O imaginário das crianças: Os silêncios da cultura oral – Capítulo III

Capítulo III

É de ti que aprendo a fugir dos meus pais.  A criança significativa

 A questão

Nunca mais esqueci como desapareciam os chocolates. A pequena estava proibida de comê-los e, no entanto, a casa estava cheia deles. Resultado: a criança era punida e recebia homilias sobre os seus malefícios – de como faziam mal aos intestinos, tiravam o apetite e estragavam os dentes. Eu próprio nunca me tinha apercebido que os adultos introduzem as suas contradições na interacção com as crianças, mesmo sob a forma de mimos. Nos nossos hábitos, o chocolate é a guloseima mais apreciada, mais vendida e publicitada. A pequena, na companhia de uma outra, mais velha, aproveitava as horas em que os pais não andavam pela cozinha, nem perto da despensa e, arrastando uma cadeira, alcançava o tesouro proibido que escondia e armazenava no quarto onde era consumido. Depois, faltava o apetite para comer e, em consequência, muita zanga por parte dos pais. Até que um dia pensei: a culpa é nossa, porque facilitamos a existência de guloseimas. Nunca mais comprámos chocolates e passámos a não aceitar presentes que contivessem guloseimas, mesmo em frente das duas adictas, que muito tristes ficavam. Descobrimos várias coisas: da parte dos pais, que não podíamos proibir o que facilitávamos; da parte das filhas, que os pais não só não são omnipotentes como também se enganam ao facilitar o proibido, perdendo assim autoridade e dignidade.

Podem perdê-la com os chocolates, assim como com outras atitudes nas quais nem reparam – mas os pequenos sim.

O carinho esperado e a orientação que ajuda a entender passam a ser golpes afectivos que ferem o coração e as emoções. E um engano é seguido de uma mentira, expressa por palavras e por beijinhos. Os pequenos percebem muito cedo que os adultos são contraditórios e até sabem como provocar o desentendimento entre eles. Felizmente, o ciclo da puberdade até à maturidade é suficientemente prolongado para que se refaça o que, graças às contradições do adulto, se desfez na infância. A pequenada quer prazer. É esse prazer que o adulto nem sabe nem pode dar, se quer manter o rigor da persistência do agir face a quem ainda não entrou pelo caminho da razão – ou cuja razão é procurar o que está escondido e proibido. Cedo descobri que o pão quente feito em casa depois de uma longa caminhada sobre a neve, o massajar dos pés frios ou um “bolo mármore” para o lanche, feito pelos progenitores em conjunto, substituíam a proibida, ou inexistente, guloseima que a cultura do adulto inventou para suprir a sua entrega de carinho. Porque, por detrás desses pãezinhos quentes, desses pés aquecidos, de um bolo acabado de sair do forno, havia dedicação de tempo e carinho dos adultos. Valores que os pequenos sabem ser raros entre os adultos. Mas nem todas as crianças tiveram essas reacções por parte dos seus pais, avós ou tios; muitas só tiveram um não irrequieto ou gritado que as conduziu a tanta cadeira metafórica para procurar seja o que for. Ou, ainda, essas cadeiras metafóricas para procurar alimentos que, de outra maneira, não lhe são fornecidos, por ocupação dos pais, esquecimento ou punição. Parecem ser poucas as crianças que conseguem esperar que o adulto diga “sim” para agir; outras aprendem que se gritam e choram perante um dos adultos virão a obter, pela sua intervenção, o que lhes é negado pelo outro. Pode apreciar-se que a relação adulto-criança é principalmente de “nãos”. O “sim” é raro, porque faz parte do que se espera ser natural fazer bem aos pequenos ou porque faz parte do mundo que faz crescer como “Deus manda”. E como manda Deus? Manda que os pequenos sejam fortes, calados, obedientes e disciplinados, com um imaginário que permita, mais tarde, “fazer como eu faço”. O mundo da infância e o mundo do adulto estão separados por interesses e por objectivos de vida diferentes: o adulto deve ganhá-la; o pequeno vive daquilo que o adulto ganha. É verdade que o adulto é um exemplo para os mais novos, um exemplo reiterado pela emotividade e pela mágoa e quando a mágoa é muito forte, pela disciplina contraditória que leva em si, a criança foge para o mundo dos seus pares; não para contar as suas penas e tristezas, mas para esquecer o mundo de obrigações que existe no lar.

David e Miguel, dos quais já falei nos capítulos anteriores, têm um amigo e colega cujo nome também já referi: Joel. Joel é filho único, e tanto os pais como os tios fazem dele um objecto de carinho, por ser o mais novo da família. A criança viveu com os pais em várias partes do mundo e começou a ver livros com o pai, enquanto a mãe tratava do café e do supermercado. O pai, que estudou e viajou, cultivou sempre o prazer da leitura e da conversa, em companhia do seu filho, ao qual trata como um adulto, sem ameaças, punições ou obrigações de trabalho. Ensinado pelos pais e avós paternos, o pequeno sempre agiu como mais um adulto a quem tudo estava permitido, porque a ideia de poupança existia já, desde a época da emigração na argentina. Parece-me que estes três pequenos (David, Miguel e Joel) representam tipos de crianças, ou de seres humanos, diferenciados entre si pelo tipo de trabalho que devem fazer.

Enquanto o Miguel e o David têm obrigações de trabalho manual, o Joel anda com o avô na carroça puxada pelo burro e conta, com orgulho, que o ajuda, embora o avô não o deixe fazer nada. Como nada deixava fazer ao pai do Joel, conhecido na aldeia por Tonito Ferreira. Um conjunto de outros pequenos devem regar, trabalhar com a enxada e conduzir o carro de mão. Do conjunto de rapazes e raparigas, quem mais fugia do trabalho era o David, devido ao papel materno e protector em relação aos seus irmãos. A minha hipótese é que o grupo doméstico se apresenta aos pequenos como uma obrigação da qual querem sair para poder brincar. Especialmente, quando vêem que os pais são pessoas contraditórias naquilo que dizem, mandam e fazem.

