Subsistência, mais-valia, reciprocidade

Este texto é parte das minhas aulas aos meus discentes do ISCTE, hoje IUL, proferida a 7 de Março de 2005. Adoeci gravemente, com cancro na tiroidea, mas escrevi o livro «O presente, essa grande mentira social. A  mais- valia na reciprocidade», que reescrevo hoje, 14 de Novembro de 2011.

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 1. O título desta conferência tem vários conceitos que precisam de ser esclarecidos para entender a Antropologia da Economia e a falência em que este governo e o anterior nos fizeram cair. O primeiro é o de subsistência. Entendido este conceito, devemos lembrar o que se tem definido como objetivo da atividade humana. Esta foi exprimida in extenso por Adam Smith nas suas duas obras citadas[1]. Para Smith, bem como para todo o resto dos economistas a seguir, a subsistência é o trabalho e a sua divisão social conforme as habilidades, oportunidades e investimentos usados em bens que rendem mais dinheiro. Em consequência, subsistir é trabalhar. Ou, por outras palavras e como tenho tratado em outros textos[2], a racionalidade do ser humano é usada conforme as suas próprias capacidades derivadas dos recursos que tem e que pode e deve trabalhar para ser capaz de se reproduzir dentro da História. Analiso essa racionalidade ao passar pelo pensamento de vários autores[3]. Racionalidade que fui capaz de observar no cuidado expresso colocado pelos vizinhos observados na Galiza e entre os Picunche do Chile, para distinguir entre o que é troca e o que é venda de bens e serviços. De facto, apelo à análise da reciprocidade para observar que é dentro do parentesco que está instituída a obrigação de colaborar nos trabalhos dos outros. Há duas formas de organizar estratégias para esse trabalho do qual Smith nos falara, entre os vizinhos de Vilatuxe: a de colaborar na produção dos outros, bem como a de colaborar nos trabalhos feitos por pessoas que possuem bens pecuniários e dinheiro em moeda e bancos, para os quais se trabalha por um ordenado. Observação que ficou ainda mais esclarecida no meu reestudo, ao observar que a reciprocidade solidária tinha desaparecido ao passar a ser Vilatuxe um sítio de venda direta de produtos a uma cooperativa organizada por eles. Essa solidariedade da qual nos fala Durkheim em duas das suas obras, para demonstrar a lógica do operariado o dos grupos denominados costumeiros ou primitivos[4]. Uma lógica que tem a ver com a racionalidade aplicada à produção de bens por meio de ideias transferidas de adultos á crianças ou entre colegas de trabalho.

No entanto, o conceito de subsistência, anos mais tarde após Smith ter definido o conceito, passa a ser um problema de se os bens possuídos, são ou não suficientes para acumular, viver sem apertos e lucrar. Porém, Marshall Sahlins[5] e Bronislaw Malinowski[6], com extensão e com material abundante, falam de subsistência usando conceitos económicos e não apenas sociológicos.

Sahlins distingue entre calorias necessitadas por um grupo social para a sua continuidade na história do tempo investido em trabalho para as obter entre os caçadores e coletores de bens que parecem passar a vida a procurarem o seu sustento. Não entanto, o seu estudo entre os Bosquímanos do Deserto de Calaári em Botsuana, Planalto do Sudoeste Africano ou Bushmen. Demostra que há tempo para a colheita, para o descanso e para comemorar atos rituais. Há, também, existência de trocas cerimoniais e de dádivas, analisadas à luz dos trabalhos de Marcel Mauss e de Remo Guideri[7]. De Marcel Mauss, retira o trabalho feito pelo autor francês, na base dos conceitos de solidariedade que ele investiga de textos etnográficos escritos sobre os Maori da Nova Zelândia, outros recolhidos entre os seus discípulos como Hubert[8] e Hertz[9], especialmente, desenvolvendo ideias a partir dos textos alemães de Franz Boas[10] sobre o Potlatch e Richard Thurnwald[11] sobre a troca Hapu dos citados Maori. Guideri faz uma reavaliação do texto Maori de Rainita-Raini-Puri sobre o qual Mauss distingue entre contrato, economia e dádiva, a ser analisado mais em frente. O que interessa neste texto unidade é bem mais simples. É entender se a economia formal pode ou não ser aplicada para entender as trocas, colaboração para produzir e repartir a divisão social do trabalho entre povos não ocidentais.

Malinowski é o primeiro em definir que entre os povos não ocidentais existem dois tipos de troca e de colaboração: a troca ritual e a troca comercial ou económica, como denomina no seu livro já citado dos Argonautas (vide ut supra) e diz: The Trobianders is not guided primarily  by the desire to satisfy his wants, but by a very complex set of traditional forces, duties and obligations, beliefs in magics, social ambitions and vanities. He wants, if he is a man, to achieve social distinction as a good gardener and as a good worker in general[12]. Por outras palavras, o autor analisa a colaboração no trabalho e os acordos orais entre grupos de clãs diferentes da mesma tribo enquanto estuda a circulação de objetos necessários para a produção por meio da transação ritual denominada Kula dos nativos Massim das ilhas Trobriands na Melanésia. Resolve o problema com as palavras da citação anterior: todo acordo é ritual e mágico – é dizer, técnico, que é como define a magia, o técnico em jardins de inhames, fruto central para a troca Massim. Correlaciona dos aspeitos fundamentais: o parentesco e a troca. Ao estudar o parentesco, realiza que toda casa está composta por uma mulher, pelo homem da mulher e os filhos da mesma, que devem obediência e serviços aos irmãos da mãe. O grupo social mínimo é um grupo de várias casas entrelaçadas pelo parentesco, no qual o dever básico de um grupo é entregar a colheita ao irmão da mãe. Porém, devem produzir para o seu sustento e para entregar mais produtos  para a casa do irmão da mãe, que vive deste produto por causa de ele próprio – o irmão da mãe -, deve entregar a sua produção ao grupo doméstico do irmão da sua mulher. Essa produção precisa de ser abundante para consumir – usar – e para distribuir – circular.

