José Leite Pereira: a esquerda é sinistra e a democracia uma chatice

(…) o perigo que o país atravessa passa também por aqui: o de não se perceber ou não se aceitar a vantagem que temos em estar na Europa e com o Euro, e sermos atirados para uma deriva de esquerda que torne o país ingovernável e nos afaste dos padrões ocidentais que são os nossos. É bom recordar que a Europa apenas nos pede aquilo que lhe fomos pedindo emprestado.

José Leite Pereira, o director do JN, vive, por estes dias, inseguranças terríveis, à espera de saber para que lado penderá o poder, problema fundamental para quem tem como critério editorial ajoelhar-se. Diz o iluminado director que a Europa corre o risco de ser atirada para uma “deriva de esquerda”. Percebo que andar à deriva seja um problema, independentemente de o barco inclinar mais para estibordo ou para bombordo. A parte mais engraçada do texto do ajoelhado comunicador social surge quando afirma que, graças à possibilidade dessa deriva sinistra, se corra o risco de ficarmos com um “país ingovernável”, afastado dos “padrões ocidentais que são os nossos.” O genuflectido dirigente não se terá apercebido de que o país já está ingovernável? Tanta ajoelhação não terá permitido a esta admirável criatura verificar que essa mesma ingovernabilidade nasceu de anos de derivas, com o barco a inclinar muito ou muitíssimo para a direita?

Entretanto, para a documentada luminária, os “padrões ocidentais que são os nossos” não são feitos de esquerda, que é uma coisa quiçá oriental, porque, como se sabe, Karl Marx era mongol e Santiago Carrillo integrou as invasões bárbaras, na equipa dos Vândalos. Para além disso, o pessoal de esquerda fecha-se em casa a temperar tudo com açafrão e a beber sake. Só o multiculturalismo fracote de uma Europa tolerante impede a deportação dessa comunistagem toda para a Sibéria.

Quanto à história de que “a Europa apenas nos pede aquilo que lhe fomos pedindo emprestado”, prevejo que, dentro em pouco, a História da nossa entrada na CEE venha a ser comparada ao Tratado de Methuen, provando que temos o triste hábito de vender barato o nosso tecido produtivo, para além de termos políticos que aplicam mal os vários ouros dos diversos brasis, com consequências sempre para os mexilhões e nunca para os gastadores. Uns gastaram, outros pagam, que é para isso que serve o IVA.

O final do texto é uma lágrima furtiva em memória de Maria de Lurdes Rodrigues, figura tão amada por Leite Pereira, por ser tão dotada desse marialvismo que faz de cada ministro um forcado solitário e corajoso que se atira para os cornos das corporações. Leia-se o seguinte pedaço de, vá lá, prosa:

Não sei que reacção teve a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues quando viu o PSD e toda a Oposição parar a avaliação de professores. A actual ministra abespinhou-se, naturalmente. O presidente do Sindicato dos Professores afivelou o seu sorriso trocista e vitorioso. Maria de Lurdes Rodrigues, certamente, terá reforçado a ideia de que poucas culpas tem no cartório: o regime, apodrecendo, desdenha a autoridade e eliminará ministro atrás de ministro.”

Vamos lá por partes: a avaliação de professores não foi travada, foi revogada (continua a existir, portanto, mas, em Portugal, escrever opiniões num jornal nunca é um exercício de rigor). Depois, descobre que só há um Presidente e um Sindicato dos Professores. A seguir, parece não ter gostado que esse mesmo presidente tenha afivelado um sorriso “trocista e vitorioso”, apesar de ser natural nas pessoas que se divertem, o que é potenciado pelas vitórias (onde estava Leite Pereira, quando Maria de Lurdes Rodrigues chamou “cobardes e chantagistas” a cerca de cem mil professores? Estaria em casa a afivelar um sorriso trocista?).

O último período é o remate perfeito, típico daqueles que acreditam que a autoridade apodrece a partir do momento em que a democracia funciona. O que deveria fazer um regime que respeita a autoridade? Na opinião de Leite Pereira, usar o músculo e nunca os ouvidos. Ouvir profissionais especializados é, para plumitivos destes, um sinal de fraqueza, nunca de bom senso. Imagina-se um director de um jornal a querer saber a opinião de um jornalista? É evidente que não.

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  1. […] completamente inapto para poder ser um comentador moderno, como um Miguel Sousa Tavares ou um José Leite Pereira ou um Pacheco Pereira, gente abrangente, capaz de perorar sobre tudo com base em […]


  2. […] Na realidade, para sabermos o que é um anti-europeísta, não será má ideia pensar no que é ser europeísta e, afinal, explicar o que é a Europa ou de que Europa estamos a falar. A questão é pouco mais complexa do que ser adepto de um clube e odiar o adversário. Talvez por ser complexa, a sua compreensão está vedada a todas as pessoas que, tendo nascido em Boliqueime, chegaram a presidentes da República ou a outros que chegaram a ser directores de jornais. […]

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