O modelo

A questão que quero colocar não é fácil nem simples. As crianças acabam por observar que os adultos não são omnipotentes e agem no meio de contradições, das quais não estão conscientes. O facto de o adulto ser contraditório não é, em si mesmo, o aspecto mais complexo. Mais complexo é ter de lidar com pequenos, para os quais representamos a autoridade. E, mais complexo ainda, é pensar e aceitar que, no quotidiano, o que a criança deve fazer é resultado ou da disciplina do adulto ou do engano do mesmo. Há quase uma concorrência, e não uma compreensão, entre o que o adulto diz e aquilo que a infância deve fazer. O adulto sabe que deve agir e responder aos filhos com autoridade; uma autoridade que deriva do grito que, em desespero, se dá ao pequeno para fazê-lo obedecer, embora seja frequente acabar por fazer a sua vontade, depois de dizer que não. Muitas vezes tenho observado a persistência de uma criança até obter, pelo pranto ou pelo grito, aquilo que queria;  o adulto, para a fazer calar, faz essa vontade. Nunca me esqueço da casa de uma pequena que, invejosa porque era a festa de anos da sua prima e não era ela própria o centro das atenções, queria se sentar na cadeira da prima e várias vezes foi necessário mudar a festejada para que a pequena voluntariosa ocupasse o lugar. Esta disputa pela supremacia foi aceite pela mãe da festejada, porque a sua sobrinha era filha da irmã mais velha; e a irmã mais velha acabava por aceitar a birra, porque assim impunha a sua força e dominação através da sua filha. Um puro acto de exibicionismo de poder, como diria Mead (1933).

Se, como já fiz referência, é possível distinguir entre adulto e infância para propósitos analíticos, é mais difícil destrinçar a relação entre todos eles na vida quotidiana, onde o poder da criança se impõe muita vez, com a anuência dos pais ou adultos que, dessa maneira, ficam mais firmes e consolidados nas relações entre iguais – quer dizer, entre adultos. É possível que a pequenada seja moeda de troca, por meio da qual o adulto exprime e afirma uma supremacia que não tem, ou tenta ganhá-la para o seu rebento. Uma imagem pálida deste evento é a missa de domingo, à qual todos os pequenos assistem, não só limpos e asseados, bem como vestidos com roupa especial, nova e, se possível, trazida do estrangeiro pela madrinha, o tio ou o pai. O modelo é, em consequência, a concorrência entre adultos pela exibição dos seus pequenos, quer no comportamento, quer no vestir, quer no parecer. O modelo é o lugar social que o actual adulto procura para o futuro adulto; conforme ganhe ou perca na concorrência, ocupará um lugar social de certa importância, conforme o adulto pensa e acredita. A maneira mais corrente de salientar o agir e a personalidade é falar mal e com tristeza do rebento.

O caso do David é a este respeito um bom exemplo. Um dia, na escola, a mãe do David, toda vestida para visitar professores, foi contar histórias de como o filho não a ajudava a ela, pobre mulher e sozinha. A mãe do David gostava de inspirar pena e tristeza entre os outros. A sua maneira de confrontar o mundo que, na sua perspectiva, tão mal a trata – ou tão mal tratou aquando do casamento com o pai dos seus filhos. Sem alternativa social para a sua vida emotiva, transfere para os outros a sua frustração; ou, aos poucos que a ouvem, faz confidências das suas tristezas, incluindo aos professores da escola, que a ouvem com simpatia. Não é a única pessoa adulta a fazer queixa dos filhos; é quase um hábito dos pais dizerem que os filhos “não prestam”, o que é uma forma equivalente de dizer que os filhos são bons, mas ficando-se à espera que seja um estranho a emitir a opinião. O pai do Luís, Ercílio (v. Genealogia 12), tinha por hábito dizer que o filho não tinha cabeça, e o filho ficou habituado a não ter e a dedicar o seu tempo a fazer-se mimar. Ercílio Pereira, falecido prematuramente, amava o seu filho. Mas, como acontece com a maior parte deles, o amor é entregue para tentar que o filho seja um triunfador em todos os aspectos da vida. Luís, colega e amigo do Miguel, David e Joel, do qual é também primo direito (v. Genealogias 1, 2, 3 e 12), sabia manipular as alfaias, embora nunca o tivesse dito ao seu pai. Preferia refugiar-se em casa, ao pé da mãe e da irmã mais velha que gostavam de mimá-lo. A luta entre os pais consistia em saber se o luís, com os seus 9 anos de idade e altura fora do normal, por ser muito grande e magro, viria a ser um homem que trabalhasse e o fizesse de forma exactamente igual ao seu pai. O pai, tanto desejava que o seu filho o imitasse, que até tentava convencer os demais de como o seu filho não servia para os estudos. Contudo, não era simples que o conjunto da família aceitasse esta ideia; no entanto, a possibilidade de comparar existia: os dois primos, luís e Joel, tinham saberes diferentes e confiança também diferente nesses saberes. Assim, Joel, com um terno apoio do pai e sem ser rebaixado ou envergonhado se se enganava, sabia os países do mundo e colocava questões objectivas, para além da típica conversa avaliativa entre pai e filho. Ercílio julgava o seu filho sistematicamente e fazia pouco do seu comportamento; a mãe intervinha para defender o pequeno, que até era enviado a casa dos seus parentes maternos para prolongadas visitas.

