Pedro é o lobo

Pedro Passos Coelho agradece, secretamente, o trilho desbastado por Sócrates, recebe, penhorando-nos, a ajuda de Cavaco, e exulta, contido, com o contributo do Tribunal Constitucional.

Na alcateia em que vive, o macho-alfa chama-se Merkel. Pedro, o lobo, vive na base da hierarquia e limita-se a receber ordens. Entre as suas presas preferidas avultam o sistema nacional de saúde e as escolas públicas. Não lhe passa pela cabeça atacar PPPs e BPNs, festim exclusivo de outros canídeos superiores. Num país pastoreado por predadores, a ovelha é que se lixa, mas quem nasceu para ovelha tem de ser comido por lobos.

Portugal garante vitória no Euro 2012

A selecção portuguesa já garantiu o primeiro lugar como a mais gastadora em alojamento no Euro 2012. Num muito honroso último lugar, está a Espanha, campeã da Europa e do Mundo. Assim, Portugal, o país cujos cidadãos são castigados por terem vivido acima das suas possibilidades, vai desembolsar 33 mil euros por dia; a Espanha vai gastar 4700 euros.

Até já imagino Cristiano Ronaldo a mandar a Casillas uma fotografia do quarto e a perguntar se não tem inveja de um homem tão bonito e tão rico. Face aos congelamentos salariais e aos cortes dos subsídios de que sou alvo por ter cometido o crime de ter levado o país à ruína devido a ter ido jantar fora de vez em quando e por ter tido o descaramento de ir passar férias a casa de familiares, comprometo-me, desde já, a não assistir a nenhum jogo de uma selecção que pode representar muita coisa, mas não representa, de certeza, um país em que os cidadãos são obrigados a viver abaixo das suas possibilidades e muitos abaixo das suas necessidades.

Cavaco Silva, presidente do PSD

Cavaco Silva não é o presidente de todos os portugueses, porque não é meu, mas, pelo menos, poderia ter feito um esforço por me contrariar, tentando ser melhor. Não por mim, entenda-se, mas pelo país.

Mesmo admitindo que não sinta especial afeição por Passos Coelho, declarações como “não sei que Governo terá sido mais escrutinado do que este” ou que é “bom que os portugueses estejam conscientes de que os membros do Governo são pessoas e não super-homens, a que não se podem pedir milagres.” parecem revelar a absoluta parcialidade de alguém que deveria funcionar como um árbitro.

Se tivéssemos em Belém um Presidente de todos os portugueses, Passos Coelho teria sido chamado depois de ter aconselhado os desempregados a emigrar e o Orçamento de Estado teria merecido um pedido de fiscalização. Se Cavaco Silva não está ao lado de todos os cidadãos, o PSD pode, pelo menos, contar com o seu apoio. É, sem dúvida, um homem com sentido de família. Sentido de Estado é outra coisa.

O governo como agitador social

Todos os que não puderam fugir às várias contribuições, como é o caso dos funcionários públicos, estão, agora, a ser castigados, o que é justo, porque dos mansos será o reino dos céus.

Assim, depois de anos a contribuir para a construção de hospitais, escolas e estradas, depois de, por várias vezes, terem sido aumentados abaixo do valor da inflação, depois dos cortes salariais, depois de um corte no subsídio de Natal deste ano, depois de ficar dois anos (na menos pior das hipóteses) sem dois subsídios (ou seja, com mais um corte salarial), os mansos sabem hoje que todos os seus contributos foram desbaratados por corruptos e incompetentes e assistem ao triste espectáculo de um Primeiro-ministro que se limita a receber ordens de uma dupla chauvinista sem sequer tentar negociar a defesa das condições de vida dos portugueses.

Como se isso não bastasse, não há preço que não aumente, incluindo, por exemplo, o das taxas moderadoras, o que constitui, na realidade, uma sobrecarga contributiva para todos os mansos que andaram anos a descontar para um sistema de saúde que, por isso mesmo, nunca seria gratuito.

Para que o quadro fique completo, os mesmos mansos têm sido considerados uns privilegiados que têm vivido acima das suas possibilidades, responsabilizados pela dívida, confundidos com as gorduras que, afinal, ninguém corta, e têm sido aconselhados a ficarem calados, a não fazerem ondas, em nome de um desígnio que poderá ser financeiro, mas não é nacional.

É bom que se perceba, então, donde parte a agitação social. Falta saber aonde chegará.

