifestações não têm qualquer relevo prático, é porque ignora a importância da dinâmica social para as grandes mudanças. Ou deseja que as mesmas não procedam. E a melhor forma de minimizar os seus efeitos é tentar desvalorizá-las. Compreende-se: a mudança assusta sempre.

(Publicado ontem no semanário famalicense “Opinião Pública”)

Comments

  1. Nesta forma de algazarra alternativa e desorganizada, não se adivinham as consequências sonhadas por alguns – é bom ter presente que não estamos (ainda) perante uma revolta. Mas que aquecem as condições sociais para uma “mudança de paradigma” no combate político, lá isso aquecem.

  2. Maria says:

    Bom día Sr. Teixeira.
    Sou uma estudante espanhola de português e estou a fazer um trabalho sobre a “geração à rasca”.
    Gostava de saber a historia desta organização, onde e como nasceu, se tinham outro nome no inicio e qual é a finalidade deles. Se alguém me puder ajudar agradecía imenso.
    Deixo o meu contacto por mail para me enviarem qualquer coisa. mariajpg1@hotmail.com.
    Muito obrigada

  3. Lino says:

    Vicente Jorge Silva há-de passar à história apenas por essa expressão infeliz. É justo. Rasca era também a geração dele, mas mascarada de “idealismos”. Idealismos que se viviam em Paris e Argel, enquanto os “rascas” serviam de carne para canhão em África. Essa expressão foi, é e será sempre uma expressão muito infeliz. Nos EUA, pela mesma época tinha sido cunhada uma designação muito apropriada e assertiva: Geração X. É diferente… muito.

  4. QUE MERDA

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