O imaginário das crianças: Os silêncios da cultura oral – Capítulo VI

Capítulo VI

Eu sou homem e mando. Eu sou mulher e obedeço. Meninos e meninas.

 O comando da ordem social

“Gostava de ir como a Bertita, toda de branco como se fosse noiva. Pai, deixas-me?”, perguntava a “pequena do pai”, na medida em que ela pensava que ele mandava e decidia; e, ainda, porque era dele que dependia a celebração de um ritual associado a uma crença de Vilatuxe pouco praticada em casa. A conversa passou-se há quase 20 anos, numa aldeia galega onde pai e filha eram moradores conjunturais. E girou à volta de uma crença confessada em público e posta em dúvida em privado. A pequena, aliás, sabia que o pai pouco se importava com esses assuntos e que, adulto como era, pouca atenção ia dar ao seu pedido. Assim, com um misto de confiança que não disfarçava e um certo acanhamento, colocou a pergunta, depois de tê-la debatido com amigas e consigo própria; colocou-a à autoridade que, na metáfora divina, tudo decide. A pequena queria ir de branco, não porque fosse capaz de entender o que acontecia nesse dia particular, denominado Corpus Christi; queria ir de branco porque a Bertita de Vilatuxe ia de branco e, como a Bertita, também a Beatriz de Vilatuxe e outras amigas. O pai, não praticando a cultura ritual do grupo onde morava conjunturalmente, e com uma pequena a entender a concorrência entre pequenos, nem reparou quão diminuída ou, como dizem os galegos, “cativa”, a pequena ficava. O pai, proprietário da pequena, portanto, da “cativa” cativada, só depois comentou o facto com a sua mulher; no entanto, no dia do ritual, até sentia uma certa tristeza ao não ver a sua filha de 5 anos no meio das outras, todas de branco, terço na mão e livro de nácar entre as luvas. A tristeza calou-a, porque era homem e devia acreditar que tinha optado bem;  a mãe, ignorante do ritual, só sabia admirar o bem que pareciam as outras, e o longínquo que tudo aquilo estava dela. A frase inicial, no entanto, revela o facto de que quem estava mais atingida era a própria pequena: era a mais nova da sua turma, a única que não ia vestida de branco, “como se fosse noiva”. E o olhar triste que vi na igreja e as lágrimas à saída, contaram-me do entendimento que, nessa mente e nesses sentimentos, havia ou existia. O pai só foi capaz de, em privado, tomá-la nos braços, como se fosse um bebé, e, em silêncio, deixar que as lágrimas molhassem o seu pescoço: um pranto interior, sóbrio, de uma pequena mulher que assim protestava contra a autoridade masculina, como debatem Malinowski e Jones (1922) para outras realidades. Esse pai nunca esqueceu o sentimento que nesse dia aprendeu nem deixou de rememorar a frase que serve de entrada ao capítulo. “Gostava [eu]” exprime, primeiro, a vontade própria e o entendimento do grupo social onde se está; quer dizer, há um agir dos outros, seus amigos e pares, que ela, estrangeira, amavelmente aceite na história dos outros, na memória dos outros – tecida através de séculos, como digo em outros textos (Iturra, 1976, 1980 e 1986) –, entende como seu; um eu que sabe que, se não faz como os demais fazem, fica ainda menos semelhante a eles. A epistemologia da pequena não lhe permite exprimir isto, mas o seu comportamento, a sua raiva no dia do ritual, as lágrimas no pescoço do pai, as disputas com a mãe revelam a necessidade de ser parte do grupo mais alargado. Desse grupo que tem tios, primos, avós, padrinhos, essas relações que ela não possui, das quais não faz parte.

O ritual, como Van Gennep (1909), Douglas (1966), Bourdieu (1968) e Handman (1978) tão claramente definem, leva o indivíduo a tornar-se parte do grupo e a recordar, mais tarde na vida.

