Agricultura e tempo – parte III

camélia

O movimento do Século XIX vincula-se à esquerda obreira, aos republicanos e ao partido socialista e aparece com as teses de Marx e Engels. As suas reivindicações fundamentais eram: abolição dos foros e das rendas forais, com a reclamação de ter acesso pleno à propriedade das terras que cultivavam, lutar contra o caciquismo que impedia a livre vontade de semear o que melhor podia parecer ao trabalhador. Não eram sempre batatas, milho, trigo, que se vendiam bem por causa do consumo das novas colónias da Espanha que nada sabiam de cultivo. A batata foi trazida desde as novas terras e vendia bem por toda a Europa: A batata contém uma elevada percentagem de água. É uma boa fonte de amido (hidrato de carbono complexo), mas também de alguns minerais como o potássio. O seu teor em proteínas, fibras e vitaminas é escasso. Destacam-se as vitaminas C e B6, que existem sobretudo na pele do tubérculo. No entanto, nas batatas descascadas e nas que são submetidas a processos de cocção, este

teor vitamínico vê-se substancialmente reduzido. Embora o teor calórico da batata não seja muito elevado, este pode triplicar em processos como a fritura, uma vez que o tubérculo absorve grande parte da gordura usada no método culinário. Este tubérculo foi a causa de debates, rixas, corridas ao mercado para vender antes que outros e assim lucrar com imensa mais-valia, essa dor causada aos pequenos agricultores que não tinham espaço suficiente para semear mais, apenas para consumirem casa. Dasminhas lembranças retiradas das investigações que fiz e que não consigo esquecer é a ideia do cansativo que era comer sempre esse tubérculo, especialmente frito, a delícia dos meus analisados, especialmente a famosa omeleta denominado tortilha espanhola, o prato quotidiano na vida real: a batata frita era uma delícia, especialmente se a ela era acrescentado fiambre, presunto, chouriço; e o azeite na batata, aumentava as calorias. Entre batatas, milho e trigo, a luta estava estabelecida, motivo que levara as pessoas a apropriarem-se de terras para cultivo destas plantas, sempre muito bem vendidas, especialmente para aqueles que orientavam a sua vida para morar em espaços urbanos.

Parece pouco credível que a corrida para as vendas destas plantas tivesse separado os habitantes de uma mesma nação: o que queriam terra. Os que não podiam comprar, a reforma da agricultura, retirando da posse da aristocracia proprietária imensas terras. A aristocracia fugiu pelo medo, o Rei também. A família Borbón Orleáns solicitou asilo no país vizinho, Portugal. Na Espanha, a República nasceu, mas teve um breve tempo de vida, até  o levantamento das forças armadas em 1939  nas Ilhas Canárias, passando ao Continente e matando republicanos, jornaleiros socialistas, operários republicanos, destruindo cidades, tudo por causa dum capitãozinho que queria ver o Rei novamente no seu trono, os Duques de Alba recuperarem os milhares de hactares, os Condes de Lemos, tios do eu amigo Hermínio, voltarem a ser proprietários. Mas este pequno oficial matou imensa gente, uma traição à sua terra da Coruña – a vila do Ferrol, que passou a ser designada como Ferrol do Caudilho, porque era isso o que ele sentia, este traidor, ser o caudilho dos espanhóis. A maior parte teve que fugir por falta de palavra do ditador: não entregou o poder à monarquia, repartiu as terras entre os seus soldados e cativou ao neto de Alfonso XIII, filho dos Condes de Barcelona, Juan e Mercedes, aos que correspondia ser monarcas de Espanha pela linha de sucessão. Todo, por um punhado de batatas, feijões, milho, trigo, confiscados pelo ditardocilho para encher os cifres do Estado e os seus próprios. Foi a guerra civil espanhola, que bem conheço por serem os meus ancestrais monárquicos, falangistas e da corta da Monarquia. Foi assim também que, ao visitar Espanha pela primeira vez, tive que tornar a Grã-Bretanha a correr: a guarda civil queria aprisionar-me. Mas, é outra história. O que interessa dizer é como por causa da posse das plantas mencionadas, uma sangrenta guerra civil acontecera no Estado Espanhol. Pablo Neruda, dentro da guerra civil, como é natural, com outro escritor do Nobel Earnest Hemingway conseguiram resgatar mais de dois mil espanhóis, por ordem do Presidente do Chile, o Radical Pedro Aguirre Cerda. O resto da história, de como foram recebidos os cidadãos, especialmente agricultores, fica para outra parte do texto. Apenas dizer que a nossa senhora mãe, falangista, monárquica, da Corte da Rainha de Espanha, causou uma tremenda confusão: de um lado estavam os republicanos e a sua bandeira, de outro, os monárquicos, liderados por esta Dama, a nossa mãe…A vida mudara muito depois, connosco socialistas materialistas históricos, sendo assim que no Chile acontecera como na Espanha do dito caudilho, quem, para a minha felicidade, falecera quando eu estava a pesquisar na Galiza…A festa foi imensa!

