Dicionário do futebolês – o árbitro não quis ver

Diante de uma falta que se torna evidente na décima repetição em câmara lenta, são muitos os comentadores, de filiação clubística assumida ou não, que sentenciam: “O árbitro não quis ver.” Não é a única frase que corresponde a um processo de intenções no universo do comentário futebolístico. Os comentadores são, muitas vezes, autênticas cassandras que adivinham os mais secretos pensamentos de tudo quanto é participante no mundo da bola pontapeada, pelo que também não é menos frequente assistirmos à tradução quase simultânea dos gestos de um treinador, cujo significado pode ser desconhecido para o comum dos telespectadores, mas não é segredo para os adivinhos que tudo sabem e tudo vêem.

Já se sabe que o futebol português reflecte a mentalidade imaturamente lusa que atribui sempre as culpas aos outros, sendo o árbitro o bode expiatório preferido. Num contexto como este, uma frase destas é de uma irresponsabilidade absoluta, porque reforça a ideia de que o árbitro é, sempre, alguém mal-intencionado que escolhe as faltas que apita, a não ser que se engane a nosso favor: nesse caso, o árbitro é apenas humano e, por uma única vez, fomos beneficiados.

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