A Festa dos Tabuleiros em Tomar. 1 – As Origens

A Festa dos Tabuleiros realiza-se de 4 em 4 anos em Tomar e é responsável pela ida de milhares e milhares de pessoas a Tomar, uma das mais belas cidades portuguesas. A edição de 2011, que se prolonga até ao dia 9 de Julho, aí está.
Trata-se de um evento com tradições imemoriais no concelho, que  influenciou largamente as festas do Espírito Santo nos Açores, os impérios de Alcanena, a festa do Penedo e até o Santíssimo Sacramento da Batalha.

Graças à Festa dos Tabuleiros, Tomar fez parte, desde o início – 1996, das «Fêtes du Soleil», projecto euromediterrânico da Comissão Europeia, que tem como objectivo sistematizar a informação relativa às mais importantes festas realizadas no Mediterrâneo e dá-las a conhecer ao grande público de todo o «velho continente». É candidata, por esta via, a Património Cultural da Humanidade.

A Festa dos Tabuleiros parece ter como origem mais profunda as antigas Saturnalias e Ceriales, festas dedicadas aos deuses Ceres (deusa dos frutos da terra), Flora (deusa das flores) e Saturno (deus das sementes e da cultura). Rituais pagãos, estes ou outros, que a cidade romana de Sellium (actual Tomar) recebia com grande prazer, porque correspondiam a dias de folga da sua população.

Uma simbiose de religioso e de profano que teve origem medieval na festa de Santiago, que se realizava todos os anos de 1 a 8 de Agosto. Tinha todos os privilégios e normas de circulação que lhe haviam sido outorgadas por D. João I, aquando da criação da feira franca que lhe esteve na origem.

Derivou claramente do culto do Espírito Santo. Este culto é muito antigo e chega a Tomar pela mão dos Templários, que o referem logo no prólogo da regra primitiva da sua Ordem (1128). A sua instituição oficial foi feita pela Rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, com o começo das festas e, ao mesmo tempo, com a fundação das confrarias. A partir daí, a devoção do povo não parou de crescer por todo o país e até, através da emigração, por outros continentes. A coroa de prata do Império da Asseiceira, de 1544, é o mais antigo testemunho no concelho de Tomar.

Uma primeira fase da história desta festa decorreu até ao século XVI. Um segundo momento ocorreu entre o século XVI e o século XX. Nesta fase, as suas principais características são já semelhantes às que se verificam hoje. Em finais do século XIX, realizava-se todos os anos, mas a irregularidade marcava o tom.

No século XIX, passou a chamar-se Festa do Espírito Santo, antes da actual denominação de Festa dos Tabuleiros. Aliás, nesta altura, a par da festa das raparigas, existia a tradição do Espírito Santo dos Rapazes, que consistia num desfile de pequenos tabuleiros, missa e arraial.

Virgínia de Castro e Almeida, escritora, filha dos 1os Condes de Nova Goa, descreveu as Festas dos Tabuleiros na obra literária «Terra Bendita», tal qual as viu nos inícios do século XX: «Os passeios estavam negros do povo. O povo tão vistoso do Ribatejo, com os seus homens de carapuços verdes, vermelhos ou pretos orlados de cores claras, de cintas azuis ou encarnadas, de jalecas ao ombro deixando à mostra a brancura crua das mangas das camisas; os lenços sarapintados das mulheres de chailes no braço e vestidos de chitoas garridas… Todo aquele aspecto festivo, tão especial, que parece nascer do sol, do calor, do próprio ar luminoso que se respira.

– Olha! Olha! … – gritava o António muito excitado, debruçando-se todo pela janela fora. (…)

– E a Rosáio? Olha… olha a Rosário, ali, com a fita verde!… – exclamava a Beatriz.

E os pequenos acenavam com os lenços.

Mas as raparigas não davam sinal de os ver. Hirtas, com o dorso imóvel por cima do balanceamento cadenciado das ancas, os músculos do pescoço retesados no esforço de aguentar à cabeça o enorme peso dos tabuleiros, vermelhas de calor, com a testa cheia de bagas de suor, iam andando devagarinho, presumidas dos seus vestidos brancos, das suas faixas vistosas, dos seus tabuleiros tão grandes e tão enfeitados, e dos irmãos ou namorados que as acompanhavam. (…)

– Sr. Viellard… – disse a voz grave do Álvaro por trás dos pequenos – quer uma festa mais pagã?

O sr. Viellard virou-se para ele, tirou as lunetas que limpou cuidadosamente ao seu lenço de cambraia.

– Eu lhe digo… mas a ideia é cristã, o mais cristã possível.»

Comments


  1. Apenas uma correcção, a Festa termina a 10 de Julho.

    cumprimentos


  2. Até eu me enganei. Termina a 11 de Julho, dia da distribuição da Peza.
    Dia 10 será o dia do Grande Cortejo.

  3. karin luz says:

    MAIS UMA FESTA PAGÃ QUE A IGREJA SEQUESTROU!

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