Os entretenimentos 7 Maravilhas de qualquer coisa chegaram ao prato e colocaram a minha região no topo, o que deve explicar alguma gordura que um tipo magro como já foi vai acumulando. Na secção carnes concorre o Leitão à Bairrada (o que dava uma conversa com pano para muitos aventais de cozinha) com a dobrada tripeira, e, milagre, o maior invento da nossa comidinha: a Chanfana.
Esqueçam a lenda das invasões napoleónicas, deixem sobretudo a ideia de que cabra não se come, observa-se. A Chanfana, usando o vinho, engenho e paciência, faz de uma carne pouco apetecível algo de chorar por mais. Muitos odiadores da simples ideia de se cruzarem com o simpático animal no prato já vi rendidos. Deixo-vos a receita:
- 1,5 kg de carne de cabra
- 10 dentes de alho
- 150 gr toucinho fumado
- 2 colheres sopa de azeite
- 120 gr de banha de porco
- 1 ramo de salsa
- 1 folha de louro
- sal
- 0,5 l de vinho tinto
- 2 dl de água
Fundamental: um recipiente de barro preto, vulgo caçoilo. O barro ser preto é simbólico, claro. Nele se deita, de véspera, a cabra em pedaços, os dentes de alho lavados mas com casca, o toucinho fumado em nacos, a banha, o azeite, a salsa, o sal e o louro. Cobre-se com o vinho, que deve ser encorpado, tipo carrascão (o autêntico ainda deve existir em Almalaguês).
Na manhã seguinte acorda-se a carne colocando tudo no forno (de lenha é outra coisa) e vai-se usando a água de acordo com as necessidades. O tempo de assadura depende da idade do bicho, sendo que esta quanto mais velha for mais demora, e o palato mais tarde agradece.
Acompanha com batatas cozidas, que por sua vez podem estar entretidas com couves ou outros vegetais no momento da cozedura.
Não se come: aprecia-se o milagre da transformação da cabra em manjar, o que deve ser feito enquanto está bem quente.
Uns dias depois de cozinhada, a chanfana protegida pela gordura coagulada à superfície, ainda estará melhor, o que parece difícil, mas acontece.
Esta receita é a usada no concelho de Coimbra, freguesias de Ceira e Torres do Mondego, por exemplo, e não vou aqui discutir os preciosismos das variantes distritais. Fica aqui também em memória do Carlos Roma, grande mestre cozinheiro originário dos lados de Penacova, com quem a discuti, e que no ano passado foi responsável por uma longa jornada gastronómica do Aventar. Até sempre Carlos.
E já agora, votem.








SIMPLESMENTE DIVINAL…………………… E CLARO, NA HORA DO MANJAR, DEVE SER BEM REGADA…………………