Dentro deste modelo que relato, há também uma outra variável: quem comanda em casa e a quem pertence qual filho, conforme o sexo? Já  Immanuel Le Roy Ladurie (1975) falava de como os pequenos habitantes de Montaillou eram da mãe, até o filho varão ter idade para trabalhar com o pai; assim também reportam, para contextos não europeus, Godelier (1982), Goody (1971) e Fortes (1938), entre outros. Apesar de na nossa sociedade a filiação ser bilateral, todo o filho ou filha está subordinado à mãe, com um certo distanciamento por parte do pai. O homem é um corpo que trabalha, é para isso que está feito, sem ternura que seja visível. A mulher é um corpo que faz outros corpos, os nutre e alimenta; em consequência, é a proprietária dos descendentes, varões ou raparigas. Este facto da dominação feminina faz reagir os homens na sua disputa com a mãe dos filhos; e a reacção é tão simples como o facto de existir a ideia de que o filho existe para ajudar o pai, enquanto a filha deve assistir a mãe, como já foi dito. Esta nova contradição entre adultos, tão bem observada pelos pequenos, faz parte da desconfiança que existe entre eles, quando de adultos se trata. Quando é conveniente, os pequenos ficam ao pé da mãe; quando não é, juntam-se entre eles para os seus próprios jogos. Dentro destes grupos de pares, há os que são mais amigos entre si e obedecem a um deles com autoridade, enquanto outros seguem um líder diferente.

O David era quem comandava normalmente o grupo de iguais, de rapazes, por ser quem tinha as melhores ideias. Através do tempo, David e Miguel foram disputando a liderança das crianças. O Miguel era capaz de dispor de algumas horas para brincar com os seus colegas, excluindo raparigas, que não tinham acesso aos jogos dos rapazes; mas o imaginário do Miguel está, e tem estado, mais ligado ao trabalho agrícola. Nos T-Groups que durante sete anos temos vindo a fazer com as crianças de Vila Ruiva, a liderança do Miguel descansava sobre um saber das alfaias ou de uso das alfaias. No caso do David, livre como ficava logo que atendia aos seus irmãos, o seu tempo era dedicado a ensinar aos outros onde estavam os ninhos de pássaros para partir os ovos e desfazê-los. Normalmente, em época de fruta madura, era o David quem guiava o conjunto de rapazes para tirar uvas, maçãs ou pêssegos das quintas dos outros, sempre com um limite: quando a quinta era de um dos rapazes do grupo, e este impedia a entrada na mesma. O David ficou famoso no dia em que guiou vários pequenos até às árvores de um rendeiro de terras com o intuito de roubarem pêssegos para comer até se fartarem. No entanto, vários deles não queriam ou não aceitavam retirar fruta das terras que não eram deles, pelo que o David conseguiu reunir pilhas de fruta que depois ou dava aos outros ou atirava como pedras às árvores. O David tinha e tem as melhores ideias para organizar jogos colectivos, como a bola ou corridas em bicicleta; enquanto o Miguel sabia e sabe ensinar como usar as alfaias e como repará-las, caso não funcionem.

Pode dizer-se que o modelo de comportamento adequado que o adulto espera é uma ideia que está na sua mente: que o rapaz ou rapariga sejam capazes de subsistir e tomar conta dos mais novos. De resto, o modelo de que tudo o que existe é uma coisa útil a todos, é o que acaba por orientar o comportamento entre eles, excepto quando desejam mostrar que podem manipular os instrumentos, assunto que fazem sem problema, conforme seja a maneira de demonstrar a sua capacidade e o seu saber. A rivalidade entre crianças é mais um problema dos adultos, que desejam, através delas, demonstrar o valor da sua estirpe.

Transacção

É de saberes. Se as crianças reparam que há contradições entre os adultos e em relação a elas, um saber deve orientá-las. O saber de alguns deve ser orientador. E o saber orientador é o que eles próprios geram quando interagem.

Íamos pelas estradas e caminhos da aldeia à procura de rosmaninhos. A noite de São João era no dia seguinte. Quatro anos antes, o Joel, o David, o Hélder, amigos e vizinhos quiseram comemorar a festa. Sem conhecer muito do assunto, tivemos a boa vontade de organizá-la. A primeira questão foi saber identificar, entre as plantas, os rosmaninhos, e saber como se colhiam, e em que estado devem estar para arderem bem. O dia estava quente, era Verão e o mato podia arder facilmente. Nada disto era conhecido por nós, os antropólogos, seres como as crianças, no meio do conhecimento da aldeia. A nossa ideia era que as crianças deviam saber naturalmente dos assuntos da sua cultura. Longas divagações entre nós e eles, longas divagações entre eles. Que é, para que é, qual o sentido do são João? Os “ já sei, já sei” saíam rapidamente da boca de todos eles; a Sónia (v. Genealogia 19) era a mais animada, falava, inventava e descrevia o que tinha visto fazer em anos anteriores: uma fogueira à noite, em frente da sua casa, preparada pela família. Nenhum deles acertava com o propósito e a razão da fogueira. Em consequência, e depois de muito descrever o que parecia que devia ser, o grupo foi dar uma volta, fizemos uma guerra de água para termos menos calor e, com as roupas molhadas, fomos comprar gelados a uma aldeia vizinha. Combinámos que cada criança fosse perguntar ao pai os factos da festa de São João. Todos voltaram no dia seguinte, com a advertência de que não se deviam cortar rosmaninhos secos, porque ardiam rapidamente em vez de só dar fumo. Fumo… para fumar.

Com o grupo de rapazes fomos às plantas. O Miguel guiava bem o carro de mão, o luís sabia manipular a corda, o David e o Tonito sabiam histórias, enquanto o Joel, o Hélder e o António Gouveia (o Ribeiro) iam identificando as plantas. O Miguel era quem, no fim, dizia se serviam ou não, se eram as correctas ou não. Mandava parar o carro, para as crianças trabalharem com o sacho. Com o carro cheio, voltámos à casa do luís e juntámos as plantas frescas à pilha das já secas do dia anterior. O pai do luís, sabiamente, tinha-as separado, afirmando: “Sr. Doutor, estas não prestam porque estão secas”. Aceitei, mas nada quis acrescentar, por julgar que estava enganado e que o trabalho das crianças era importante.