Um ritual que faz pertencer e ser lembrado no conjunto dos que nesse ano, no dia de Corpus Dei, passaram da socialmente denominada inocência pura ao discernimento. Este conceito não surge na boca da pequena, assim como não está na boca de nenhum pequeno dos grupos estudados ao longo da minha vida (Escócia, Chile, Espanha, Portugal, França), porque o facto é automático: atinge-se uma certa idade cronológica, e a criançada nos diversos sítios começa a ser treinada para explicitar o discernimento e decorar a lista de conceitos para a sua introspecção. O ritual do dia do Corpo de Deus é precedido de uma longa preparação sobre o entendimento do que é o bem e o mal, desta vez com palavras definidas. Uma definição que é feita, como se sabe que convém nessa tenra idade, em correlação com a emotividade. Quando, com uma equipa de, hoje, colegas, estudávamos Vila ruiva, dois de nós assistimos à preparação final para a primeira confissão, feita pelo próprio sr. Reitor da Paróquia; um padre que, por meio de slides já antigos, mostrava como o amor ao próximo era o mais importante na vida social, enquanto a incompreensão, a deslealdade, a falta de diálogo e de ouvir com paciência outras versões do real eram o maior mal feito aos outros. Nunca ouvi que obedecer aos pais fosse um assunto de maior importância: esse comportamento é tão culturalmente natural, que não há dúvida de que existe, faz parte da natureza humana.

O central da introspecção que prepara para a primeira comunhão está na aceitação da ordem do grupo; este tipo de comportamento liga-se à conhecida (pelo adulto) discordância que existe entre todos eles quando chega a idade adulta. A cultura na qual vivemos é uma cultura concorrencial – concorrência que se manifesta em, pelo menos, dois tipos de conduta: o acesso a postos de trabalho em lugares diferentes do mundo; e a exibição da riqueza e bem-estar atingidos na vida, por meio da casa, da decoração, da roupa. A pequena, desta parte da história, não sabia que tinha de ser previamente treinada na solidariedade para poder ser colaboradora no trabalho da vida em sociedade; nem que os princípios de interacção do grupo, onde conjunturalmente se encontrava, nunca seriam os estimados no seu país de origem, no norte da europa, onde a concorrência e a dedicação autónoma e independente, mas diplomata, entre adultos, é o sinal da santidade da pessoa, como lutero (1517) e Calvino (1536) pregaram e que Weber (1905) e Giddens (1971) tão claramente analisam. É verdade que os Concílios que definem a confissão (latrão, Trento) parecem dedicar muito do seu conteúdo ao que a cultura cristã dedica maior atenção, a sexualidade. Mas, visto o Catecismo actual, assinado por João Paulo II (1992), e o Código de Direito Canónico (1911-1983), pode apreciar-se que esta vida sexual diz respeito a outro facto social, já salientado por outros antropólogos (Bachofen, 1861; Lévi-Strauss, 1949): a circulação de mulheres. Mais uma vez, socialmente interdita a reprodução entre parentes consanguíneos ou clânicos, homens e mulheres são criados para procurar ternura e satisfação individual fora do seu grupo parental. A procura de parceiro ou parceira heterossexual está organizada para ser feita fora de casa e, talvez, do bairro ou aldeia ou clã. Esta procura, feita sempre pelos machos com iniciativa, e seduzidos pelas fêmeas em aparente papel secundário, pode passar a ser uma fonte de raivas, ciúmes e perturbações. Eis que, na idade em que parece que nada disto interessa, se prepara a infância nos conceitos de camaradagem, solidariedade e respeito, que têm como consequência o sagrado que se guarda na escolha da noiva. Introspecção que se ensina aos pequenos em relação com a metáfora dos maus judeus, dos amos romanos, na defesa da justiça de se comprometer num pronunciamento acerca do inocente e do culpado (Cristo ou Barrabás?). Aliás, todo o mito que resume as ideias da interacção está centrado numa personagem que sabe definir o convívio, a paciência, a obediência, a lealdade, a distribuição dos recursos e outros factos, nas suas homilias à população de Jerusalém de há 2000 anos, recolhidas por testemunhas denominadas evangelistas. Estes temas, centrados na capacidade de transmutação da natureza e das coisas – denominados milagres –, legitimam a palavra, e estão ligados ao mais central de todos eles, denominado o Sermão da Montanha. A criançada que ouve estas explicações, brinca e joga enquanto o catequista desenvolve os conteúdos; vivos como estão os princípios do quotidiano da vida, nem parece interessante escutar mais, porque já se sabe. Nada disto era considerado importante pela pequena da minha história. Ela procurava ser como os outros, enquanto os seus próprios pais o não eram, e estavam a tentar não misturar culturas diferentes no imaginário de quem queria parecer noiva como as outras. A pequena, como todos os pequenos, reconhece na sua frase um facto assente e não discutível: a autoridade do progenitor, que entre nós é quem manda e tem a última palavra sobre o que deve ser feito. A pergunta não vai endereçada à mãe, vai directamente a quem detém essa autoridade e que, pelo pensamento analógico, é quem tem órgãos que dão a vida e é possível vê-los. A frase está a definir dois encontros possíveis que sempre acontecem em qualquer grupo social: a obediência do adulto à opinião dos outros, para poder levar uma vida de colaboração, e a subordinação dos mais novos, que ainda pouco ou nada entendem da vida de interacção, a não ser o entendimento que se constrói na brincadeira e nos jogos, se e quando os adultos deixam. A pequena da história leva-nos agora a inspeccionar a relação individual de quem dá vida social.

