O DNA dos principais partidos políticos portugueses.

O "DNA" dos partidos políticos portugueses a partir da análise vocabular dos seus memorandos e programas políticos

Durante a vida política, fora e dentro do Parlamento, antes, durante e depois das eleições, há sempre um discurso muito semelhante entre os partidos: todos se culpam e ninguém tem a culpa. Nesse sentido, a classe política, da Esquerda à Direita, acaba por acoitar-se sob um manto de desresponsabilização que caracteriza a Partidocracia. Numa democracia especificamente controlada por partidos, é natural que os partidos se defendam entre si, depois os seus clientes e eleitores e só depois, no final, os cidadãos, votantes e não votantes.
Para perceber até que ponto o discurso político-partidário não só é inócuo como semelhante, elaborei uma análise vocabular dos programas e compromissos eleitoral para as eleições que se aproximam. Recorrendo a um programa informático muito simples (o Polaris word count), contei os 20 substantivos mais vezes referidos pelos 5 partidos com assento parlamentar: BE / CDU / PS / PSD e CDS-PP. O resultado foi muito interessante e revela, de certa forma, como o discurso partidário se aproxima em forma e estilo de uma ponta à outra do espectro parlamentar nacional. É esquemático, pobre em conteúdo e pouco imaginativo.
Desde logo o partido com o memorando mais longo é o PSD. São 63121 palavras. Aquela que aparece mais vezes é Estado. Um partido habituado a controlar a pesada máquina governamental não podia deixar de esquecer o peso desta abstracta mas sempre presente instituição que o partido controlou várias vezes ao longo desta III República. É um programa essencialmente tecnocrata, fala em Gestão, Sistema, Objectivos, Nível e Medidas.
Uma parte substancial das 20 palavras mais referidas no programa político do PS (19325 palavras) coincidem com as do programa do PSD: Portugal, Social, Política(s), Estado, Governo, Economia, Nacional, Sistema. São, aliás, substantivos bastante comuns na boca do primeiro ministro. O Partido Socialista apenas se distingue do discurso dos seus congéneres pela estranha referência a 2011 (104 vezes) e 2015 (53 vezes) e pelas palavras Apoio e Promoção (valores, aliás, muito queridos do actual governo que não poupa em apoios sociais e promoções políticas), Crescimento e Crise e, claro, pelas 64 referências a si mesmo (PS).
O CDS-PP é, no entanto, o partido com a maior auto-estima. No topo das palavras mais vezes referidas está a própria sigla. Seguem-se Estado e Social, nomenclatura obrigatória do regime. (Por falar em regime, não deixa de ser pertinente que nenhum partido se lembre da República, pois aparece excluídas das lista das principais palavras). O PP distingue-se por falar em Reforma, Avaliação, Serviços, Medidas e Forma: palavras que podiam integrar o memorando do PCP-Verdes, por exemplo.
Se há coisa que a CDU não esquece é de mencionar os Trabalhadores. O Bloco de Esquerda fala em Emprego (que deve algo totalmente diferente). E os restantes partidos nem parecem interessados em abordar a questão, mesmo apesar das últimas estatísticas referirem já os 12% de desempregados em Portugal. Estranhamente, Defesa é uma palavra repetida 59 vezes no programa eleitoral do PCP embora, creio, não com o significado bélico que lhe podia incutir…
O Bloco de Esquerda (BE) distingue-se, de facto, no discurso partidário. Não obstante partilhar com os restantes partidos as palavras Estado, Economia, Social, Portugal, Fiscal, Política, Portuguesa, Pública e Público, há uma dissonância clara, (e francamente estranha…), em relação ao restantes. Se não, vejamos: a palavra mais vezes referida no memorando do BE é Dívida, em quarto lugar, Milhões, em quinto, Esquerda e em sexto, Euros. Vindo de um partido de pendor libertário, a preocupação em contar dinheiro parece-me preocupante, sobretudo por não se tratar de trocos… todo o programa parece preocupado em acusar em vez de resolver, em listar defeitos, em vez de apresentar alternativas. Fala em Resgate, Défice e Juros.
Em suma, todos os programas dos 5 partidos portugueses mais votados são semelhantes na mensagem nacionalista, mesmo os da Esquerda cuja ideologia poderia inibir as alusões patrióticas. E se alargássemos esta amostra às 50 palavras mais votadas, creio que ficaríamos bastante mais elucidados sobre a proximidade entre todos os candidatos, cada vez menos atentos às diferenças ideológicas e mais à capacidade de permanecerem no poder.
Todos falam em Portugal (ou Nacional), Social, Estado, Política. A abstractividade destas palavras permite passar a mensagem vaga que tem sido veiculada ao longo desta Terceira República e que podia resumir-se a uma única frase: Nós [colocar o nome do Partido] e a nossa política, vamos salvar Portugal e o Estado Social. ou O Estado Social de Portugal são a nossa política [nome do respectivo Partido].
O DNA partidário, como se pode ver pela imagem acima, é mais semelhante do que se poderia pensar quando o Parlamento parece uma arena ou durante os debates entre candidatos – tendo em conta que grande parte do drama veiculado pelos mídia é já o produto da negociação e do entendimento entre assessores de imprensa e de imagem. Neste caso, não há lugar para teorias evolucionistas. É notável o inbreeding. Os partidos tendem a ficar cada vez mais parecidos geneticamente.

Também publicado aqui.

Comments


  1. Excelente e interessante trabalho! Julgo que este trabalho se pode usar como mais uma indicação do esgotamento dos partidos, pelo menos daqueles com assento parlamentar. E digam o que disserem, os partidos são a mensagem que transmitem.

  2. Garoux says:

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  1. […] o sistema eleitoral, com a prevalência partidária, com os seus lobies e estratégias de poder. Não votei porque não me revejo no discurso estereotipado dos partidos. E não admito que um político de carreira como o Professor Cavaco Silva venha insinuar que, por […]

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