A conversa que começava a correr pela aldeia era acerca de qual seria o local para queimar as plantas, onde fazer a fogueira. Havia adultos que achavam que devia ser em frente da sua casa, porque era o sítio habitual, o largo dos Ferreiras; outros pensavam e diziam que devia ser no largo do supermercado, porque aí morava a maior parte dos pequenos que tinham colhido os rosmaninhos. Nós calámo-nos e decidimos que devia ser em ambos os sítios, sucessivamente. No largo dos Ferreira foi ao cair da tarde, a seguir ao jantar, com todas as crianças. Preparámos a fogueira, e a vizinhança começou a aparecer para se divertir com o que os pequenos e os senhores doutores tinham preparado. Começámos a saltar no meio do fumo e das chamas, em envergonhado silêncio; Emídio estava atento às chamas, para que os mais pequenos não se queimassem. Os adultos soltaram-se, mas começaram logo a ir-se embora, até que a amiga Zulmira Ferreira (v. Genealogia 3) disse, de repente: “Ó senhor Doutor, não é assim, o senhor não sabe”, e salta ela e grita: “Há tanta saúde num tractor como no cu do senhor doutor”. Grandes risadas vieram do grupo de adultos. Os pequenos, excitados pela permissividade, começaram a inventar o que, fiquei esse dia a saber, eram versos para a noite de São João. Cada criança foi até ao pai ou à mãe para pedir ideias que não surgiam. A Zulmira e membros da sua família fizeram fila e começaram a inventar versos para eles e os vizinhos, incluindo os professores. A rapaziada, desincentivada, empurrada para fora do agir pelo saber dos adultos, foi ficando inactiva num canto e partiu para fazer a sua fogueira, no largo do supermercado, em frente das casas, onde plantas frescas de rosmaninhos esperavam já, trazidas pela família do Hélder, do António Gouveia, do pai do David, enfim, os vizinhos. Feita uma grande fogueira, fomos chamados, e a mulher mais velha, mais ágil e brincalhona, a Dona Conceição, diz-me: “Sr. Doutor, há que cantar”, e começa a bater palmas e a entoar cantigas tais como “ale, ale, são João, tanto pão e tanto grão” e “São João por ver as moças fez uma ponte de prata; passam por aí todas as velhas, p’lo são João tudo se mata”. Música e palavras apontadas por nós, melodia rapidamente aprendida pelas crianças, numa fogueira que reuniu a aldeia toda até depois da meia-noite. Os cantos da Dona Conceição Vidigueira foram logo aprendidas pela multidão, e não ficou descendente nenhum que, pela primeira vez na sua vida, não tivesse feito o seu verso, o seu canto e dando muitos saltos. Suados, cheios de fumo, recebemos ainda a visita dos jovens da aldeia que, contagiados pela algazarra, traziam música rock para fazer parte da festa. A ideia original do Joel e do David acabou por ser a festa mais concorrida e desigual do sítio. Uma mulher idosa, a “senhora Velha”, como lhe chamam as crianças, recordou-se; os seus descendentes nada sabiam; os filhos mais novos estavam a aprender; os jovens queriam divertir-se. Nós queríamos saber como a memória funcionava. Os do tempo de Salazar, da aldeia fechada sobre si própria, lembravam as “piadas” que se lançavam contra os senhores que, nessa noite como dantes, não estavam presentes, por não ser digno. Os da época da emigração, hoje em dia com investimentos nas terras compradas aos senhores, não conheciam os versos. Os jovens nunca tinham ouvido falar, enquanto os pequenos do nosso grupo estavam a dinamizar uma memória que agora estava a ficar com eles. A utilidade de tudo isto foi por nós entendida mais tarde, quando persisti na acção e inquiri toda a geração da D. Conceição (v. Genealogia 13) que não quis manifestar-se nessa noite: o fumo dos rosmaninhos matava as traças do único traje de linho que levavam, penetrava pelo corpo e matava os animais pequenos que aí havia, sufocando também quanta aranha, bicho ou outros pequenos animais houvesse em casa. Como era o dia mais longo do ano, com uma noite igualmente comprida, dava para saltar e trabalhar cedo no dia seguinte. Porquê São João? Porque era um discípulo do senhor, respondiam, enganando-se, as pessoas. Os pequenos tinham conseguido fazer uma transacção com os adultos: à volta de uma memória feita lembrança vaga entre as pessoas, por uma noite de divertimento na companhia dos pais, tios, avós e vizinhos. Uma festa colectiva, na qual tinham comandado e tomado a vantagem de poder dizer calamidades e palavrões endereçados aos adultos que não queriam ou dos quais gostavam pouco. O Miguel organizou um pequeno grupo para recitar “asneiras” contra os seus vizinhos e os patrões do seu avô; o David organizou outro onde todos os seus iguais que não o aceitavam, a ele ou a sua família, eram insultados. Rapidamente, ficaram a saber que havia uma maneira pública e elegante de “roubar chocolates” com o consentimento dos adultos. Para além da estrutura etária que mostrava o contexto histórico da memória e o esquecimento pela falta de prática, havia uma outra estrutura, a dos que sabiam e já não praticavam, excepto os que aceitavam a dinâmica dos antropólogos; e uma outra, curiosa de conhecer a sua própria história, as suas próprias recordações, não existentes até então no seu entendimento. Em anos sucessivos, quando comemorámos a festa, tínhamos a música, letras, versos, explicações, entendimentos, causa e efeito, e um filme feito para registar a lembrança da memória social. A pequenada, orientada pela pequenada, tinha feito mexer os adultos dentro da sua própria história. Porque, depois da festa, e já sem fumo, ouvi as histórias pessoais construídas através do tempo e esquecidas pelo afazer permanente. O significado voltou ao símbolo dos adultos pela mão dos pequenos.