Sem Tustos para o Utilizador

O utilizador do país, vulgo cidadão, é visto, na maior parte dos casos, como um mero contribuinte, isto é, como alguém cuja função é contribuir, alguém que deve pagar o que deve, a que se juntou uma outra obrigação: pagar o que não deve. Resultado: o utilizador não tem um tusto de seu.

Se o utilizador do país fosse visto como um trabalhador, um Américo Amorim, por exemplo, talvez tivesse direito também a receber, não só a contribuir. Porque o trabalhador, tradicionalmente, é visto como alguém que merece ser respeitado, alguém que está protegido da exploração, dos abusos.

Neste momento, o mercado de retalho alimentar está em contracção. Quer isto dizer que mensagem governamental de que é necessário cortar nas gorduras está a ser levada a sério pelos contribuintes?

As contas relativas às chamadas SCUTs levantam, também, algumas questões. Em primeiro lugar, estamos perante uma sigla sádica, a não ser que, agora, signifique “Sem Custos para o Trabalhador”. Depois, é sempre bom confirmar que o Estado pode aumentar os contributos dos contribuintes, aliviando-os de subsídios e outros excessos, mas nem pensar em renegociar os benefícios que os contratos garantem às concessionárias. Finalmente, vai ser engraçado descobrir que, com a introdução das portagens, o dinheiro que o Estado vai gastar com as SCUTs será o mesmo que já gastava, porque o utilizador, que não tem dinheiro para comer, dificilmente poderá pagar portagens ou combustíveis, a não ser que, por dever patriótico, comece a empurrar os carros em direcção aos pórticos.

Corrupção, o pasto dos “boys”

Não há ninguém, da esquerda à direita, que negue a necessidade de pagar o que se deve, falemos de países ou de pessoas. Existem, no entanto, algumas diferenças: há quem defenda que é necessário saber exactamente quanto se deve, que é importante saber que parte da dívida resulta de corrupção ou de incompetência e que é fundamental negociar, acto diferente de simplesmente aquiescer e que não se confunde com a recusa de pagar dívidas.

No Público de hoje, é possível ler uma reportagem de São José Almeida sobre a inexistência de “uma estratégia de prevenção e combate da corrupção em Portugal”. Trocando por miúdos, para quem tiver ou quiser ter dificuldades de leitura, isto quer dizer que não houve combate à corrupção e que tudo indica que continuará a não haver. A propósito, recomenda-se, entretanto, a visita a um blogue criado recentemente.

Convém não esquecer que a corrupção não é levada a cabo apenas por malfeitores façanhudos escondidos em caves suspeitas e fumarentas. Se assim fosse, seria fácil detectá-los. A corrupção está, também (e, provavelmente, sobretudo), no uso indevido que sucessivos governantes têm feito dos dinheiros públicos, mesmo que aos bois se lhes chame outros nomes. A vantagem de gastar mal o dinheiro dos outros é a de deixar a dívida exactamente para quem não o gastou.

É por essas e por muitas outras razões que concordo, em absoluto, com o conteúdo do “Apelo a Iniciativa Unitária por uma Auditoria à Dívida Portuguesa”. É claro que algumas pessoas mais sensíveis poderão ler a lista de subscritores e descobrir que aquilo está cheio de sindicalistas, comunistas, bloquistas e outros perigosos bombistas. No entanto, ó almas sensíveis, olhem, por um instante, para o conteúdo e esqueçam os mensageiros: não fará sentido saber se faz sentido todo este empobrecimento? Imaginem que se descobre que, afinal, não faz sentido.

O que vai à horta e o que fica à porta

Depois de coreografias baseadas na valsa e no tango, o PS, sempre pouco seguro, prossegue o caminho da abstenção, tal como fez ao longo dos últimos seis anos, quando se asbteve de escolher políticas a favor da Educação, da Saúde ou do Estado Social, preferindo ajudar bancos e garantir favores a construtores civis, a concessionários de auto-estradas ou a vendedores de equipamentos informáticos.

Diante de um assalto disfarçado de Orçamento de Estado, António José Seguro aceitou ficar à porta, mesmo fazendo de conta que não tem nada a ver com aquilo que Passos Coelho e Vítor Gaspar andam a fazer no interior da horta. Se lhe perguntarem alguma coisa, o pobre dirigente socialista deverá dizer qualquer coisa como “Eu não tenho culpa! Até lhes disse para deixarem lá algumas couves!”

Para pior, já basta assim!

