Discutindo pintelhos

Nos dez mandamentos da “arte da crónica” não consta nenhum que obrigue o cronista a começar por uma citação queirosiana. No entanto, fica sempre bem, dá-lhe um toque de intelectualidade chique e bem pensante. Por isso, aí vai ela. Diz João da Ega em “Os Maias”: “Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes.” Ora, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional em que hoje chafurda a alma da nação, que deve fazer qualquer cronista de senso e de gosto? Plantar legumes? Não. Trata-se de uma impossibilidade real. Então, que fazer? Pois bem. Nada mais nada menos do que “discutir pintelhos”, expressão em boa hora recuperada por Eduardo Catroga para o debate político eleitoral que tem decorrido de forma sensaborona e rasteira e chega agora a uma elevação pública e púbica, digna da dimensão desta “pintelheira” patriótica em que vamos forçando, sem arte nem engenho.Já o escrevi aqui várias vezes e de diferentes maneiras. As palavras, todas as palavras, são para serem usadas em situação contextuais que permitam a sua compreensão e deixem vir ao de cima a riqueza da sua expressividade. Dizem os dicionários que ‘pentelho’ (de que ‘pintelho’ será muito provavelmente uma variante regionalista como a diante se comprovará, ao contrário do que pensa Ricardo Araújo Pereira que afirma tratar-se de uma versão popular) se define como “pêlo ou cabelo do púbis”, ou também, num sentido metafórico, “qualquer coisa pequena ou de escassa importância, sem valor.” Consultado especialmente o Dicionário da Língua Romôntica Portuense, “ediçom realista e aumentada com nobos bocáculos (…) da regiom compreendida entre a circunbalaçom (…) e o enclave da Afurada”, surge-nos a variante ‘pintelho’ (daí o eventual regionalismo) como aquilo “que se cola ao bigode com facilidade” (?!).

Honra pois a Eduardo Catroga que, com particular desassombro, trouxe o pintelho para o centro do debate político, se bem que tal facto tenha funcionado como um verdadeiro tsunami moral e social. Benzeram-se as almas mais púdicas ou mais sensíveis, os metrossexuais correram a depilar-se, o Papa desatou a fazer milagres, e as mães “que a palavra terrível escutaram / aos peitos os filhinhos apertaram”, parafraseando Camões. O próprio Sócrates, que politicamente não vale um pintelho (acepção metafórica da palavra) considerou o uso do vocábulo, uma… brejeirice! E até o épico, lá do “assento etéreo” onde subiu há séculos, imortalizou o momento político em decassílabos heróicos. Assim: “Oh! que não sei de nojo como o conte! / Que tendo eles o nível levantado / A disputa que cresceu de monte a monte / Pôs o nível da luta neste estado! / Do Sócrates inclinou-se logo a fronte / E tendo Catroga mesmo ali ao lado / De raiva corou, ficou vermelho / E junto de um pintelho, outro pintelho!”

Ora, parece-me absolutamente despropositada tamanha algazarra, tanto mais que estou certo de que o eleitor comum prefere muito mais discutir pintelhos do que programas políticos. Facto que já não é de hoje e se tem por mais que demonstrado por tradição poética consagrada, seja recorrendo a Bocage que notara em determinada donzela que “de louro pêlo um círculo imperfeito / os papudos beicinhos lhe matiza”, ou até mesmo do padre (quem diria?) José Agostinho de Macedo, contemporâneo de Bocage, que cantou um certo “vestidinho / que, entre as pernas metido, à proa mostra / da pentelheira cabeluda a sombra”, conforme fez questão de me recordar a mais recente crónica de Ricardo Araújo Pereira na revista Visão. Isto sem contar, agora mais prosaicamente, a prática que alguma moda regista das “calças de bigode”, assim chamadas porque, sendo de cintura descaída, deixam não raramente à mostra “as hastes queratinizadas da região frontal da pelve”, perífrase de índole intelectual que o vulgo ignaro regista grosseiramente como pentelheira.

Por tudo isto, o eleitor que sou agradece penhoradamente a Eduardo Catroga. Ainda mais o autor deste texto, porque foi ele, Catroga, desta vez, o abono de família de um cronista sem assunto. Ainda que aquilo que pacientemente acabam de ler pretenda ser uma crónica que, e vendo bem as coisas, se calhar não vale um pintelho! Paciência!…

PS: Uma jovem universitária de 18 anos morreu num exercício estúpido do chamado Dia da Defesa Nacional, instituído, ironia das ironias, pelo másculo Paulo Portas e de presença obrigatória num país em que a tropa não serve para nada a não ser para um exercício ocioso de copos e jogos de cartas. Uma jovem vítima de um Estado criminoso. Porquê?

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 25 de Maio de 2011

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