Silêncio

Quando não há escrita, a lembrança constitui-se em memória por meio da cultura oral, como é tradicional ler nos estudos antropológicos (Goody, 1977 e 1986; Fortes, 1938; Malinowski, 1922 e 1944; Kroeber, 1923; Lévi-Strauss, 1962a). O postulado central é que as sociedades dividem-se em sociedades com e sem escrita; e que as sociedades sem escrita recorrem à memória oral para lembrar. No entanto, é possível apreciar que há sociedades onde a escrita constitui memória só e apenas na medida em que é utilizada pelos eruditos ou pelos estudantes ou, em geral, pelo povo que a usa em actividades simples: guardar uma recordação, uma nota num pedaço de papel, um número, o preço de um artigo. O comportamento está guardado em códigos, aos quais nem todos têm acesso, e na correlação entre as pessoas, pela incessante repetição de relações, através da utilização dos conceitos que designam o tipo de relação que existe entre indivíduos. As histórias que se contam acerca das pessoas, por um lado, narram o que a pessoa é, enquanto, por outro, descrevem o que deve ser feito e o que deve ser evitado. O permitido e o tabu. No entanto, esta história oral tem as suas interrupções, que eu denomino silêncios. Talvez numa sociedade simples e linear, onde os factos são repetidos e reiterados (e digo simples, para denotar a preponderância da estrutura das relações sociais sobre o processo de desenvolvimento do grupo), as histórias conseguem guardar a memória do comportamento individual e do conjunto. Contudo, nem sempre é simples: a memória oral é resultado do que as pessoas associam e não de factos precisos, datados, caracterizados, como faz a História no ocidente. As lembranças são, em geral, metafóricas e associadas a eventualidades com preponderância sobre outras. Metafóricas são, por exemplo, as histórias que se criam e se contam sobre os santos, assim como também são metafóricas as virtudes de algumas das pessoas do grupo. Digo metafóricas, porque ninguém consegue dar explicação e razão do que aconteceu. Só há factos, verdadeiros ou não, nos quais se acredita e se procura imitar.

Nunca esqueço como, em vários trabalhos de campo, as pessoas explicavam a origem do grupo por meio da ligação do dia de hoje ao génesis, acrescentando que o sítio era muito velho porque tinha mais do que cem anos. Grandes silêncios da própria história da vida da pessoa são aí esquecidos, excepto os que marcam e, assim, subsumem os outros factos ao central, que mais impressionou a memória. A cultura oral nunca tem o poder de recordar tudo e, ainda menos, com precisão: sabe-se de alguém que se foi embora, sabe-se do sítio ou lugar social que tinha, mas não se sabe das intimidades específicas que colocavam essa pessoa no centro do grupo ou que dava ao grupo uma característica específica. O conjunto de indivíduos nunca teve mais importância que o membro individual que compõe o dito conjunto: o grupo é uma interacção de seres heterogéneos que agem com um objectivo comum determinado. Este objectivo comum determina a forma ou o símbolo ao qual se subsumem as histórias individuais que caracterizam a lembrança. Típico do sítio que mais tenho estudado, é a procissão, onde a mordomia é o facto que cobre ou subsume o resto dos acontecimentos. Como já tenho narrado noutros textos (1990a, 1990b e 1991), foi possível reconstruir mais de 30 anos de mordomias sucessivas, associando o casamento das raparigas que, ainda solteiras, devem tomar conta da capela local e organizar a procissão anual; casamento cuja data era lembrada por meio do nascimento dos filhos, da idade que agora tinham e outros factos. Depois de mais de dois meses a confrontar as pessoas com as associações, um jovem colega e eu conseguimos recompor a lista, cronologicamente. Estes silêncios têm a ver com os factos aos quais as pessoas ficam habituadas na sua vida quotidiana e que vão apagando outros ao longo da existência.

Quando, como nos lembram Durkheim (1911) e Lévi-Strauss (1962b), há um totem ao qual se associam as reiterações do afazer, os factos são simples de lembrar, especialmente se estão associados à natureza que, por repetir sempre o seu comportamento, acaba por imprimir uma lembrança social. O dia de São João, da forma que relatei nas páginas anteriores, tem contextos diferentes, e são estes contextos, mais do que o ritual em si, que são transmitidos aos indivíduos. O primeiro contexto, para os actualmente vivos e activos, é a época dos anos 30, quando o lugar, como acontecia em Portugal e na Galiza (Iturra, 1979), era fechado, identificando e acolhendo apenas os que aí moravam. O sistema de trabalho consistia em produzir para outros receberem: abundância, contratos de parceria, poucos proprietários a cobrar as rendas pagas pelo uso da terra. Assim, comemorar, festejar, era um facto da própria aldeia ou bairro, com a possibilidade de se poder publicamente tomar posição contra os mais poderosos e menos simpáticos do grupo. Daí que os versos inventados servissem para falar anonimamente das pessoas com mais poder ou daqueles aspectos menos queridos dos mesmos, como o cobrar dinheiro a mais, ou emprestar dinheiro com juros. O principal da festa era divertir-se, mas parte do divertimento foi sempre exprimir a raiva que o corpo sentia pelos deveres que tinham de ser cumpridos. O objectivo era, no entanto, o convívio entre pessoas iguais que se procuravam para brincar, na companhia das pessoas mais novas que ouviam sem entender o conteúdo: a contradição entre respeitar quem dá o trabalho e rir da mesma pessoa. A festa era convocada e organizada com versos, como lembra a senhora Conceição, alcunhada “sardinheira” porque da sua venda vivia: “eu cheguei aqui / mais cedo não pude vir / Mas ’inda venho a tempo / de as suas falas ouvir” – o sentido amoroso, e até erótico, por detrás das palavras, não é assunto que facilmente possa ser entendido ou lembrado pelos pequenos, que não sabem destas histórias. O sentido é ainda mais específico na frase: “eu sou cavaco do rio / sou dura de escavacar / Quem de mim fizer palitos / tem muito que palitar”.

É claro que, para dizer estas e outras frases, é preciso entender a vida nos seus aspectos mais heterogéneos e abertos, o que não acontece no caso da infância. Aliás, nos anos 30, dançava-se ao som de uma harmónica ou de uma gaita, que a garotada ia aprendendo a ouvir, mas não a repetir; especialmente verso entre jovens que desejam namorar, como esse que se dizia na festa:

“ele: Menina que vai passando, com a sua canastrinha, faz favor de me dizer se ela é doce e madurinha.

Ela: a minha laranja é boa, colhida no laranjal, se o senhor duvida dela, até lh’a dou a provar.