Governo promete tudo fazer pela autoridade dos professores

Nesta notícia, e sem ser necessário sair do título, há alguns aspectos curiosos, a merecer observação atenta.

Em primeiro lugar, há uma conjugação de duas palavras que nos permite adivinhar o futuro: governo e promete. De acordo com o método Passos Coelho, seguidor acelerado da escola José Sócrates, ficamos a saber que o Secretário do Estado afirmou, na realidade, que nada irá ser feito pela autoridade dos professores.

Finalmente, ao incluir os professores no grupo de cidadãos a quem irão ser cortados os subsídios de férias e de Natal, o governo está a dizer ao país que fazem parte de um grupo de caloteiros que devia dinheiro à nação, o que, convenhamos, não é a melhor maneira de conferir autoridade a uma classe profissional.

Pela minha parte, agradeço que o governo não faça mais nada pelos professores.

Os problemas de memória de José Manuel Fernandes

Desculpem-me os funcionários públicos, mas quem não achou estranho, ou até aplaudiu, um aumento de 2,9 por cento em plena crise e num ano de eleições, algum dia teria de também pagar a factura. Ela chegou agora, com juros.

José Manuel Fernandes, Público, p. 38, 11-11-11

Se o problema está em não ter achado estranho ou em ter aplaudido, exijo não ter de pagar, pelo menos, metade da factura, porque não achei estranho que um governo em ano de eleições inventasse folgas para aumentos (como vai acontecer, o mais tardar, em 2014) e porque não me lembro de ter aplaudido uma única medida tomada pela clique socrática (como não aplaudirei, o mais tardar, até 2014, o que sair da toca governativa).

Aos congelamentos da carreira José Manuel Fernandes disse nada, como nada disse sobre o facto de a maioria dos aumentos da Função Pública, ao longo de anos, terem sido inferiores ao valor da inflação. Nada diz também sobre os cortes nos ordenados ocorridos já este ano. Claro que não se lembrou de falar nas despesas que muitos funcionários públicos têm para ir trabalhar, como se esqueceu de fazer referência a mais de trinta anos de governação incompetente e ruinosa.

É claro que não acho estranho que isto venha de José Manuel Fernandes e é claro que não consigo aplaudir, porque, sendo funcionário público, sou credor.

Autarquias vivem à custa dos funcionários

Segundo notícia saída hoje em vários jornais e transcrita mais abaixo, a receita obtida com os cortes nos subsídios servirá para pagar as dívidas das câmaras, instituições que, como se sabe, têm dado um contributo sólido para o buraco financeiro em que o país caiu. Explicado de outra maneira: os funcionários das autarquias pagam do seu próprio bolso os gastos disparatados dos presidentes das câmaras.

Entretanto, o governo, com a coragem que se lhe conhece, recuou na intenção de baixar os limites de endividamento das câmaras, tendo declarado, ainda, que já tem uma solução para reduzir as dívidas anteriores. Cruzem as duas notícias e descubram qual é a solução.

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História da Democracia portuguesa: vítima complacente, ladrão insistente

Cavaco, durante os dez anos em que ocupou a cadeira de primeiro-ministro, vendeu a preços de saldo a agricultura e as pescas, enquanto se eximia de fiscalizar o destino dos dinheiros europeus e ao mesmo tempo que gastava dinheiro em inutilidades como o IP5, para poder inaugurar uma obra que se veio a confirmar incompleta. Mais uma vez, o desenvolvimento do país ficava hipotecado, em nome de pequenos nadas como o da necessidade provinciana de ser visto como o “bom aluno” da Europa, outra maneira de dizer que faríamos tudo o que mandassem franceses e alemães. [Read more…]

O único Estado bom é um Estado morto

Pareceu-me ouvir, hoje, Miguel Relvas, a propósito da possibilidade de acabar definitivamente com os subsídios de férias e de Natal, afirmar que o “Estado não gera riqueza”, as empresas sim. Mais uma vez, confesso a minha ignorância acerca da Economia e respectiva terminologia, mas parece-me que estamos diante de uma noção absolutamente tacanha de riqueza.

A riqueza de um país não se mede apenas pelo equilíbrio das contas ou pelo recheio dos cofres do Estado, o que seria suficiente para considerarmos rico o Portugal salazarista, em que a pobreza era generalizada e escondida sob a capa da alegre casinha modesta. A riqueza de um país mede-se, também, por exemplo, pela qualidade da educação ou pelo funcionamento dos hospitais ou dos tribunais.

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