Autarquias vivem à custa dos funcionários

Segundo notícia saída hoje em vários jornais e transcrita mais abaixo, a receita obtida com os cortes nos subsídios servirá para pagar as dívidas das câmaras, instituições que, como se sabe, têm dado um contributo sólido para o buraco financeiro em que o país caiu. Explicado de outra maneira: os funcionários das autarquias pagam do seu próprio bolso os gastos disparatados dos presidentes das câmaras.

Entretanto, o governo, com a coragem que se lhe conhece, recuou na intenção de baixar os limites de endividamento das câmaras, tendo declarado, ainda, que já tem uma solução para reduzir as dívidas anteriores. Cruzem as duas notícias e descubram qual é a solução.

Cortes nos subsídios pagam dívidas das autarquias

Os dois sindicatos dos trabalhadores da Administração Pública e da Administração Local (SINTAP e STAL) repudiaram ontem as declarações do secretário de Estado da Administração Local, Paulo Simões Júlio, de que os cortes nos subsídios servirão para pagar dívidas ou amortizar créditos das autarquias. “Essas verbas ficarão nas autarquias portuguesas no sentido de elas reduzirem, pelo menos nesse exacto montante, a dívida a fornecedores. No caso de não terem dívidas a fornecedores, [será para] fazerem amortizações extraordinárias em empréstimos de médio longo prazo”, disse à Lusa o governante, que explicou ainda que as autarquias que não tenham dívidas ou empréstimos poderão canalizar o dinheiro para investimentos. O SINTAP considerou “inadmissível que sejam os trabalhadores, que não têm controlo de gestão nem qualquer culpa dos erros” das administrações central, regional e local, a pagar “dívidas ou empréstimos contraídos, muitas vezes sem qualquer critério, pelos senhores presidentes de câmara”. Também o STAL repudiou o que classifica de “paternalismo” do Estado. “Os trabalhadores [das autarquias locais], que diariamente cumprem as suas funções de melhoria e funcionamento das nossas cidades, vão trabalhar para pagar as dívidas e para promover o investimento. Eu vou trabalhar, não para receber o meu salário e o que é de direito meu, mas para que o país funcione”, criticou o dirigente sindical. PÚBLICO/ Lusa

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Se não forem os funcionários das CM serei eu também a pagar oque desbaratam as CM e em Lisoa ??
    E na Madeira quem paga – EU ???
    E os ordenados de 35 mil euros/mês de Catarina Furtado da TV – quem paga – EU?

  2. Carlos says:

    Sem pôr de lado o que disseram os sindicatos, sobre o corte nos subsídios aos funcionários (públicos) das autarquias, ao afirmarem que é “inadmissível que sejam os trabalhadores, que não têm controlo de gestão nem qualquer culpa dos erros” das administrações central, regional e local, a pagar “dívidas ou empréstimos contraídos, muitas vezes sem qualquer critério, pelos senhores presidentes de câmara”, isto porque entendo que, muitos e muitos erros cometidos pelos nossos governantes, beneficiaram e beneficiam da cumplicidade de funcionários sem escrúpulos, como toda a gente sabe, queria perguntar-lhe, a si António Nabais, onde é que, na sua opinião, esses dinheiros seriam melhor aplicados.
    E, pergunte-lhe a si, porque estou convencido que, se o fizesse aos sindicatos, estes advogariam a distribuição daquelas massas pelos trabalhadores, com os consequentes descontos para aquelas organizações e, assim, manterem os seus empregos. E eu, isso, achava péssimo.
    Espero, então, uma palavra sua.
    Antecipadamente grato.

    • António Fernando Nabais says:

      Respondo-lhe com muito gosto.
      A participação de funcionários em actos de corrupção é, simplesmente, um caso de polícia.
      Os dinheiros de que fala foram retirados aos funcionários para pagar os erros que outros cometeram, a coberto da corrupção institucionalizada e impune, que nem chega a ser um caso de polícia, uma vez que é feita com a cumplicidade de vários poderes, desde o legislativo ao executivo. Logo, os dinheiros de que fala não deveriam ser aplicados em lado nenhum e deviam ser distribuídos por aqueles que, legitimamente, trabalham para o ganhar.
      Se quiser podemos combinar uma coisa, Carlos: mande-me uma autorização para debitar na sua conta todas as despesas que eu fizer para favorecer os meus amigos e algumas para me favorecer a mim. Depois, faça de conta que me chamo Estado e que o Carlos se chama Funcionário Público. Se isso o satisfizer, fico contente.

      • Carlos says:

        Desculpe, mas a sua resposta é simplória de mais.
        A participação de funcionários em actos de corrupção cai, antes do mais, na alçada da entidade patronal.
        Claro que também podem ser casos de polícia, muitas vezes com “direito” a cadeia e tudo.
        Portanto, é legítimo perguntar: o pessoal dirigente da administração pública, quando conhecedor de acto corruptos, praticados pelos seus colaboradores, tomam, sempre, as medidas necessárias para os castigar?
        Como sabe, a resposta é muito negativa, sendo raríssimos os funcionários públicos despedidos por actos de corrupção, tendo como causa actos de corrupção comprovados. Mesmo quando esses acto são gravosos e praticados reiteradamente.
        Portanto os dinheiros que nos vão ser retirados (eu também sou atingido), são-no porque foram cometidas muitas asneiras pelos poderes públicos, frequentemente com a conivência de muitos funcionários, sobretudo dos que ocupam os lugares mais destacados.
        É por isso que eu não aceito que apareçam, agora, alguns desses funcionários públicos, sem escrúpulos, a armarem-se em vítimas.
        Julgo que não será o seu caso e que não vai enfiar a carapuça.

        • António Fernando Nabais says:

          Entre ser simplório e simplista não sei o que será preferível.
          Um funcionário público que desvie uma resma de papel ou que olhe para o outro lado quando um superior leva duas resmas é, evidentemente, um exemplo de desonestidade, mas não se compara com prejuízos causados por parcerias público-privadas ou com o endividamento vergonhoso de muitas autarquias, graças a obras sumptuárias ou ao nepotismo. O castigo deveria ser proporcional para quem rouba uma resma de papel e para quem gasta dinheiros públicos levianamente (é um eufemismo).
          De resto, também já dei a minha opinião sobre isto neste texto: http://aventar.eu/2011/11/07/historia-da-democracia-portuguesa-vitima-complacente-ladrao-insistente/

          • Carlos says:

            Amigo, eu não estava a pensar nos roubos de resmas de papel que, sei bem, acontecem todos os dias. Eu estava a pensar em coisas mais “leves”, mas muito mais valiosas, às vezes, até, não palpáveis, como seja pareceres à medida, etc., etc.
            Fui ler o outro seu post e fiquei a conhecer melhor os seus pontos de vista, com alguns dos quais concordo. O que nunca posso concordar é quando diz que “ladrão que rouba a ladrão, tem 100 anos de perdão”. Esse tempo já devia ter passado há muito, mas infelizmente…
            também reparei que apenas refere o nome do Cavaco, levando-me a entender que não gosta do homem. Mas eu acho que está a ser injusto, pois há muito mais gente com responsabilidades, e muito maior do que as dele.

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