Ele: Conheço a sua franqueza, dar-me a laranja a provar. Diga a menina o preço dela e como hei-de pagar.

Ela: Cada duas, um vintém, cada quatro, um pataco, tem o conto mais caro, não posso vender barato, sou uma triste vendedeira, ainda perco no contrato.”

(recolha: D. Fernanda Lopes e Sr. Ramiro Borges, Vila Ruiva,

1992)

Nestes versos de namoro, o corpo é representado metaforicamente pelos frutos e pelo dinheiro, dois produtos resultantes do trabalho das pessoas que, com uma certa ironia, utilizam as palavras de forma inteligente até alguém gostar do conteúdo. O conteúdo é ternurento e arriscado, diferente das canções de embalar que as mães cantam às crianças, dando sal e pimenta à festa. Daí que se diga que a noite de São João trazia muita criançada ao mundo depois de um certo tempo. Os tempos começaram a mudar depois de o governo do país ter assinado convénios com a América Latina para a exportação de mão-de-obra, especialmente com a Venezuela e a Argentina, países exportadores, respectivamente, de matérias-primas e de manufacturas, que precisavam de mão-de-obra para tanto trabalho. Portugal, como a Galiza, tinham mão-de-obra a mais e dinheiro a menos. É nos anos 40 que, como se sabe, se inicia o fluxo de pessoas que abandonavam o trabalho rural, marítimo e artesanal, provocando uma crise que leva à venda de bens e à subordinação dos pequenos aos seus ascendentes mais velhos.

As festas desaparecem, os cantos e versos ficam sem auditório que os aprenda; parte do texto, a outra folha do livro, vive ou no outro extremo do mundo ou cheio de trabalho no próprio mundo, para poder substituir os que foram embora – alguns dos quais nunca retornaram. Fechada a emigração para esses países, a geração dos anos 60 começa a tentar a sorte na França, na Alemanha, no Luxemburgo, ao mesmo tempo que as guerras coloniais retiram pessoal das aldeias. Não falta tempo para festas, faltam pessoas e há grandes diferenças de idade entre os que vão e os que ficam: a geração intermédia desaparece por muito tempo, e os mais velhos, já esquecidos de como tomar conta dos pequenos e habituados a entreter-se com pessoas da sua geração, não têm outro entretenimento para além de ensinar os deveres do lar e os do trabalho da terra. Este silêncio dura ainda no terceiro período, quando os pequenos que tinham ficado crescem e também vão com os pais para o estrangeiro, ou começam a trabalhar nos novos investimentos feitos pelos parentes ausentes que enviam dinheiro. Assim, esta geração que eu agora estudo é parte dos retornados de diversos sítios que têm esquecido as tradições, por ausência. Custa anos ao antropólogo perguntar e conviver com aqueles que ficavam ou que se lembravam da sua infância, para fazer rememorar a história local. Os versos dos tempos da aldeia fechada já não têm sentido, ou não fazem sentido: “Tanta saúde há num pinhão como no cu do senhor Beirão”, significando, a primeira parte, a pouca importância da árvore que cresce a monte e dá um fruto, o pinhão; a segunda alude a uma parte do corpo, considerada desonesta e privada, que humaniza e iguala todo o ser humano; e a terceira, o símbolo do poder político do estado novo e do dinheiro que consegue com o comércio local e as heranças da mulher, esta última descendente de uma família antiga de proprietários, respeitada, que acabou os seus dias nas mãos do dito comerciante, já falecido. A rapaziada actual retoma o conceito de “cu” e constrói versos que dizem respeito aos seus próprios colegas.

O silêncio da cultura oral é evidente, porque não há continuidade entre as pessoas que estão a interagir, com interferências, aliás, de hábitos estrangeiros que rapidamente se aprendem como vários autores têm estudado para os portugueses residentes em França (Iturra, 1994b). O próprio professor da localidade ensina a festa através de textos recolhidos por eruditos, enquanto, em sítios estudados em Trás-os-Montes (Vales), Vila Real (Cotas), Alentejo (Pardais) e Algarve (Querença), os professores são pessoas que mudam todos os anos e não trazem desde as suas terras os costumes que por aí também devem existir.

É a curiosidade das crianças que rememora a festa de forma diversa: não há fogueiras em todas as casas, há uma grande e central, preparada pela pequenada que estudou os hábitos e que, com papel e lápis, escreveu o que ia dizer em público ao saltar a fogueira. De modo que, ao saltar, cada pequeno se detinha para ler, do seu caderno, a frase alusiva aos colegas ou aos adultos de quem queria troçar. A festa passou de uma tecnologia para limpar casa a uma verdadeira dança preparada com intervenção de fora – os antropólogos. Os pais não foram mobilizados e eis que temos mais um facto que mostra como a cultura infantil foge da cultura do adulto, pela mão dos colegas e amigos mais imaginativos, como foram sempre David, Miguel e Joel. As raparigas, com poucas ideias para dizer, ficavam sempre à espera da iniciativa dos rapazes. Entre todos eles, adultos e pequenos, meninos e meninas, há diversas transgressões que se cometem para poder experimentar e aprender, objectivo específico da dita transgressão que agora passo a expor.

Transgressão

Eis o resultado da emergência do imaginário das crianças. Formado numa confluência de culturas, o imaginário é fértil. Não é qualquer pequeno que tem alternativas de comportamento. Nem ancestrais tão díspares como os da pequenada que cresce em países diferentes, com disciplinas diferentes, com línguas diferentes. Os conceitos da infância da aldeia estão formados pela homogeneidade imposta pelo processo educativo do país; e pela cultura fortemente tingida de “credos”, “Deus me valha”, “nossa senhora nos assista”, “se calhar” e outras expressões que denotam uma escolha deixada nas mãos de quem domina à vontade. Ainda que se possa dizer que nem todos acreditam ou que os que vão à missa assistem a um acto social ou que há mais republicanos ateus que crentes e outros estereótipos, a verdade parece ser outra: o país descansa nos três toques na madeira, enquanto diz “o Diabo seja surdo, cego e mudo”, pensando que este signo vai precaver qualquer desventura ou problema.

