Amy Winehouse: durou pouco mas foi bom

Amy Winehouse, 1983 – 2011, RIP

Terrorismo ataca nos jornais

Esta manhã ainda não tinha visto a manchete do I. É uma obra-prima do terrorismo jornalístico nacional:

Como quem semeia colhe frutos, é passar os olhos pelas caixas de comentários, por exemplo do Público. Debaixo de um título ao nível desta manchete, versão aspas:

Suspeito detido é um “fundamentalista cristão”

(encontrem-me no mesmo jornal fundamentalismo islâmico escrito com as mesmas aspas, sff) nascem teorias fantásticas, ao pé das quais a ressurreição de Lázaro é uma brincadeira de putos. Vejam esta:

pode um muçulmano invocar, de um modo legítimo e ortodoxo, a sua fé para cometer actos de terrorismo? Sim, pode!: os seus textos religiosos estão cheios de apelos ao “dar a morte” a quem não segue a sua fé… Pode um cristão invocar, de um modo legítimo e ortodoxo, a sua fé para cometer actos de terrorismo? Não, não pode!: nada nos textos cristãos o permite… Mais: este acto foi justificado por este bárbaro como tendo a base na sua crença? não! são os actos cometidos por terroristas islâmicos justificados pela sua fé? Sim. Donde a questão é: porque é que, por exemplo no Público, se omite aquela e se refere esta?

Pode sempre invocar-se a ignorância, sendo a religião coisa da fé contra a razão não podem saber que o cristianismo é historicamente muito mais terrorista que o islamismo. Aliás é escusado explicar-lhes: não acreditam. Guerras santas, inquisição, ou coisas bem mais próximas de nós como a invocação do catolicismo para defender o império colonial, é escusado explicá-lo a fundamentalistas: a fé cega, ensurdece e provoca a emissão sistemática de disparates. Esperemos que fiquem por aqui. Quando em Portugal também pegarem em explosivos e espingardas a coisa ficará muito mais complicada.

A verdade é uma coisa que não lhes assiste

O novo director do I, António Ribeiro Ferreira, esse grande admirador da arguida Maria de Lurdes Rodrigues, já meteu uma das suas marcas pessoais no jornal: o ódio ao funcionário público.

Serventes seleccionadas para o efeito, Katia Catulo e Liliana Valente têm feito um bom esforço. Primeiro aldrabaram os vencimentos, pegando numa amostra não aleatória e comparando com o salário médio nacional do privado,* sem terem em conta funções e habilitações, por exemplo. Se fossem honestas, googlavam o assunto, e descobriam como Eugénio Rosa já demonstrou o óbvio:

Não podemos separar os salários das qualificações. E o nível de escolaridade da administração pública é muito superior. O salário médio tem de ser superior porque a percentagem de trabalhadores com o ensino superior é cinco vezes superior ao do privado.

isto referindo-se a um “estudo” do Banco de Portugal em tempos de socretismo plantado por Constâncio nos jornais, mas onde até se reconhecia “que se a análise fosse feita por categorias se verificaria uma penalização salarial dos trabalhadores da administração pública.”

Hoje foram ao absentismo, usando a mesma “amostra”. Imaginação não falta na cabecinha das duas serviçais: os trabalhadores da função pública faltam 18 dias por ano, o que começa por incluir as licenças de maternidade e paternidade, suponho que no privado já ninguém faz filhos, e como o delírio não tem limites contabiliza-se alguém que teve 365 faltas injustificadas num ano, espero que tenha sido num bissexto.  Contabilizam igualmente baixas por doença prolongada, de quem aguarda uma reforma por doença (é normal morrer-se antes, mas espero que a ausência ao serviço em virtude de se ter falecido não tenha sido usada para chegar aos tais 18 dias). Pormenor curioso: desta vez omite-se a comparação com o sector privado. Porque será?

