Bem Vindos ao Cairo 001

Imaginem uma cidade amarela, cor de areia.
Com  grandes construções em tijolo, arranha-céus à americana, casas rasteiras em adobe,
casinhotas de chapa de zinco e contraplacado de madeira.
Imaginem uma cidade quente, repleta de carros, cheia de gente.
Uma cidade que cheira a coisas. Cheira a tudo.
Uma cidade grande, que não dorme.
Embora eu nunca tenha ido a Nova Iorque, faz-me lembrar Nova Iorque do Médio Oriente.
Imaginem uma cidade com um burburinho miudinho constante, ora de rezas e cânticos, ora de crianças que só sabem brincar na rua.
E pessoas a falar.
24 horas por dia.
Não há horas sossegadas, não há paragens, não há o barulho do silêncio.
E então, pensem o que é viver numa festa de S.João permanente:
as buzinas frenéticas
os gritinhos histéricos
As conversas cheias de risos
As buzinas outra vez
E mais buzinas
As rezas nos altifalantes das mesquitas, 5 vezes por dia.
As crianças a jogar futebol no meio da rua.
E as buzinas.
É uma cidade no deserto, que de deserto só tem o nome.
E o tempo aqui não passa. Não corre como a vida frenética no Ocidente.
Não tem o sangue fervilhante da vida rápida e instantânea, e do “tudo para ontem” como nós a conhecemos.
Tudo pode ser para amanhã, ou depois.
Ou então pode não ser, porque a vida aqui não são dois dias.  São milhares.
Imaginem um lugar no mundo, como uma cidade de formigas, sempre juntas em fila indiana e em constante movimento.
Não são trabalhadeiras, mas vão trabalhando. E dormindo… Sempre a dormir nas horas de Sol.
Imaginem a cidade frenética das formigas, mas em Slowmotion!
Esta cidade, a ter uma unica descrição, será: um circo cigano em slowmotion.
Benvindos ao Cairo.
Cláudia Rocha Gonçalves

Comments

  1. Frederico Mendes Paula says:

    O Cairo é fascinante. Como escreves, cidade que desperta os nossos sentidos com os seus sons, cores e odores. Cidade onde se cruzam culturas, religiões e ideologias. Porta do deserto, capital do Egipto, mãe da vida.

Trackbacks

  1. […] Nesta cidade os Nãos são muitos. A primeira visita é sempre cheia de recomendações para quem não conhece o país, as gentes, a cultura. Começa logo com os nãos. Algumas, são apenas observações minhas, de entre o que vou vivendo e o que me vão explicando. Estou aqui há um mês. Não se pode beber água da torneira. Não é permitido vender bebidas alcoolicas nos supermercados. Não há bebidas alcoolicas nos menus dos restaurantes e embora alguns as sirvam, é preciso saber que locais as têm. Não há regras de trânsito, literalmente. tem prioridade quem passa primeiro e quem buzina mais. ´ Caótico! Até hoje, ainda só vi 3 sinais de trânsito: “proibido falar ao telemóvel” “proibido buzinar” e “sentido proibido” Ainda assim, é de longe o melhor caos organizado que conheço. Não há muita liberdade para se vestir o que se quer, pelo menos da parte das mulheres. Eles dizem-se modernos e a caminhar para a aproximação ao mundo ocidental, mas ombros e joelhos à mostra, ainda são mal vistos pela maioria da população. Há quem não faça caso disso, mas os nomes atribuidos a essas mulheres daquela forma sorrateira, não são os mais bonitos. Eu sou, claramente, uma dessas mulheres.  Mas ainda não me atrevi a vestir um dos meus lindos e frescos vestidos. Pelo sim, pelo não, deixem-me ganhar a confiança deles. Não se deve ter medo de atravessar a estrada ou rua. A estrada é de todos, dos carros e dos peões. Os passeios existem para albergar entulho e detritos e coisas que tal. Não se deve ter medo da aventura que é atravessar uma rua. A lógica é mandarmo-nos em frente, e ir passando por entre os carros e as buzinadelas. E neste caso, as buzinadelas servem de aviso para ter cuidado, para nós sabermos a proximidade do carro a nós. E não por zanga. Não se deve parecer muito turista, ou muito europeu ou Americano. A probabilidade de termos taxis e miúdos atrás de nós como se estivéssemos cobertos de ouro é gigantesca. Não se deve ceder. Não se deve abrir a carteira cheia de notas nestas situações. Não pelo medo do roubo, que aqui ninguém rouba nada a ninguém. Mas por respeito pelos que vivem abaixo do limiar da pobreza. Porque depois pedem-nos o mundo e arredores com toda a lata. Dizem eles que somos ricos e 15 Libras Egípcias não nos fazem falta nenhuma. E têm razão, 15 Libras egipcias são quase dois euros e dá para 15 refeições de Kushari. Acima de tudo, não se deve desdenhar esta cultura. Eles são o que são, e nós é que temos de nos adaptar. levam a vida com uma leveza única. Menos preocupada e menos dolorosa. Eles vivem bem, e felizes. Cláudia Rocha Gonçalves […]

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