Como era habitual as Quintas-feiras, descia desde a nossa Paróquia de Vilatuxe, sítio Carretera, e proferia uma aula, toda em bom luso galaico, que os meus vizinhos me aprenderam. Tinha que traduzir para os galegos. Até a morte do ditador, esse 25 de Novembro de 1975, toda língua que não fosse Espanhol, que eu denomino Castelhano, estava proibida. Os jovens estudantes não percebiam, especialmente porque era um luso-galaico de aldeia. Os que vinham de outras Paróquias, como o hoje Doutor e Catedrático, Ceferino Díaz, grande amigo de quem sempre me lembro, estava orgulhoso do meu galego, como Xosé Manuel Beiras, Catedrático de Economia e Deputado da Assembleia Galega, que até chegou a presidir, esse o meu amigo quase família, que aprendeu comigo como se entendia a agricultura, ao me acompanhar à nossa. Bem como, para fazer da ruralidade um pensamento comum, solicitei licença aos meus vizinhos das várias aldeias e levei por duas semanas, a 15 estudantes, para saberem o que era a agricultura. Moravam nas casas aldeãs e trabalhavam da manhã à noite, como eu, na agricultura. Foi assim que se expandiu uma forma de ensino de História, Geografia, Antropologia e Etnografia: desde esses anos, não há quem não tencione estudar aldeias e formas de trabalho rurais. Os meninos betinhos da Universidade de Compostela, passaram a ser trabalhadores agrícolas nas suas férias, após reparar que a vida rural era um sacrifício imenso, quer pelos calores do verão, trabalhando ao sol, quer por semear desde as seis da manhã até as 11, havia um parar por causa do calor ou do frio, que permitia apenas retomar o trabalho agrícola as cinco da tarde, como escreveu o grande poeta granadino, Garcia Lorca, o primeiro intelectual a ser assassinado pelo ditador, de forma selvagem. Federico Garcia Lorca era proprietário e poeta, mas também trabalhava com o povo em labores agrícolas, tarefas que o inspiravam, como ao seu amigo Manuel de Falla, o compositor da melhor música espanhola, como Enrique Granados y sus Goyescas. Eram denominados os dois de sempre: entre o Paço de La Alhambray a casa dos artistas, era uma caminhada que ajudava a sentir e pensar. Os dois proprietários, eram republicanos e colaboravam no trabalho agrícola por amor à causa e porque nascia-lhes da alma.  Foi por influência de Pedrell que de Falla tornou-se interessado na música espanhola, particularmente no flamenco andaluz (em especial o cante jonde), que se mostraria marcante em muitas de suas composições. Dentre as obras iniciais há algumas zarzuelas, mas a primeira grande composição foi a ópera em um ato La Vida Breve, escrita em 1905, embora revisada antes da estréia em 1913.

De Falla tentou em vão impedir o assassinato de seu amigo Frederico García Lorca em 1936. Após a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, de Falla emigrou para Argentina, onde viria a morrer. Em 1947, seus restos mortais foram levados para a Espanha e depositados na catedral de Cádis. Uma das homenagens à sua memória é a Cátedra de Música Manuel de Falla na Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade Complutense de Madri. Por amor a causa, um foi morto, e de Falla teve que se exilar em Argentina, onde faleceu em 1946. Foi assim que os intelectuais argentinos aprenderam que trabalhar no campo, era bom para o corpo e a saúde e foi inaugurada uma nova forma de compor, tipo Chopin, que escrevia, dava recitais, mas morava na ruralidade com a escritora George Sands, produzindo o seu próprio alimentos, casal e filhos crescidos.

A ruralidade é o melhor poema que tem passado pela minha vida, combinando trabalho nas belgas de dois continentes, com vida académica e esse amor à escrita.

Tornando às causas do porque a vida agrícola ser parte de uma guerra, reitero que as reivindicações fundamentais procuradas, eram a abolição dos foros e das rendas forais, bem como aceder a propriedade plena das terras que cultivavam; bem como lutando intensamente contra o caciquismo.

O movimento ante enfiteuta, promovia também o começo de novos cultivos para melhorar a produção e de batatas e milho, passou-se também a cria de gado, ate fechar todo outro ripo de trabalho agrícola, trabalhando apenas nas ervas para alimentar vacas de estirpe, comprada pelos membros da cooperativa do leite desde a Dinamarca. Tenho referido em outros textos, que, estudar Vilatuxe 24 anos depois, encontrei uma freguesia fechada em tratar apenas de vacas e ervas. Esse trabalho com a Nestlé, que explicara latamente nos meus textos de 1980 da Cambridge University Press e no de 1988 da Xunta de Galiza, ao reparar nas mudanças, escrevi mais dois livros sobre agricultura e educação, em 1998 e em 2000, ut supra. O movimento ante enfiteuta, defendia também as pensões, que antes não existiam: não havia Caixa de Aforros nem Segurança Social, criadas pela República, nas que o ditador no se atrevia a meter as suas mãos

Em 1907 assumira um carácter campesino nacionalista galego, com Solidaridad Gallega en una amplia aliança que inclui grupos de direitas e esquerdas e abate o republicanismo/socialismo inicial.

Em geral, os foros no foram abolidos sem indemnização aos foreros (rentistas) bem como no foram pagos o resgatados mediante o pagamento de dinheiro que procedia da emigração.

O tempo não passou em vão dentro da vida rural. Começou por ser um conjunto de jornaleiros para trabalhar para grandes proprietários, trabalham o dia todo, não tinham casas onde dormir, pelo que repousavam e dormiam nos palheiros das casas patronais. A quantidade de crianças que nasceram sem se saber qual de todos os que tinham penetrados mulheres e raparigas, era o pai. Desde essa forma peculiar e humilhante de viver até o que tenho analisado para o Século XXI, de certeza permite entender a passagem da agricultura improvisada, para a ruralidade com pensamento, combates, lutas, e chegar até o ponto que tenho debatido finalmente nestas linhas.

Referencias:

José Antonio Duran: Agrarismo y movilización campesina en el país gallego( 1875-1912)  Madrid: Siglo XXI, 1977

Ramon Villares: La propiedad de la tierra en Galicia  Madrid: Siglo XXI, 1982

Os meus textos estão citados dentro deste ensaio

Raúl Iturra

lautaro@netcabo.pt

 

 

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