Indivíduo dentro de um grupo consanguíneo

O ritual da primeira comunhão é encenado e ensaiado pelo sr. Reitor para os que, sendo considerados inocentes e incapazes, vão passar a seres com uma certa responsabilidade, pelo menos em relação a si próprios e aos seus factos. A introdução ao saber caquéctico tinha sido feita anteriormente, ao longo dos anos: a lei que governa o comportamento das pessoas em interacção é dividida em dois tipos de comportamento: a obediência à divindade e as inter-relações com outros seres humanos. Por outras palavras, o que se está a ensinar é a individualidade e a interacção. A individualidade, porque aparece um conjunto de comportamentos que dizem respeito a uma pessoa e à sua relação consigo própria: “amar a Deus, não invocar o seu nome em vão; não trabalhar no dia dedicado à divindade” expressam a vontade perante a qual cada indivíduo confronta a sua. Porque mandar amar a divindade acima de todas as pessoas e coisas estabelece e define uma hierarquia de lealdades que dizem respeito à separação entre eu e os outros. Para todo o cristão, mais ainda para os católicos, a divindade é uma entidade que fabrica, cria e dinamiza o mundo, sem ter de dar conta a ninguém dos seus actos. O poder dessa divindade não pode ser comprometido nem como testemunha do que o eu faz nem como elemento abonatório de mudanças e transmutações da matéria dentro de outro bem – espiritual ou material. Assim como o facto de não trabalhar no dia dedicado ao seu nome ou à comemoração de factos. Estas três leis reconhecem a fraqueza da natureza humana, que precisa de descanso e de divertimento quando emprega o seu corpo para produzir ou reproduzir. É como se a mente humana tivesse pensado que é preciso tomar conta da sua ferramenta principal, o próprio corpo – físico e psíquico –, para poder continuar a viver e a tecer a sua própria história.

Sem dúvida que a forma que assume o cumprimento destas leis tem variado através do tempo e conforme as classes sociais. Hoje em dia, para sintetizar, o dia da divindade é um dia de repouso, de reunir-se em família, de dedicar-se a desenvolver o imaginário perante o “nada para fazer” que acontece quando não há uma disciplina que governa o comportamento e o afazer, minuto após minuto. Porém, os grupos de crentes comemoram o dia com rituais pensados para eles por especialistas – dos próprios grupos crentes ou comerciais, como a televisão é hoje em dia, nos bares, cafés, carros e outros. Enfim, um segundo tipo de leis ensina aos mais novos as vias desenhadas para a interacção, começando pelo respeito devido aos que deram a vida a cada um dos catecúmenos – honrar pai e mãe é ouvir em silêncio o que em casa é dito, respeitando a sua paz, reputação, vida, relações públicas, propriedades. Na prática, o governo do comportamento individual em relação aos outros é uma correlação entre o que o indivíduo deseja fazer e a rede de relações sociais existentes já à sua chegada. O ritual introdutório trata de domesticar o pensamento à subordinação de interacções já preexistentes, quer à sua existência quer ao seu entendimento. O comportamento dos mais novos não deixa, em consequência, de ser rígido: há o meu e o teu, sejam pessoas ou bens, definidos a partir de uma relação afectiva, reforçada depois pelo entendimento de normas previamente decoradas. Normas aprendidas com os adultos pela imitação, como diriam Meyer Fortes (1938) e Jack goody (1973), ou em situações formais com os catequistas que, de forma sistemática, ensinam a doutrina. Doutrina, assim chamada por ser a definição da correspondência existente entre gerações, parentesco, genealogia, afectividade e trabalho; cinco conceitos que constituem a base das relações entre pessoas, o mapa das responsabilidades e hierarquias. Conceitos, ainda, que não definem apenas a relação legítima, legal e canónica entre seres descendentes biologicamente uns dos outros, mas que também definem descendências de ascendentes alheios ao parentesco. A responsabilidade é o respeito que se tem por si próprio, conforme a aceitação da normatividade social ou a sua manipulação, quando se sente e pensa que se pode e deve viver de uma maneira diferente daquela que, aparentemente, é maioritária no grupo; e a hierarquia, que define a aceitação da palavra de quem fala, porque sabe ou porque tem recursos ou saberes convenientes à reprodução. É sobre este tipo de comportamento que trabalha a introspecção, denominando o comportamento minoritário pecado, enquanto o maioritário é o comportamento de bem, de bondade, positivo para o conjunto das pessoas.