A pequenada, filha de adultos que moraram fora durante anos, está imersa em racionalidades dissemelhantes. Nos países europeus, destinos da emigração, o estado do bem-estar e a família não existem como entidades às quais se pertence ou que se apropriem do indivíduo, nem há desculpas para obrigações não cumpridas ou fora de tempo. A consciência forma-se de maneira decidida e atenta às obrigações, de forma que o corpo não adoece por causa das obrigações – obrigações que normalmente foram entendidas como punição. Muitos dos primeiros pequenos que foram para outros países tiveram de regressar, devido à inadaptação que causava tristeza e se traduzia em doenças somáticas só possíveis de curar com o “ar português”; às vezes, essa doença era acompanhada pela da mãe e, raramente, pela do pai. Os pequenos, no estrangeiro, aprendem a língua tornando-se os intermediados que ajudam na relação dos pais com o país. Facto que a pequenada não consegue entender bem, mas sente.

A confluência de culturas deu duas medidas para o entendimento do real: a do indivíduo capaz de contratar livremente desde que tivesse condições para trabalhar; e a do membro de uma genealogia que substitui nas actividades quando é necessário. Esta dupla bitola para medir os comportamentos tem sido utilizada, na época do crescimento, de forma alternativa e opcional. Fica criado um duplo problema: por qual medida se entende o agir de uma criatura? Pelo que sabe fazer no estrangeiro ou pelo que se exige no país de origem? Acresce ainda o facto de existirem diferenças entre o comportamento dos pequenos que nunca abandonaram o país e os que podem escolher línguas diferentes para exprimir os seus conceitos. Contudo, a cultura central que comanda, a denominada cultura-mãe, é o local onde deveres e hierarquias passaram a ser hegemónicas ou dominantes em relação a outras opções do comportamento. A pequenada que nunca abandonou a aldeia, ou retornou muito nova, é medida pelo respeito que mostra pela hierarquia genealógica e pelos deveres e obrigações para com o pai-

-autoridade e a mãe-ternura, sempre a medir o comportamento público e a organizar o privado dos seus cachopos.

Os que têm estado fora sabem que a sua medida de comportamento são eles próprios, as suas responsabilidades em relação à hierarquia representada pelo adulto que se confronta. Entre os pequenos, os que não saíram do país, e os seus ascendentes impera o diálogo do “cala a boca” ou “faz”, “não faças”, “come”, enquanto a doença, a maldade ou a inveja de outrem são responsáveis pela incapacidade de cumprir à risca o que está previsto. Uma outra maneira de ultrapassar o que está mandado, é calar, baixar a cabeça e meter-se dentro de si próprio; ou fugir de casa para sítios de vagabundagem, que nas aldeias estudadas abundam. Nestes sítios, constroem-se muros, partem-se paus, cavam-se buracos, destroça-se uma árvore, brinca-se a jogos imaginários, até se voltar a casa, onde outra vez um castigo espera o transgressor, cujo último refúgio é o quarto ou o lagar ou o armazém. Joel e David são os melhores exemplos, porque Joel, neto, filho e nativo das culturas argentina, francesa e portuguesa, coloca o raciocínio por sobre a emotividade, enquanto David, nativo puro do sítio, se socorre habitualmente da doença para salvar a sua honra social, quando o seu comportamento é diferente, quer dizer, experimentador, transgressor. O que faz dele o ídolo das outras crianças, porque as suas alternativas dinamizam o imaginário dos que vivem mansamente sob a orientação do adulto. Orientação que acabam por romper com um berro, um grito ou uma teimosia tão persistente que fazem sentir o adulto um transgressor da liberdade individual do pequeno, de que sabem que devem cuidar para serem adultos dedicados.

 Solidariedade

As trapalhadas para roubar doce e chocolate são feitas em conjunto. Define-se quem vigia, quem fica ao pé da janela para receber o produto, quem trepa ao móvel da despensa, como sair em silêncio e a correr. É um tipo de união que corresponde a uma solidariedade continuada, sempre existente entre o grupo de iguais que tão bem se entende. Os roubos de fruta, especialmente de cachos de uvas, de terras de outrem, são feitos a gatinhar, enquanto um rapaz ou uma rapariga vigia o aparecimento do inimigo em forma de adulto. O jogo de berlindes reúne um grupo de rapazes contra outro, liderado cada um deles por quem melhor sabe discutir e acertar no berlinde do adversário. Nos jogos de futebol há dois grupos, e os membros são trocados conforme a capacidade da equipa para ganhar ou perder; eu próprio fui escolhido por duas equipas diferentes, até que, fartos de perderem, devido à minha mediocridade no jogo, fora expulsos por todos – para meu alívio. As mudanças de indivíduos dentro destes grupos nunca foi lesiva para nenhum deles, porque do que se tratava era de ganhar o jogo. No entanto, a solidariedade é o conceito que serve para escolher o pequeno mais conveniente para que o grupo ganhe; o mais conveniente não é apenas aquele que é mais ágil ou empenhado, mas sim quem é mais persistente e entende a linguagem não verbal que aí se usa para jogar. Em consequência, o convívio prévio no quotidiano, sobre o que o outro é ou faz, é parte da escolha para companheiro ou companheira de equipa.

É o caso de todos os pequenos da aldeia, entre os quais aqueles que referi atrás, os Branquinhos. Aquando da corrida de bicicletas, num dos verões passados no mato mais fresco do sítio, na “laje”, o David delimitou com cordões atados às árvores o percurso que as bicicletas podiam fazer. Estavam os cordéis já prontos e distribuídos, delimitando sítios, quando chegámos com todo o grupo para filmar a dita corrida, mais uma de um comprido mês de Verão, quando nenhum estava na praia ainda, um Julho sufocante de calor, da parte da tarde: as horas em que os rapazes não trabalham no campo e as raparigas já acabaram de limpar a loiça; horas antes de o calor deixar de apertar e do recomeço dos deveres domésticos. O David, proprietário da melhor das bicicletas e veloz como um pássaro, escolhia o seu grupo: normalmente estava o seu quase irmão social Hélder e o seu mentor, mais velho e crescido, Zé Manuel roque (v. Genealogia 14) – do qual por enquanto ainda não falei. Participavam também a Cristina (v. Genealogia 7), que vinha da alemanha e não gritava nem chorava durante a corrida, ganhasse ou perdesse, e Miguel, sempre atrasado, porque vinha de regar as batatas do avô.

