O dia da mãe: história comercial, como Wojtila

história comercial

 ...para Maria da Graça….

 

Agradeço aos meus colegas de Aventar, terem-se lembrado de ser hoje o dia do trabalhador e editado um texto meu, escrito às 6 da manhã, com alterações, por ser a sua base um texto antigo.

Não sei a sorte deste ensaio. Lembro, no entanto, de ter feito queixa e arguido, num outro ensaio, esse juntar o Dia do Trabalhador com o Dia da Mãe. A minha arguição é que a mãe é também uma mulher trabalhadora. Trabalhadora em dois sentidos: para ganhar a vida pata o lar, com ou sem marido, casada, solteira ou amancebada, como a lei classifica, mas mãe por parir crianças denominados filhos, amamentá-los, limpá-los, tratar dos seus estudos, ou, simplesmente, ensinar o que falta aprender, em casa. É o trabalho rotineiro de uma mulher, com ou sem ajuda de membros da família pai, avó, irmã, crianças filhas já crescidas ou amigos especiais.

Este ensaio tem dedicatória. Não é passar graxa, é reconhecer o facto de uma mãe só, com uma única filha que estuda no estrangeiro, estudos pagos em parte pela mãe, em parte pelo trabalho que ela faz fora das horas de estudo. O que for, enquanto a filha estuda fora de Portugal uma profissão especial de longa duração, essa mãe avó, colabora cuidando da neta. É o pacto: não dá dinheiro, usa-o para criar a pequena neta com o melhor ensino possível: escola, violino, piscina, viagens, roupa elegante…. Ela nada compra para si, o dinheiro não dá para tudo, mas sabe tratar da roupa antiga que até parece nova. Divertir-se, sabe, com as suas amigas que vivem na mesma situação que ela.

Não tinha reparado como poupa, e aprendi com ela a não gastar dinheiro em assuntos inúteis cortando tudo o que é supérfluo. Típico masculino, mas tenho estado aberto aos seus conselhos de cuidar do cêntimo. Maus hábitos: eu não lavo a minha roupa, não engomo, não cozinho. A masculinidade está mal ensinada pelas próprias senhoras que tratam de nós.

Fomos de férias, partilhando os gastos. Nem um minuto tive para lhe dar atenção: fui em trabalho de campo por causa da morte de uma velha amiga da aldeia galega que analisei durante mais de trinta anos. O meu elo era reunir material para escrever um livro, que consegui acabar quando voltei ao nosso país: Esperanza, uma história de vida. Editado por ela, foi publicado pelo meu amigo Carlos Loures, no seu sítio de ensaios www.estrolabio.com.

As crianças mimadas viram o seu corpo para o sítio mais conveniente, sem sermos capazes de oferecer uma carícia, um passeio: somos seres egoístas, a par e passo do que as nossas mães nos ensinaram. Dia sim, dia não, somos filhos, somos amantes, somos mimados. Acrescem os anos, vamos ficando velhos, as nossas mães fisiológicas vão desaparecendo, sendo substituídas pelas nossas amigas íntimas. Vergonha a minha, habituado a ser docemente tratado como se fosse um bebé mimado.

Mãe é toda a mulher que entrega a sua vida pelo ser amado, ser amado que não tem comportamento acarinhado e solicita sempre colaboração, quer para a saúde, quer para fixar os textos escritos por mim, com carinho, persistência e muito trabalho.

Reconheço que o Dia da Mãe é fomentado pelas lojas, pelo comércio, porque, como diz uma outra amiga, o Dia da Mãe é todos os dias, de manhã à noite. Escolhi para ilustração deste texto um desenho de uma montra com artefactos que mãe nenhuma será capaz de comprar. Especialmente nos tempos que correm.

Só no meu estudo, com ela a correr para levar a neta às bisavós queridas, sou capaz de reconhecer que a mulher mãe, é de fortaleza, força e serenidade. Não apenas como a minha, ou a Mama Esperanza, que teve uma morte atroz, ou a tenacidade da minha Maria da Graça, que sempre conta o que faz, mas não deseja ser interrompida enquanto trabalha, apesar de inventar um tempo extra para tratar do meu trabalho escrito.

Ou como a minha mãe fisiológica, cheia de carinhos para com o seu filho mais velho, esse primeiro tão esperado, que soube tomar conta dela nos seus dez derradeiros anos de vida, até aos noventa anos, sem doença nenhuma, mas cansada da solidão da sua vida. As idades estão relacionadas, não com o trabalho ou a doença, mas com a companhia dos que amamos e estão ausentes e não têm tempo para nós.

Isso é falar de mãe. Isso é o quotidiano de todas as mães: entregar-se de alma e corpo à criança, nascida do seu corpo, vida dada com paciência e serenidade, até ao dia da sua entrada na eternidade. Exemplo para aprendermos a amar e não refilar com ciúmes e distâncias, sem intimidade nenhuma.

Três senhoras têm influenciado a minha vida íntima: a mãe, a quem aprendi a amar quando eu era pai; a mãe dos meus descendentes que desfez a vida em comum porque sim, e esta terceira que me ajuda a reconstrui-la. Dura vida têm os seres masculinos: ciúmes (consciente ou não) do pai que convive com a mãe; ciúmes do sucesso do pais dos filhos não desejado por quem os fez e aceitar a necessária distância de quem tem pouco tempo para mim, o menino mimado da mãe.

O dia da mãe, é para vender bugigangas, como as que observei no dia de declarar santo o hesitante Wojtila, ora conservador, ora liberal para cativar os seres humanos para a sua congregação cristã. Como seria a sua mãe? Mal sabemos dela, faleceu quando Karol tinha 9 anos, mas esses 9 anos foram de empenhamento de Maria Emília para amar a mãe de Cristo: um amor inculcado…

Acaba assim esta história comercial do dia da mãe e das vendas a mais de um milhão de peregrinos, que quiseram ver o túmulo de Wojtila, como a sua mãe, da classe aristocrática da Polónia, fraca de saúde, falecida em 1929, aos 45 anos de idade.

As mães fazem os filhos…

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