Nota 10?

Ocasionalmente aparecem umas virgens ofendidas quando rebenta um escândalo como o dos futuros magistrados, presentemente cábulas. Não se ofendam. Há anos que o país forma pessoas preguiçosas, falsas e incompetentes. Reparem como é tão fácil chegar a primeiro-ministro: o curso é um acessório, basta adquirir um cartão de partido e militar alguns anos, decorando chavões e frases feitas. Convém ter bom aspecto, mas o que conta são os amigos.

Ao longo desta III República foram colocados jotinhas, boys e toda uma plêiade de indivíduos medíocres em cargos intermédios e de topo, não pelo mérito curricular, mas apenas por terem um cartão partidário ou serem amigos, filhos, sobrinhos, netos, primos ou enteados de políticos. A função pública, do Presidente da República aos varredores de rua, está inçada de autênticos degenerados. Basta visitar as repartições de uma Câmara Municipal, dos técnicos superiores aos administrativos, tudo tem aquela aparência entre o indolente e o arrogante mas, se rasparmos um pouco o verniz, o nosso interlocutor é uma profunda nulidade, desconhecedor dos fundamentos para aquilo que trabalha, vivendo os dias como um vegetal.

Mas não duvidem que a questão do “copianço” dos futuros magistrados é um escândalo. Num país menos habituado aos compadrios isto seria motivo para despedimentos e sanções. Sobretudo para aqueles que desculpabilizaram o acto e ainda o premiaram com a nota 10. Por cá relativiza-se tudo. Por cá, a CUNHA, esse velho recurso social, é visto, por todos, como normal. Quem, como eu, várias vezes concorreu a lugares públicos, sabe a farsa que está por detrás das escolhas. Ainda há dias, num concurso para um lugar na Câmara Municipal da Maia, houve exclusões por falta de assinatura do curriculum vitae… Mas o CV é último documento que interessa numa candidatura, se o telefonema, o “toque” já não tiver sido dado. Informaram-me recentemente que existe um sistema hierárquico de “cunhas”, em que a palavra do presidente da câmara é a mais forte. Seguem-se as dos vereadores, técnicos, etc. Abençoada sociedade que assim se organiza!

Todos os dias aparecem listas de soluções para salvar Portugal da bancarrota: privatizações, alienação de património, subida de impostos, etc. Porém, a maioria dos politógos e analistas, esquece-se da fórmula que seria, quanto a mim verdadeiramente milagrosa: sanear o nepotismo, eliminar progressivamente o clientelismo partidário, privilegiar o mérito, avaliar e punir. O progresso do país depende dos seus recursos humanos e se um departamento, uma empresa pública é entregue nas mãos de um indivíduo cujo atributo único é ser aparentado a alguém importante, podemos avaliar da sua competência e do destino daquela empresa. E estamos a ser geridos, ensinados e julgados por pessoas incompetentes há dezenas de anos.

Sanear o nepotismo e eliminar o clientelismo pode ser impossível, mas enfraquecê-lo e controlá-lo não. O primeiro passo é enfraquecer os principais partidos e PSD e este deve ser dado pelos próprios eleitores. Menos votos significam menos liberdade para distribuir benesses, mais dependência da acção de outros partidos. Depois, aumentar o número de concursos públicos para acesso a cargos médios de gestão (os verdadeiros tiranetes do municipalismo e do empreendedorismo governamental são estes cães-de-fila) e, se não impedir, pelo menos limitar o acesso a cargos públicos a pessoas com filiação partidária, poderiam constituir elementos dissuasores para os carreiristas políticos. O “doutor” para jotas e políticos é um mero substantivo, adereço simbólico naquela a que constituirá a sua verdadeira profissão: político. Uns ficam pelo caminho, nas Câmaras empresas municipais, etc, outros prosseguem até à Assembleia da República que é tudo menos um conjunto de cidadãos cultos, informados sobre o estado do país ou sequer dos círculos que representam, mas antes um vasto auditório de especialistas em manobras políticas. A res publica é a última coisa a defender ali. Em primeiro lugar estão os interesses partidários.