Eis que, em todo o grupo consanguíneo, há dois tipos de afazeres: o da responsabilidade de cada membro, conforme a sua capacidade, e a do grupo total que, perante o público, constitui, ou não, um exemplo de colaboração entre os seus membros. Talvez seja preciso acrescentar que, da totalidade dos membros de um grupo, a mulher aparece como a menos importante, por ser a mais reprimida: dentro das leis costumeiras, de longa memória na História a partir de Moisés, a proibição existente é a de desejar a mulher do outro nunca o homem de outro ou de outra. Mandamento que advém do facto de ser a mulher quem gera o filho, isto é, é ela quem assegura a continuidade histórica e reprodutiva de um grupo. Talvez também seja por isso que, nas metáforas, mitos, histórias e exemplos dados para a preparação do ritual, seja uma mulher que aparece na confissão, na penitência, na introspecção. De cada vez que tenho visto e ouvido exemplos na catequese, na rua, na escola, aparece a menina como o exemplo do bom comportamento e do exame de consciência. No quotidiano, é a menina que deve permanecer em casa e exibir um comportamento submisso.

Nas situações que observámos com a equipa que tem estudado Vila ruiva em Portugal, bem como os Vales e Cotas, no mesmo país, quem comanda e sabe é o menino, ficando as meninas sempre em silêncio e um passo atrás dos homens. Em Cotas, fizemos a filmagem de um debate entre meninas, primeiro, meninos, depois, e entre os dois grupos, em terceiro lugar. Nos dois primeiros, foi possível falar; no terceiro, as pequenas, tímidas e coradas, guardavam silêncio perante os piropos e brincadeiras sexuais dos rapazes. Eis o motivo por que, quando se ensina, se exibem as mulherezinhas como exemplo de seres atados à divindade, seres dotados de uma ternura que o homem também possui, mas não deve exibir. O facto de a menina aparecer como exemplo de submissão revela a entrega afectiva e duradoura que, no quotidiano, parece ter; ao contrário do varão, ensinado desde muito novo a ser rebelde, independente e autónomo. É por isso que, no título deste capítulo quis enfatizar a questão da existência independente versus existência subordinada. Os grupos consanguíneos enviam prontamente os seus pequenos a colaborar em trabalhos públicos, onde o emprego da força é essencial, enquanto as meninas ficam dentro de casa, sendo treinadas nos aspectos da divisão doméstica do trabalho. É verdade que, na transição que Portugal e Espanha têm efectuado nos últimos 10 anos, pequenos e pequenas estão a ser preparados para lutar na vida, a serem autónomos. Mas a representação da afectividade não muda com a mesma celeridade. Assim, no imaginário social, há uma permanência destas ideias: se uma mulher mostra independência e autonomia, já não há homem que queira ficar com ela; não se entendeu ainda que a colaboração igualitária, os objectivos comummente perseguidos, a comunhão de ideias e conceitos, faz dos indivíduos pessoas, e não homens e mulheres. Na idade a que faço referência, entre o nascimento e a puberdade, a pequenada é introduzida a estas ideias.