À hora do lanche, os grupos nunca ficavam juntos: a Eunice (v. Genealogia 8), a Laura (v. Genealogia 20), a Fernanda (v. Genealogia 14) e os Branquinhos ficavam ao pé de nós, enquanto a Carla (v. Genealogia 13) vigiava para que nenhum deles retirasse algum dos sacos da merenda ou alguma garrafa de sumo. Seria inútil designar quem tomaria conta dos pacotes e quem faria a distribuição depois da corrida: uma massa informe de amigos atirava-se contra os Branquinhos e os seus primos, que só queriam ficar com batatas fritas para guardar os brincos de plástico. Ultrapassadas as lutas, que às vezes incluíam gritos, socos e prantos da Eunice e da Laura, cujos esforços tinham sido em vão, os 20 pequenos distribuíam-se conforme a sua capacidade de conversar e merendar com calma.

A solidariedade depende da conjuntura. Trata-se de um valor que, por não existir, deve ser invocado, definido e trabalhado, lembrando trocas e favores de grupo ou familiares, para possibilitar a circulação das dádivas que se trocavam. No campo da reciprocidade não havia nunca uma lembrança dos hábitos dos adultos, habituados à toranjeira, reciprocidade muito participada pelos pequenos, especialmente no tempo das colheitas. É por isso que organizar um convívio entre pequenos só é possível se se aceita a disputa e o caos que o dito convívio traz. Um convívio espontâneo e quotidiano que acontece em pequenos bandos formados pela vizinhança, pela parentela ou, ainda, pela simpatia entre as pessoas que se forma na escola. Contudo, dessa espontaneidade, não sobra nenhuma regra que permita a cortesia entre todos. Pelo contrário, a cortesia e o diálogo que permitem formar um adulto contratual e eficaz ao longo da vida, aprende-se na medida em que há disputa livre, sem autoridade adulta que imponha disciplina e silêncio. Só as regras do jogo organizam o comportamento quando se concorre; mas, quando se age em eventos pouco habituais, como uma merenda no mato – seja em Vila Ruiva, Cotas, Vales, Albergaria, Vila Viçosa ou Querença –, a lei é definida pela força de quem é capaz de impor-se, pelo medo, ao outro. A solidariedade é resultado da disputa com que os pequenos organizam o seu convívio, especialmente se o dito convívio não tem a disciplina da cultura dos adultos. Esta é mais uma forma de os pequenos derrotarem os pais, ao pé dos quais estão só e quando há vida formal e interacção de várias gerações. Ganha o grupo que tem um líder que conhece a fraqueza do outro e aprende a fazer “orelhas moucas” aos desafios inúteis de contestar. Aí, o David, o Miguel e o Manuel Roque sabem guardar silêncio, e ganham.

 Realidade

São muitas as que se aprendem. O convívio do grupo de pares ensina que ou o indivíduo é forte e manda ou tem um grupo de apoio que lhe fornece um suporte de força física e espiritual para correr com os não desejados. Cada grupo tem o seu território, o seu espaço, e não permite que outro o invada. Não se faz recurso dos adultos para resolver estes problemas. Os pequenos conhecem muito bem os seus problemas, os seus objectivos, os seus desejos; e as forças e os medos próprios e os dos outros. A aprendizagem para a vida dá-se na medida do agir espontâneo das regras de inclusão e exclusão que entre eles se dá. A realidade da hierarquia infantil só a infância a conhece e sabe o mutável que é, e como está sujeita a conjunturas.

Como aconteceu quando David, Manuel roque e Miguel queriam comandar o grupo de rapazes durante a colheita de rosmaninho para um são João. O David tinha imaginário e queria levar o grupo para sítios mais divertidos para brincar enquanto recolhiam as plantas. Manuel roque era demasiado adulto, com os seus 18 anos, para comandar o trabalho; órf ão de pai desde os 12 anos, viu-se obrigado a substituir o chefe de família, perante a mãe e as irmãs, e agia de forma paternal com a pequenada. O Miguel sabia onde encontrar as ditas plantas e como utilizar as enxadas de forma eficaz. Na sua forma de ver as coisas, o trabalho devia ser feito rapidamente e sem brincadeiras. Mandou as raparigas embora, a Carla e a andreia (v. Genealogia 21), para que tomassem conta dos mais pequenos que só travavam o trabalho; propôs aos Branquinhos que fossem comer fruta; e aos outros – Hélder, Joel, antónio, luís, o próprio Manuel, o Jorge Beato, a Carla e a Cristina, úteis como ele e outros –, começou a mandar trabalhar como ele pensava que as coisas deviam ser feitas. O David escolheu o caminho católico: ficou doente, portanto perdoado de trabalhar. O convívio é, pois, resultado do líder tecnicamente capacitado para o trabalho em actividades nas quais os adultos não participam nem colocam questões. Só exigem que o grupo de pares esteja em casa à hora de preparar a ceia. Aí, a realidade muda, e as crianças entram na disciplina fantasiosa dos pais ou de outros adultos, que organizam o tempo conforme os trabalhos próprios da estação. A pequenada ouve e obedece ao líder mutável, porque o David passou a ser outra vez o herói de todos, quando se tratou de compor cantos e versos. O imaginário das crianças salta os silêncios já descritos, inventa as suas ideias e elabora-as com a imagem do outro que, durante um tempo, é o seu amigo e camarada e par significativo. Por outras palavras, o par que ajuda a aceitar as contradições dos adultos.

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