Ora defendê-los exige lealdade, redes informais de clientelismo, e isso exige entregar o Estado nas mãos de amigos. É uma fórmula antiga e, não sendo invenção portuguesa, constitui há séculos uma forma de preservar ou aumentar o poder pessoal ou dos grupos partidários. Afonso Costa, por exemplo, não hesitou em dividir para reinar, entregando cargos de topo a familiares e amigos mais próximos.

Avaliar é absolutamente necessário. Alguém que se recusa ser avaliado, ou tem medo da sua ignorância, ou recusa ser competitivo. Porém, as avaliações não podem constituir uma arma, ou um método de vigilância. Não devem ser executados por pares, nem com base em pressupostos quantitativos. A avaliação deve privilegiar a “ideia” e factores ou objectivos devidamente traçados para a função a exercer. Por isso não posso concordar com a simples progressão etária, como se o envelhecimento fosse o único factor para subir de posto. Há pessoas que vegetam anos e anos numa função, sem mostrar trabalho ou iniciativa, roubando assim um lugar a quem o merece pelo esforço

E não duvidem que a “cunha”, esta insidiosa forma de corrupção, é a principal causa do estado do Estado, e os responsáveis são os dois grandes partidos “devoristas”, PS e PSD que desde a década de 70 repartem entre si o produto do saque.

Comments

  1. Pedro V. says:

    Esta é daquelas poucas vezes em que consigo concordar com o que dizes e com a forma com que o dizes, estou quase 100% de acordo contigo, exepto no remédio democrático. É que sendo a sociedade (ainda e nos tempos vindouros continuará a ser) um corpo sem consciência, não existe forma de dotar a democracia de consciência também.. nunca terás um sentido de voto suficientemente distribuído porque as pessoas só discutem a política de véspera às eleições e com o círculo que se apresenta ou no comboio ou no cabeleireiro.
    E talvez o descontentamento o justifique, mas quanto mais se alhearem menos escrutinam os que estão na manjedoura.

  2. Miguel says:

    Grande texto.

    Apoiado.

  3. Nonio says:

    De facto, é lamentável toda esta situação. Todos os que tivessem sido apanhados a copiar deveriam ter que repetir o exame da cadeira, até porque quem não copiou ficou eventualmente prejudicado com a solução encontrada.

    Todavia, também é curioso verificar que neste país em que todos se indignam com esta situação, no caso do nosso ex 1º Ministro ( que tirou o curso por Fax a um Domingo ), a atitude de muitos já não tivesse sido a mesma e sem duvida que esta ultima situação éra bem mais grave . Ou não ?


  4. esqueceu-se contudo de outra grande injustiça, perpetrada pelos que administram a justiça: terá havido certamente quem não copiou e esses, também, foram considerados como tendo copiado. ou à moralidade, ou comem todos, como dizia o outro.

  5. Orlando says:

    Bom texto, tens toda a razão, não poderia estar de acordo.

  6. Rodrigo Costa says:

    Caro Nuno Resende,

    O problema começa, exactamente, por um juiz ser mais importante do que um primeiro-ministro.
    Um primeiro-ministro não ter carácter, é o menos; já não é o mesmo, quando alguém, com carácter supostamente exigido para a acção de analisar e proferir sentenças, demonstra falta desse elemento fundamental, porque deixa de lhe assistir a legitimidade para condenar toda a xico-espertice que lhe poderá aparecer em tribunal.

    Aliás, como se pode ver —e não é a primeira vez— pode-se passar sem primeiro-ministro, até sem governo, mas não se pode passar sem funcionamento da justiça e sem o exercício dos juizes —aos quais se exige carácter, porque terá, pela frente, a vida de muitas pessoas, com cometimentos que devem ser analisados com isenção e sem rabos-de-palha.

    Repito o que já disse, notro comentário: num momentos em que as sociedades têm que ver reformulado o caderno de princípios, são as pessoas do topo da pirâmide que têm que dar o exemplo. Quem não estiver preparado, continue a copiar… mas dê a vaga.

    Nota: Presidentes da repíublica, primeiros-ministros, serão, para im, sempre menos importantes do que os juizes, porque é nas mãos destes que está a vida de todos os dias.

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