Ser grupo dentro do grupo

Mas será que dentro do grupo os seus membros são também grupo? Quer dizer, formam ou não uma coesão harmoniosa entre gerações que se entendem? Será que o conceito de harmonia é para aqui chamado e é interessante? É preciso, primeiro, entender o conceito de grupo. Diz respeito à monogamia que o Concílio de Trento acabou por definir e, na passagem do tempo, por fechar sob um mesmo tecto um homem, uma mulher e os seus descendentes. Uma definição assim fica mais esclarecida no trabalho de Jack Goody (1973), Domestic Groups. Porque a passagem geracional que não leva seres humanos ao esquecimento dos vivos acaba por criar grupos mais largos e extensos que o doméstico, unidos entre si, como já referi noutro texto (1987). Uma primeira ideia que me vem à cabeça é a do próprio ritual da primeira comunhão, quando os pequenos são conduzidos a novas responsabilidades pelos seus parentes mais chegados, junto da ara que serve de pedra base para cimentar a união. No caso do Joel, foi apresentado pela mãe, mas também pelo pai, que aí reside permanentemente, e pela sua madrinha Zulmira, tia, substituta da mãe, filha de um irmão do pai (v. Genealogia 3). Assim, o Joel, filho único, é da responsabilidade dos seus pais, dos irmãos dos pais e dos avós. Conversa com eles, passeia com eles, lê livros ao pé do pai, um intelectual local, ex-estudante universitário na Argentina e em França; passa partes do dia com o seu avô paterno, seduzido pelo carro tirado por um burro com o qual trabalha, e pelo entendimento que o dito avó, bem como a avó, têm do seu neto. Em conjunto, as várias casas trabalham quando é necessário naquilo que cada um deles entende. A epistemologia do Joel é a da solidariedade entre vizinhos, conceito que ele vive no convívio amável com os seus pais, e dos seus pais entre eles e com os avós. O bom convívio com a mulher permite o acesso à família desta; e a dessa família à casa do Joel. É vulgar ver no café dos pais do Joel membros da família de ambos a dar assistência nas tarefas.

A questão está em ver que existe respeito por parte de todos os parentes na forma de criar o pequeno, e observar como os pais permitem que o filho possa circular de casa em casa, entre pessoas que dedicam o seu tempo a trabalhos tão diferenciados: o pai do pai, à agricultura; o irmão do pai do pai, ao gado; o pai da mãe e o seu irmão, à emigração, primeiro, e à agricultura e ao comércio, depois. O Joel vê, observa, pode contar a história, embora não chegue a entender esta heterogeneidade nem se tenha colocado a questão. Mas acaba por entender que a sua terra, língua e identidade não é só Portugal, ou Vila Ruiva, em parte por ter acompanhado os pais emigrados na argentina e em França. Assim, o conhecimento que forma o seu entendimento é largo e acolhe a todos por igual. Normalmente, seria possível pensar que a sua individualidade viria a ser absorvida pela quantidade de adultos à sua volta; no entanto, a personalidade do rapaz é livre e autónoma, desde que respeite os horários que a sua mãe tem definido para maior conforto da casa. Casos semelhantes permitem pensar que um Joel não precisa da sua família para sobreviver; pelo contrário, tem o modelo preciso para formar a sua própria, porque em todos os sítios por onde andou, esteve acompanhado dos seus pais e avós paternos. É o que eu poderia denominar um grupo que forma seres humanos autónomos pela completa presença de todos os indivíduos que desempenham papéis, conforme a sua hierarquia, no universo familiar. E, embora haja proximidade entre todos eles ao nível da comunicação e do entendimento, guardam a distância e o respeito entre cada lar: cada lar tem os seus objectivos, cada um dinamiza o seu trabalho, carinho, palavras e acolhimento, com a distância necessária que faz nascer a independência. A família não “suga” o pequeno: liberta-o. Quase tanto como no caso da Suzana, apresentada pela mãe, dada a falta não explicada do pai que, entre raivas e gritos com as filhas, conseguiu, tempos volvidos, que elas fossem embora para outras terras, como já referi em capítulo anterior. Ou o caso da Fernanda, cujo pai tinha morrido, apresentada pela mãe e por um envergonhado irmão mais velho, que não queria desempenhar o papel do pai. A Fernanda vive fechada em casa, apoiando-se nos irmãos, é a cozinheira do lar e solicita e recebe o apoio dos seus, em privado e em público. O caso do Bento, também já referido noutro capítulo, é de dependência do seu irmão David, embora tenha sido apresentado pela mãe, com um pai meio bêbado à porta da igreja, todo elegante e de azul.