No fundo, tendo em conta o panorama do I, com ameaças de despedimentos e reduções salariais, temos de ter alguma compreensão pela esforço das senhoras. Só espero que não sejam obrigadas a passar às escutas para não perderem o emprego.

*Curioso: as serviçais usam um número, 884, que é superior ao do INE para público e privado, 813 euros. Ou seja: a média dos salários no privado seria assim superior à média de todos os salários. Deve haver aqui qualquer coisa que me escapa.

Anders Behring Breivik não é um terrorista, é um cristão

Anders Behring Breivik não é muçulmano, não é de esquerda, mas assassinou 91 compatriotas. Temos agora um complexo problema de linguagem atormentando as redacções.

No Público uma alma benzeu-se e conseguiu utilizar a palavra:

Este é o mais grave atentado terrorista na Europa desde que 52 pessoas perderam a vida em Londres em 2005, num ataque levado a cabo por terroristas islâmicos.

Bom esforço: escreve-se terrorista, mas enfia-se islâmico no mesmo parágrafo. No Expresso procuro, e não encontro: atentado, vá lá. Nas primeiras horas ainda se vendeu o peixe do “grupo islâmico”. Ninguém comprou.

Anders Behring Breivik é um filhodaputa de um cristão fundamentalista, com a mania das armas e politicamente de direita. Mas os terroristas só podem existir no outro lado da guerra santa.

Para quem vê o mundo a preto e branco é assim. O perigo vem sempre de Meca, agora que já não vem de Moscovo. São sempre os outros. 91 humanos foram vítimas de “um atentado”.  Nos próximo dias vão convencer-nos  que foi cometido por um “tresloucado”, o que não deixa de ser verdade mas também se aplica aos outros.

Aquilo que está entre o preto o o branco não existe, existe a comunicação social que o apaga, apagando-nos a massa cinzenta.

Cresci a ouvir todos os dias a palavra terrorista associada sempre aos movimentos de libertação. O nosso exército era santo, Wiriamu nunca existiu. Estou habituado.

Barcelos Tem Uma Frente de Rio!

Que tem vindo a ser desenterrada, e fazem lá umas festas

 

O não casamento como estratégia de reprodução numa aldeia portuguesa (1862-1983)

ninho vazio         Quando em 1971-1973 levei a cabo a minha pesquisa entre o campesinato do Vale do Chile apercebi-me que, apesar das crenças, valores e regras legais, religiosas e políticas, os casais, na ausência de um padre ou de um registo civil, – o que aconteceu com frequência nos grandes latifúndios chilenos – simplesmente juntavam-se quando surgia a necessidade de dividir a casa. Mais tarde, na Galiza, entre 1975 e 1978, observei que, tanto para esse período como para o passado histórico até ao século XVIII, o casamento verificava-se normalmente entre pessoas da mesma condição, baseando-se em negociações em torno da herança, sendo portanto, e uma vez que o património varia através dos tempos tanto nos conteúdos como nas possibilidades económicas, uma instituição historicamente mutável. Apercebi-me de uma série de possibilidades que se haviam desenvolvido para o casamento na Galiza, tais como o casamento combinado pelos pais do principal herdeiro, ou combinado pelos próprios, enquanto herdeiros residuais (Iturra, 1978 e 1980), os quais, uma vez mais, têm uma importância variável, dependendo dos conteúdos patrimoniais das transações matrimoniais. [Read more…]

Do Pecado

Bosch.

Hieronymus Bosch. H.á um livro de uma jornalista espanhola, a casa dos sete pecados, um romance histórico sobre o pecado, desejo, morte, traição. Bosch aparece por razões evidentes. Segundo o protagonista, Felipe II, “Ninguém melhor que ele sabe plasmar numa imagem a verdadeira essência da redenção dos homens”. Eu diria mais. Ninguém melhor que ele sabe plasmar a verdadeira decadência humana. Não se enganem, os quadros de Bosch têm pouco a ver com o Renascentismo. São quadros da Idade Média combinados com as novas técnicas do Renascimento.

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