História à moda de Hollywood.

“Na última semana beatificámos um Papa,
casámos um príncipe,
fizemos uma cruzada e matámos um mouro.
Bem vindos à Idade Média.”

Chegou-me esta “pérola” de humor cínico, via um fórum de discussão de História (!), concebida, certamente, pelo mesmo género de pessoa que me me enche a caixa de correio electrónico de power-points musicais com aforismos sobre a arte de viver.

O melhor sentido de humor é o que demonstra mais inteligência. Por isso pouca gente gostará de Monty Python e a maioria prefira a vulgaridade de um Fernando Rocha. E no que toca a História, em que todos têm opinião, sempre é preferível o chavão à verdade, um José Hermano Saraiva a um José Mattoso. Aquela arenga sobre um Papa, um príncipe, a Cruzada e o mouro é uma sucessão de preconceitos ideológicos. O pior deles, que a Idade Média é a época das trevas, do atraso social e mental. O que dirão, disto, os meus amigos medievalistas?

Basta olhar para o século XX, para perceber que a Idade Média, com os seus papas prepotentes, os seus monarcas autoritários e as Cruzadas empalidecem perante os actos de Hitler, de Estaline ou do Império Britânico e que a História não se divide em períodos nem em indivíduos bons e maus. Isso é para Hollywood. A principal função da História é pedagógica. Se isso não está a funcionar, como se depreende pelo anónimo discurso citado, então talvez devêssemos ter mais historiadores e menos engenheiros. Porque de mentirosos está o mundo cheio.

Comments

  1. Igor says:

    Falta dizer que festejamos, como se festejava os Enforcamentos na idade média!


  2. Lá está o preconceito. Não se festejavam os enforcamentos, nem (na Europa) lapidavam (como ainda hoje se faz no mundo islâmico) as mulheres adúlteras nem se aplaudiam os autos-de-fé. Nada disto era tradição. Eram condenações, simplesmente. De resto, o Renascimento só foi possível graças à Idade Média, período durante o qual se inventaram as técnicas que permitiram a Expansão, o crescimento económico, etc.


  3. Não é a idade das trevas, mas é a idade do feudalismo. Estás trocar o preconceito (aliás pós-conceito) da idade das trevas por um branqueamento dos tempos medievos. Falamos do poder discricionário dos soberanos, da religião obrigatória, e da miséria absoluta para 90% da população.
    As punições (enforcamento na Idade Média era pena muito suave, a que só muito poucos nobres teriam direito, descobre-me um só camponês que tenha sido enforcado, sem ao menos ser esquartejado antes) eram festejadas sim senhor, embora o conceito de festa, como o de morte, como o de vida, e como o de religião, sejam bem diferentes comparando ao uso que das mesmas palavras hoje fazemos.
    E lamento que não compreendas uma metáfora, que é o caso deste brilhante texto, que só aqui não publiquei por falta de tempo.
    Gosto muita da idade média mesmo não sendo medievalista, mas não tenho pachorra para revisionismos históricos. Quem quiser que invente uma máquina do tempo e regresse ao séc. XII. Mas na condição de servo, e não de nobre.
    Com todo o relativismo, quantos queres bem piores que Hitler ou Estaline na idade Média?


  4. Eu julgo que fui bem claro no post.
    Não vou em revisionismos, nem em opiniões não fundamentadas, como o facto da Idade Média ser a época do feudalismo. Ainda hoje estou para saber se existiu feudalismo em Portugal, por exemplo. Mas não sou medievalista. E como feudalismo rima com marxismo, cada um toma para si o que quer entender.
    Tudo o resto são opiniões preconceituosas que não comento.


    • Confundir feudalismo com modo de produção feudal é uma opção de vida como qualquer outra. Quanto aos preconceitos, tal como a água benta, cada um asperge para onde quer.
      Agora uma opinião não é fundamentada porque quem a emite diz que é, mas quando a fundamenta, sem preconceitos. Faz uma certa diferença.

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