É característico pensar e dizer que os grupos são fechados e agem quase como clãs dentro deles; no entanto, não só há variabilidade nos motivos, bem como heterogeneidade nos comportamentos dos consanguíneos. É possível propor a hipótese de que esta variabilidade depende da representação da afectividade entre eles, que sabem que nasceram para trabalhar e produzir, um dia ter filhos e o seu próprio lar, enquanto os seus progenitores têm por definição de criá-los ou enviá-los para longe, ao cuidado do mais velho para a sua subsistência. Este conjunto de factos que apresento está distante do modelo central do mito que alimenta a reprodução – a Sagrada Família (Iturra, 1988 e 1991), modelo não só ensinado, bem como respeitado pelos diferentes indivíduos que, sem consciência do mesmo, o imitam, incrustado como está nas ideias da cultura. O mito é o texto que se lê na genealogia e se vê agir diferentemente entre os grupos consanguíneos que têm uma mesma base de formação. É, assim, que é mais um objectivo da mitologia cristã contratar indivíduos concorrenciais, para a manutenção da ordem social.

Eu faço conforme posso

A pequenada é, pois, apresentada ritualmente pelos parentes mais próximos. Mas apresentada ao grupo social, metaforicamente representado pelo padre que, por sua vez, representa a divindade. Divindade que ele tem o poder de transubstanciar todos os dias – esta capacidade de mutação faz parte do conjunto de ideias que governam o comportamento –, que do pão e do vinho faz um corpo, necessário, conforme a crença, para a vida das pessoas dentro do bem e longe do mal. O grupo social precisa também de corpos para a sua continuidade social, dentro ou fora do bem ou do mal; e o grupo social não tem o poder de mutar, mas tem sim os elementos para criar. É aí que o corpo humano é divinizado: com um esperma e um óvulo, faz-se mais outro. O rito para apresentar as capacidades aprendidas pelos meninos e meninas é a exibição pública de quantos há, este ano, que podem passar a ser a reprodução de todos. De todos, porque muito embora sejam levados pelos progenitores ou os seus substitutos, cada criança, dotada da (reconhecida publicamente) capacidade de discernir, acaba por entrar numa rede de relações da qual fazia já parte no dia em que nasceu.

Como tenho referido já (Iturra, 1993) e tem sido claramente expresso por Bateson (1958) e Mead (1928), o ritual mostra à sociedade os pequenos que tem e a heterogeneidade da inteligência existente entre todos eles. Porque a capacidade de uma Fernanda já púbere, de uma Cristina de primeiras letras ou de um pequeno e magro Bento, o desfile e a presença de todos eles juntos, lavados e vestidos, permite ver e comparar. E permite saber quantos este ano, quantos o ano anterior e quantos ainda, para esse dia, em épocas recuadas. O grupo social aprecia o movimento, o gracejo do andar, a seriedade do voltar ao sítio com a divindade na boca, os comentários já ouvidos aos catequistas, o silêncio, a disciplina do conjunto. E é até simpático ver a distracção do Bento que se exibe, o sorrir e empurrar constante do antónio “Pego”, a leveza do ricardo que não ousa levantar os olhos do chão, orientado pela mãe, a seriedade profunda da Suzana, o riso permanente da eunice que procura as amigas com os olhos e dos outros que também vão na fila. Os comentários dos homens no coro da igreja são definitivos, enquanto as mulheres maternalizam cada um dos seus, para que pareça ser o melhor. A entrada na capacidade social é avaliada na confissão por uma única pessoa e em segredo, enquanto a capacidade individual é sobejamente conhecida pelos presentes no dia em que ninguém falta à igreja, porque é a festa colectiva da miudagem. Talvez todos eles desejassem dizer: “Parai todos e sede sábios. É só uma vez que vivemos, e isso é já suficiente”, como diziam os três pequenos da Flauta Mágica, de Mozart (1789). Porque, apesar de os três pequenos acima referidos serem capazes de mostrar os templos de cultivo da razão, natureza e sabedoria, os dez pequenos de que agora falo só podiam entender a matéria, conforme a razão cinzelada pelos seus e pelos tradicionais catequistas, responsáveis por ensinar, domingo após domingo, as verdades do grupo.

