Desta vez as palavras não são minhas, são citadas do Público e dizem tudo, a começar pelo título:
Portugal, século XXI: há escravos levados das Beiras para Espanha
Os novos “negreiros” são famílias que encaminham indigentes para explorações agrícolas espanholas. Dormem acorrentados, passam fome e não recebem.
“Dormiam em velhos colchões retirados do lixo, no chão, sendo presos pelos pulsos, por uma corrente de ferro e cadeado, todos aqueles que os arguidos António, Francisco e Maria suspeitassem que pretendiam fugir, sendo ainda o armazém fechado pelos mesmos arguidos, para que nenhum daqueles trabalhadores pudesse sair”.
No séc. XXI, perante situações que permanecem e se arrastam no tempo, perante o desaparecimento físico de pessoas pouco habilitadas a viajar, perante a repetição de cenários e a indiferença de vizinhos, empregadores e autoridades, a indigência é apenas dos indigentes?






Esta sociedade sem valores é simplesmente uma extensão do modelo económico pratricado. Quando o interesse próprio prevaleçe, quando o hedonismo é radical, quando as pessoas são completamente alienadas de corpo e mente, ao ponto de não quererem saber se os seus avós morrem em casa sozinhos, não é de esperar que haja intervenção de quem quer que seja, em assuntos que “não lhe dizem respeito”. Nós vivemos num ambiente neo-darwinista em que quem joga melhor o jogo sobrevive. As pessoas têm de se adaptar ao sistema vigente.
O que me leva a concluir que, a culpa não é das pessoas, mas da influência que o sistema nelas exerce. Sim, falo de uma mudança socioeconómica, mas não dos moldes a que estamos habituados. Todos esse modelos sociais comunistas, anarquistas, capitalistas, são filosofias de séculos em que não se tinham os conhecimentos sobre o ser humano, e sobre o mundo natural que hoje temos. Um emaranhado de projeções.
Fica aqui o mote, e apenas para causar alguma reflexão, acerca da origem do problema. Pessoa ou sistema? Pessoa e sistema? Quem sabe. Talvez seja a descoberta que precisamos fazer.