Uma questão de confiança

Outdoor PS 2011

Em Lisboa, em Entre-Campos, nem a desculpa entretanto apresentada para não cumprir a promessa de não usar outdoors (colocar “de forma simbólica” um “outdoor por círculo eleitoral”) foi mantida: o painel da foto é composto por um outdoor na frente e outro no verso.

O caso de campanha de ontem foi a artificial troca de argumentos sobre se o PS estaria ou não a usar o medo para condicionar o voto (está) e se o PSD pretende ou não privatizar a CGD (pretende privatizar algumas coisas).

É uma discussão artificial porque é irrelevante. Na verdade, o PS, ele mesmo, comprometeu-se com a troika avançar com a privatização de partes da CGD, para melhorar a gestão do grupo, o que incluirá «uma agenda mais ambiciosa com vista à já anunciada venda do ramo de seguros do grupo, um programa para a eliminação gradual de todas as subsidiárias não nucleares e, se necessário, uma redução de actividades no exterior» (ver ponto 30 da carta do Governo à Troika).

É de sublinhar que o programa dos próximos três anos está definido e é aquele que o Estado assinou com a troika. Entra em cena neste ponto a capacidade de se cumprir ou não esse acordo, o qual, goste-se ou não, permitiu ao país não entrar em bancarrota. A capacidade de cumprir o acordo com a troika é crítica,  já que cada avaliação trimestral desse cumprimento determinará se se receberá ou não a tranche seguinte dos 78 mil milhões de empréstimo. Será que um partido que afirma não colocar outdoors de campanha porque o país está em crise e o faz na mesma passadas duas semanas é de confiança para cumprir um acordo sem recorrer a truques? É uma questão menor, mas se nos recordarmos de outras promessas não cumpridas (não aumentar os impostos, não estar disponível para governar com o FMI, por exemplo) reconheceremos um padrão de incumprimento que vem desde 2005. José Sócrates não é pessoa para manter acordos e, à primeira hipótese, fugirá ao acordado coma troika, inviabilizando o restante empréstimo e deixando-nos ainda pior do que estamos.

Não havendo programa eleitoral a discutir, nesta eleição irá a votos uma questão de confiança e Sócrates não apresenta currículo neste aspecto.

Comments


  1. Quando se está no poder, para mais com uma situação internacional de enorme complexidade, a política, se se comporta sempre um certo grau de “sinuosidade”, passa a sê-lo ainda de forma mais expressiva. É o q sucede. E vamos a ver se tudo isto não desaba com um eventual colapso financeiro da Grécia. Isto penso eu. Tens aí uma velinha?


    • Pois, a situação é tão sinuosa que bloggers sem staff nem assessores conseguem acompanhar a situação nos tempos livres. No entanto, para o governo, com todas as equipas de suporte e analistas que têm ao serviço, foi de alguma forma impossível vislumbrar estes acontecimentos… Não quero dizer com isto que a situação não seja complexa, é complexa, mas no caso concreto deste post, escreve-se sobre coisas muito directas, afinal basta ler dois parágrafos…

      Edição: português

    • jorge fliscorno says:

      Situação internacional de enorme complexidade para que países? Portugal, Grécia, Irlanda e mais algum? Ai as generalizações 🙂

      Em todo o caso, este post é sobre se se pode confiar em quem diz em Fevereiro “as contas estão fantásticas” mas em Maio se conclui que apenas se adiaram despesas. Quem diz que Portugal foi o primeiro a sair da crise mas tem agora aqui o FMI. Quem diz que não vai privatizar a CGD mas comprometeu-se com isso.

      Este post é sobre confiança. E eu não confio neste primeiro-ministro.


  2. Bom, acabo de perder a resposta q já ia longa. Em resumo, países à rasca: Espanha, Bélgica, Itália. Se os gregos abrem bancarrota o euro vai por água abaixo e temos aí o bom e o bonito. Sócrates. Tens razão. Agora a sucessão de episódios num mundo tão volátil não só impede a capacidade de previsão como de controlar os factos. Navega-se ao sabor da vontade da Merkel q, por sua vez, navega ao sabor dos bancos e do capital financeiro. E é aqui q a porca torce o rabo. Enquanto houve “muro” – e aquilo era uma aberração – a malta tinha por cá uma espécie de seguro de bem-estar social. Aquela porcaria implodiu e agora temos à solta o capitalismo na sua forma mais selvagem. Faz-me ter saudades dos tempos do “muro”. Vivemos todos com uma arma apontada à cabeça e o Sócrates tb. E ele sabe-o, garanto-te. Vai fazendo o q pode, atamancando aqui, tapando acolá. Não tens confiança no tipo, qual a solução? Pois, e aqui começa outra conversa. E eu gosto de conversar. Olha, uma gaita, pá, uma gaita! Estamos tramados!

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