Islândia: O país da caixinha para a moeda

Agosto de 2009: duas semanas de férias na Islândia! Foi assim que conheci o país. Ou melhor, que o visitei pois, como todos sabemos, não é em duas semanas que se fica a conhecer um país, por mais pequeno que seja, e muito menos em “contexto férias”.

Ainda assim, esse período bastou para dar uma volta completa à ilha, com o vagar que as pequenas distâncias permitem e a facilidade de orientação geográfica assegurada pelo facto de ter optado por percorrer a única estrada integralmente asfaltada do país. Uma enorme vantagem para quem, como eu, não nasceu com GPS incorporado.

Os sacos estão à disposição do freguês, que coloca as moedas na caixa

Apesar de tranquilas ou, se calhar, precisamente por isso, foram duas semanas intensas, ricas em sensações fortes.

Desde deslumbramento perante paisagens belíssimas: fiordes, glaciares, quedas de água, montanhas imponentes, enormes extensões de verde, intercaladas por rebanhos de ovelhas, cavalos islandeses, casas de madeira com telhados cobertos de turfa.

O que se poderá presumir de uma nação que não tem exército…?
De uma nação cujas forças policiais não andam armadas…?

Até um enorme respeito pela terra que pisamos, conscientes da poderosa actividade vulcânica e geotérmica que se desenrola debaixo dos nossos pés – em alguns locais, a menos de 100 metros de profundidade! – e cujas manifestações se vêem, sentem e cheiram (aprendi que o enxofre cheira a ovos podres!) por todo o lado, em crateras de vulcões extintos e activos, campos de lava, fontes termais, geisers e fumarolas, que nos recordam constantemente o nosso verdadeiro lugar no planeta.

Passando por uma profunda serenidade, aliada a uma noção de espaço verdadeiramente única: a Islândia tem uma área de cerca de 103.000m2 para aproximadamente 300.000 habitantes, metade dos quais residentes na capital, Reykjavik; de todos os locais que já tive oportunidade de visitar até hoje, a Islândia foi o único em que verdadeiramente percebi o significado da expressão “ouvir o silêncio”.

Se de tudo o que vi da Islândia resultaram sensações inesquecíveis, dos islandeses guardo apenas impressões, pois tal como em duas semanas não se conhece um país, conforme referi, muito menos os seus habitantes.

Por isso reconheço que a ideia com que fiquei daquele povo louro de olhos claros, um pouco retraído ao primeiro contacto mas sempre educado e prestável, resulta em grande parte da forma como interpretei situações, atitudes e comportamentos; nesta medida, não pretendo, nem seria correcto, aqui deixar conclusões. Mas permito-me levantar questões sobre o que poderá estar subjacente, cultural e socialmente, ao que por lá vi(vi).

O que se poderá presumir de uma nação que não tem exército…?
De uma nação cujas forças policiais não andam armadas…?
De um país onde, para se visitar um monumento, se deposita o valor da entrada num local assinalado para o efeito, sem que nada nem ninguém o imponha, a não ser a consciência de cada um…?
Da mesma forma que se compra um saquinho de tomate fresco directamente de uma carroça no meio de nenhures, sem ninguém para fazer a cobrança, apenas uma caixinha para pôr a moeda…?
De um povo que, ao longo de uma qualquer caminhada ou percurso pedreste, vai deixando na beira do caminho peças de vestuário que o aquecimento corporal entretanto tornou supérfluas, para depois as recolher no trajecto de regresso, com a naturalidade de quem sabe que estarão exactamente no local onde foram deixadas…?

Ou, mais recentemente, de um país que verdadeiramente penaliza a incompetência dos seus governantes, derrubando o governo por meios pacíficos, e chamando à justiça os banqueiros responsáveis pelo seu colapso financeiro em 2008… ?

Deverá então concluir-se que a islandesa é uma sociedade perfeita? Claro que não, nem tal conceito poderá algum dia passar disso.
Mas que todos nós, aqui no nosso cantinho, teríamos algo a aprender com os islandeses, lá isso…

Isabel Moreira

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Quem é esta?

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