Se os templos são novidade para os que pela primeira vez os vêem, a matéria era já racionalmente mobilizada com sabedoria pelos pequenos, conforme a capacidade dos adultos para ensinar os necessários movimentos nos sítios adequados. Nenhum deles possuía ainda capacidade ou força para a enxada, ou inteligência para fugir da mesma e entrar pelas vias alternativas. Aliás, não se conhece via alternativa quando se vive no mundo fechado do bairro, aldeia, família. O grupo social deixa escapar capacidades já existentes nos pequenos, que são delapidadas pelas balizas do entendimento do adulto. A Cristina, no ano da sua primeira comunhão (1990), era a pequena que comia calada em casa do tio, enquanto na corrida de bicicletas, que filmei em 1994, era a bilingue espigada e rodeada de jovens atraídos pela sua formosura e leveza; enquanto a Fernanda, de nervosa pré-adolescente, passou a ser, no espaço de meses, uma matrona-mãe, gorda e carinhosa com os mais pequenos. São os pais e parentes que ouvem os vizinhos, que decidem o que fazer com a sua ninhada, especialmente à luz dos novos contratos da União europeia que trava a emigração. É na medida do tempo e da sua conjuntura que esses pequenos passam do nada a seres respeitados, porque ou são aprovados na escola até aos 15 anos ou nem contrato de jornaleiro podem passar a ter. A força para a enxada, bem como a capacidade para fazer sopa, fica com os pais deles; eles são animados a desenvolver a razão, em tempo curto e obrigatório. Por isso é que, ainda que o rito mostre o que há, o que há não se vê; e o que se vê, só fica contido nas leis, das quais entendem os governantes; entendimento que leve aos pequenos para além do que deles é esperado. O grupo social espera bons jornaleiros e boas parideiras; os pequenos nem dizem o que são capazes de fazer ou de pensar, porque nem parece certo. Só o Joel, que lê para além do que o pai já lia, fica pronto e preparado para, um dia destes, sair para os estudos superiores que, até à época da infância dos pais, estavam destinados apenas aos filhos dos proprietários. Hoje, todos eles proprietários, ficam com a capacidade eventual de serem doutores. Como a filha do proprietário do café que, na base dos suores da cozinheira, sua mãe, e do seu pai, emigrante, consegue ser professora. Essa classe intelectual secundária em luta pela sua progenitura.

 Masculinidade e feminilidade: menino e moça

O pensamento não letrado compara. Mas compara o externo, o evidente, o óbvio. Assim o exprime, pela primeira vez, Durkheim (1911), pela segunda vez, Lévi-Strauss (1953) e aprofunda o assunto o grande discípulo Godelier (1981, 1995). Timidamente, falei do assunto noutro texto (Iturra, 1995). Culturalmente, dividimos os corpos em homens e mulheres, esse erro do qual nos advertem Lígia Amâncio (1994), Miguel Vale de Almeida (1994) e Teresa Joaquim (1995). Por detrás de cada aparência, temos agires que resultam da opção de cada indivíduo, pelo menos hoje. A questão é: o que será essa ordem social, essa opinião dos outros, senão uma conjuntura, mais comprida, mais curta, mais estável, menos estável? Durante mais de 400 anos, na Beira Alta, conforme os arquivos que estudei com as várias equipas que me acompanharam, houve nascimentos de filhos sem pais, resultado de estrita divisão de classes existentes entre os seres humanos (Iturra, 1985 e 1990). Publicamente, ser homem foi, durante esses 400 anos, ter erecção, penetrar uma mulher e nela introduzir espermatozóides. Se era de condição semelhante – ambos jornaleiros –, era suficiente uma inscrição depois do baptismo; se a mulher era de classe inferior, o filho ficava sem pai; se a mulher era abastada e senhora, existia a roda dos expostos. O’neill falou clara e brilhantemente do assunto uma vez (1984) e ficámos todos esclarecidos. Vi casos à minha frente, como sieberg (1991) e sobral (1994) comigo. Foi um próprio descendente das senhoras quem me mostrou a Beira alta pela primeira vez. Ser homem era, em consequência, ter muitos filhos, como Tirso de Molina (1630) indica. Mesmo que, em segredo, a verdade da preferência sexual fosse outra. Como a desse jovem que era nosso amigo e que, para tristeza de todos nós, nos fez acordar a tremer depois de vê-lo pendurado de uma árvore, já morto. Foi dito que era o álcool e a droga; soube depois que o seu amante, seu grande amigo, o tinha abandonado, e o seu luto foi a morte rápida e cruel de si próprio. Não, a sexualidade fica de fora. Será que a Cristina virá um dia a ser uma mãe cuidadosa ou a doutora que investiga, “à la Klein”, sem filhos? E a coitada, gorda e desgrenhada Fernanda, uma abundante matrona que trata dos seus com o carinho que ela nunca teve?

