Sobreviver ao acordo ortográfico nas escolas

As primeiras vítimas do acordo ortográfico iniciaram a penitência por estes dias. Tinha de sobrar para os professores, o Paulo Guinote foi dos primeiros a sofrer o choque das letras desaparecidas.

O assunto já fez correr muita tecla no Aventar (ler a categoria acordo ortográfico) e a seu tempo deixei o meu nim: se a língua portuguesa deve ser unificada tanto quanto possível, que o seja a sério, e adivinho no horizonte uma reforma ortográfica. Além disso o vocabulário nacional foi feito por quem fala a norma dos gabinetes, cortando consoantes mudas que não o são, tipos em delírio pensando que a malta diz fato por facto, quando é um facto que quem nos ensina a falar também são as letras e não as etimologias que só vivem na cabeça da erudição mais bacoca. Pessoal ao nível do génio que colocou este ano os professores obrigados à imposição de uma norma quando a maior parte dos manuais ainda está na outra.

Ora isto tudo é muito giro, mas na vida real a dialéctica gajo da esquerda revolucionária mas muito conservador numa data de coisas ameaça-me com psico-avarias potencialmente graves. Salvação? viva a tecnologia: existe uma ferramenta, gratuita, para os três sistemas operativos, onde se mete um ficheiro na norma antiga e sai um novo na norma em que agora sou obrigado a escrever profissionalmente. Tenho testado, funciona e recomenda-se. Descarrega-a, e evite escrever nas duas ortografias, o que convida ao erro e à dupla personalidade,  para isso já temos dialécticas que nos cheguem na vida (por acaso o c da dialéctica é dos tais que não estão lá a fazer nada, mas o hábito também faz a escrita, e a idade não perdoa).

Corrigido por indicação de quem sabe. Ia jurar que já li fato por facto, algures num jornal qualquer, mas pelos vistos sobrou um bocadinho de bom senso.

Comments


  1. A rendição é uma cena que a mim não me assiste.

  2. Judite says:
  3. David Mendonça says:

    No “Word 2010”: Ficheiro > Opções > Verificação > Modos de Português de Portugal > Pós-acordo.


  4. O momento em que verdadeiramente me rendi ao novo acordo ortográfico foi quando li um texto com aproximadamente 100 anos onde estava escrito “fructo”. Pensei: mas que raio de ideia, que está ali a fazer aquele c? E depois pensei mais: Pharmácia? Que absurdo me pareceu o ph. Cheguei à conclusão que um dia as pessoas vão achar absurdo o c que actualmente pomos em facto.

    É assim, as linguas evoluem. Podemos criticar se o acordo está ou não bem feito, mas criticar que a ortografia mude é querer passar um atestado de óbito a uma lingua.


    • O que escrevi sobre o acordo, http://aventar.eu/2010/01/04/acordo-ortografico-preparem-se-para-uma-reforma-ortografica/
      vem de ter lido milhares de páginas nas ortografias portuguesas. Os defensores do purismo ortográfico muito simplesmente ignoram a História da Ortografia portuguesa, para não lhes chamar outras coisas.
      Agora, daí a mudar a minha relação com a escrita, vai uma certa diferença. É um direito que me assiste, não por objecção de consciência, mas por consciência de que a norma é um acidente histórico, e a escrita um prazer que pratico desde 1965.


    • É evidente que passar a escrever numa nova ortografia é uma questão de hábito, mas isso não pode ser argumento suficiente para estabelecer ou não um novo acordo. Por absurdo, bastaria que se decidisse escrever lkebrve em vez de árvore para que as pessoas daqui a vinte ou trinta anos considerassem isso natural. Já agora, um pormenor: em “facto”, o c não vai desaparecer.
      A língua sempre evoluiu, independentemente dos acordos ortográficos. A relação que pode existir entre ortografia e pronúncia pode levar, no entanto, a que a supressão das chamadas consoantes mudas conduza a um maior fechamento das vogais, graças à analogia (se, no verbo espetar, o “e” é fechado, quem nos garante que não acontecerá o mesmo em espetadores, a nova grafia de de espectadores?).
      O principal problema é que este acordo cria, também, novos desacordos, para além de, na realidade, não permitir uma verdadeira unificação ortográfica, algo que nunca será impossível. É um acordo inútil e instituído à pressa, para que alguns fiquem na História. É pura vaidade e é mais uma prova da nossa desorganização.

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