O Acordo Ortográfico faz mal a quem?

Falta exatamente uma semana para este poste que aqui escrevi fazer um ano. Confesso que não fui sempre coerente com ele e, dada a incomodidade (não o escândalo, aversão, posição de princípio, etc.) de escrever algumas palavras segundo a nova grafia – incomodidade provocada por mero conservadorismo preguiçoso – fui, pouco a pouco, regressando à ortografia até agora vigente já que, purismo por purismo, recuar a outras formas anteriores do português se tornava ainda mais incómodo.

Não entro aqui em considerações de fonética vs. etimologia, mas dava-me um ataque nervoso escrever como nos séc XIII e XIV (passe o facto de alguns carateres e acentos terem sido atualizados):

Era esta dona muy fermosa e muy bem feita em todo o seu corpo, saluando que auia h~uu pee forcado, como pee de cabra. E viueram gram tempo e ouueram dous filhos.

Acho que também me faria muita comichão e desenvolveria algum eczema grave se tivesse de escrever como há apenas cento e cinquenta anos se fazia no Diário de Notícias:

…novidades politicas, scientificas, litterarias, commerciaes, industriaes (…) às allusões deshonestas (…) e ainda a nossa visinha Hespanha, publicações que teem atrahido consideravel numero de sympatias e subscriptores.

Tão pouco me apetece agora ir ao theatro ouvir phrases de um aucthor (o que aqui vai de consoantes seguidas) cujo estylo, rhetorica e assignatura me causam damno. Mas, damno por damno, antes no theatro do que na pharmácia.

E prompto, de facto, por caírem umas consoantes e uns acentos não cai a língua e quem a fala.

Comments


  1. A ortografia do Século XIX era bastante superior à actual, diga-se. Mas seja como for, preguiçoso ainda não perdeu o u.


  2. Faz mal aos olhos….


  3. E na altura de anteriores acordos, fizemo-los subordinados à ortografia brasileira?
    Por outro lado, não vejo os espanhóis ou os franceses preocupados em colar a forma escrita à forma oral das palavras. No francês muito haveria a desmontar já que muito raras vezes as palavras se lêem como se “deveriam” ler, numa correspondência milimétrica entre as letras e os seus sons originais.

    • A. Pedro says:

      Não há um francês ou castelhano escritos que sejam “metropolitanos” e outro francês ou castelhano escritos diversamente nas ex-colónias. No caso do português há divergência e deriva. Os portugueses são apenas 3,8% dos falantes da língua mas gostam, por questões aparentemente de tradição, de ficar orgulhosamente sós. Orgulhozinho bacoco, mas há que ter alguma coisinha de que se orgulhar…
      Já agora, talvez o Brasil, por ser mais novo, tenha sido mais lesto na adaptação fonética em vez do anquilosamento etimológico. De qualquer modo, a opção pela via fonética foi a escolhida, em Portugal, na Reforma Ortográfica de 1911, tal como, pasme-se, acontecera ao longo da Idade Média. Camões, por exemplo, adotou, no seu tempo, a escrita fonética.
      O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa publicado pela Academia Brasileira de Letras tem 390.000 vocábulos e o Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, tem 180.000.
      Tudo ninharias que não interessam nada, como se vê…


  4. O português tem a extraordinária capacidade de ter uma opinião sobre quase todos os assuntos, mesmo aqueles sobre os quais tem poucos conhecimentos ou informação pouco aprofundada.

    Apenas mais uma das muitas aberrações que este Acordo prevê:

    http://umjardimnodeserto.wordpress.com/2011/09/08/a-ultima-oportunidade-para-nao-vir-a-dar-em-doido-com-a-escrita/

    • A. Pedro says:

      É facultativo porque se escreve como se diz: facto em Portugal é facto, caro amigo, mas pode aprofundar a sua opinião em vez de se recorrer da de outros, pois nunca se sabe se são suficientemente aprofundadas e fundadas em conhecimentos. Já a informação aprofundada, depende da quantidade ou da qualidade?


      • É facultativo porque se escreve como se diz

        Não precisava de ser tão generoso com o ezemplo(!), caro amigo…

        O recurso à opinião de outros é um velho truque académico que se destina a suportar a opinião própria, especialmente se esses outros são gente com provas dadas quanto às suas amplas bagagem cultural e valia intelectual.

        Já a pergunta final sobre a “quantidade ou … qualidade”, devo confessar que não entendi. A questão premente agora é se Irá o meu caro amigo ter a caridade de a explicitar mais ou melhor?

        Um grande até amanhã é o que lhe desejo.


  5. É sempre agradável ler o Herculano na versão original, mas este acordo dá-me cabo dos nervos e de vez em quando lá sai asneira.

  6. Konigvs says:

    Ainda a discutirem o acordo ortográfico?
    Pior que a capacidade de se opinar sobre tudo, é a resistência à mudança!!
    O português não gosta nada de mudanças “oh pá que chatice estava tão habituadinho a fazer as coisas sempre da mesma maneira e agora vou ter de me lembrar de tirar as consoantes mudas? Então, mas, não estava bem como estava?”

    Dizem as estatísticas que os alemães preferiam ter o marco ao euro. Se formos perguntar aos portugueses eu fico na dúvida. Se por um lado o português é dado à nostalgia e a saudosismos – Salazar foi o maior português de sempre, lembram-se? – por outro, a resistência à mudança é assustadora!! Estou mesmo em crer que entre a sua moeda de sempre, o escudo, e terem agora de voltar a fazer as contas “demorei dez anos a entender-me com isto dos aeuros e vão mudar tudo outra vez?” estou em crer que os portugueses preferem não ter de mudar a pensar se a mudança vai, ou não, ser positiva!!

    Outra coisa que acho fantástica é andar por fóruns ou falar mesmo com pessoas que são contra o acordo, e depois vê-las escrever com palavras com k e x, e a cada três palavras ditas ou escritas usaram esse vocábulo “uotéber”!
    Ser defensor da língua portuguesa é ser contra esse fantasma do acordo “uiiii medo” – que só demorou vinte anos a ser posto na prática!! Mas defende-se ainda mais o acordo escrevendo com kapas, xizes, loles, e a cada frase conseguir meter umas quantas palavras em inglês.

    Naiçe!

  7. Konigvs says:

    Felizmente caro ze que há muitas opiniões, como o outro dizia o outro, são como as vaginas e cada um tem a sua!! Por outro lado, infelizmente diria eu, a grande generalidade dos portugueses come o que lhes dão e recusam-se a pensar pela sua própria cabeça.