A masculinidade acaba por ser um conceito que abrange os dois sexos, morfologicamente falando; porque tem a ver com o entendimento e a identificação de alternativas que permitam o lucro. Definição existente no século XVII, e que o americano Havelock Ellis (1894) tenta destruir para deixar só duas formas de amar: a abordagem do homem e a sedução recatada da mulher. Porque escreve Goethe o Fausto? Porque escreve Schiller Adelaide? Porquê Beethoven os acompanha com a sua música, único meio para exprimir a sua afectividade, mil vezes escondida perante as pessoas das quais gostou? E porquê Freud, no profundo do seu entendimento e amor pela ciência, analisa os dados todos que o levam a mostrar como ama Fliess, seu colega, assim como a sua mulher, como diz Didier Anzier, em 1959? Os grupos sociais onde não há Lohengrin nem rei Arturo categorizam de forma mais simples: ou se têm filhos ou se morre de fome e de falta de ajuda na velhice. Ou se têm filhos ou nunca teremos colaboração no dia em que sejamos seres impossibilitados. A ordem social não está contra os genitais que se juntam; a ordem, a opinião social, está a favor do cuidado das gerações heterogéneas que vivem em conjunto, onde, por afectividade e por economia, há dependências diversas em diversos momentos da vida. Ser mulher é juntar à possibilidade de optar por alternativas identificadas o cuidado dos pequenos que nascem e crescem e devem ser educados e criados. A vida, nos grupos que trabalham e exibem em rituais o seu capital humano, acaba por simplificar e orientar, para um só lado, o sexo, tornando pobres o imaginário, a fantasia e a afectividade. A Cristina não é mais masculina porque ganha ao David na corrida de bicicleta, nem este se sente mais diminuído por perder: ela não exibe o ganho, ele aprende com a derrota. Ambos se acompanham como lindos adolescentes, sem concorrência, sem cobrar, sem autoritarismo. As bicicletas, para brincar; o pão que ele faz, para juntar dinheiro; e os estudos dela na Alemanha, para o que um dia venha descobrir o que deseja fazer com a sua única vida. Como aquela pequena que, em Vilatuxe, queria fazer a primeira comunhão para parecer noiva e ser aceite pelos outros. E que, agora que é noiva, nem do traje branco alguma vez se lembrou; só se lembrou de lutar, junto a quem ama e por quem é amada, de aprofundar os seus estudos clínicos sobre crianças. Algumas destas alternativas são vistas pelo grupo, que examina quantos, este ano, estão capacitados já para entender. O masculino e o feminino são a ordem conveniente que as pessoas dão às aparências perigosas para o grupo: que podem levar à concorrência e à circulação enganada de homens e mulheres. Enganada para o grupo, nunca para quem fez a escolha. Porque a opção, que faz sofrer persistentemente, acaba quando o grupo que nós amamos nos acolhe. E a outra pessoa também. Parte do imaginário que ainda não é das crianças, mas que devia ser: não é a erecção que faz um homem, nem é a falta do pénis que envergonha uma mulher. É a afectividade que nos faz optar, que distingue entre menino e menina, seja qual for a genitália, e mesmo que o grupo não conheça Mozart. Eu mando no que sei e obedeço no que aprendo. Eu sou menino e menina, devia dizer o grupo social. Assim é que posso amar.

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