A questão que o próprio autor coloca, é a de se é ou não possível denominar a este tipo de atividade comercio e de se as categorias da Economia Ocidental podem ou não ser aplicadas a este tipo de divisão do trabalho ou se este trabalho é um conceito como o trabalho ocidental, no qual há salários e cálculos. É nesta temática que entra Karl Polanyi[13] a distinguir atividades que Malinowski não soube fazer. E que Karl Marx, nas suas obras citadas, tinha sabido distinguir: há servidão quando não há moeda para representar o bem e lhe retirar a sua mais-valia por pagar ao operário o mínimo possível do valor que causa à maneira de Smith.[14] Polanyi. Mais tarde o seu discípulo George Dalton[15], introduz uma distinção histórica de grande relevância para entender a colaboração entre Economia e Antropologia e assim sabermos, finalmente, se há ou não subsistência nas ditas sociedades costumeiras. Há uma  distinção   simples: há uma economia que é institucionalizada e há um outro tipo, que é formal. A primeira é substantiva ou retirada dos dados da etnografia ou incrustada dentro das instituições do grupo o povo que se estuda: “The substantive meaning of  economics derives from man’s dependence  for his living upon nature and his fellows. It refers to the interchange with its natural and social environment, in so far as this results in supplying him with the means of material wants satisfaction.”[16] É de esta forma que Polanyi nos remete para uma forma clássica ou liberal de entender a economia dos povos não ocidentais. Fala da “wants” e não de “needs”, é dizer, de procura e não de necessidades como mais tarde, pela época de Polanyi, Malinowski ia analisar[17], em tempos de refugio dos dois cientistas nos Estados Unidos a fugir da guerra Europeia dos anos 40 do Século XX. A hipótese dos autores é muito simples: as pessoas tecem laços de trabalho em procura de produzir para o uso e criar uma quantia excedente para ser vendida nas férias e mercados locais. Ao qual denominam, cada um pela sua parte, a economia doméstica sobre a qual Erick Wolf[18] se baseara para criar as suas ideias sobre o camponês[19]. Economia doméstica rural que entrelaça os deveres éticos do parentesco com os deveres morais de se trabalhar em conjunto para um mesmo tipo de produção que beneficia ao conjunto de consumidores. A ideia é de não haver lucro em este tipo de atividades, bem como apenas sobrevivência e poupança ou de sementes ou de força de trabalho para continuar a produzir na estação seguinte e para organizar os trabalhos reprodutivos ao longo do ano.

 Este tipo de teoria é muito semelhante ao que se denomina normalmente economia camponesa, semelhante demais à teoria da economia doméstica. De facto, não há investimento nem lucro, há apenas um trabalho em conjunto para reunir meios para atingir objetivos de sobrevivência. No entanto, é preciso entender de que todos os grupos denominados etnias, primitivos, arcaicos ou de uma outra maneira, não passam de ser um conjunto de operariado proletário como os denominou Marx nos seus textos[20]. Com todo, é necessário entender que o operariado europeu do Século XIX e prévio, com  racionalidade do posterior  do Século XX, que parece não ser apenas possuidor de sua força de trabalho, mas também de bens de investimento proporcionados pelas leis da União Europeia e pelas dos Estados Unidos de América.  A população europeia ou americana e os  grupos antigamente denominados etnias ou primitivos, hoje em dia, são a mão-de-obra dos povos europeus e de USA, como acontece com os povos indonésios, da Melanésia, ou latino-americanos e outros da mesma Europa. Não são já sociedades costumeiras, bem como fazem parte de grupos sociais com menos recursos dentro do seu próprio estado – nação.

Pode-se usar a teoria económica clássica e neoliberal para estudar o comportamento destes grupos? O próprio Polanyi, bem como Marx, continuam a dar a resposta. Diz Polanyi: “…the formal meaning of economics derives from the logical character of the means-ends relationship, as apparent in such words as “economical” or “economizing”. It refers to a definite situation of choice…”[21] Eu diria que sim. O mundo globalizado, referido por Anthony Giddens[22], é para poucos pela economia e pelas ideias religiosas que as apoiam o das quais derivam, mostram que todos os grupos sociais têm uma obrigação de optar para poder manipular recursos e meios para produzir. Malinowski viu que havia uma obrigação no costume, que o parentesco era uma linha de ações que obrigava a determinadas atividades e proibia outras. É quando fala de cultura e das atividades dos Massim que refere a economia como substantiva ou dentro de uma instituição. Como facto, é uma realidade. A ética dos seres humanos orienta para dentro das atividades do parentesco com variações de crenças ou de divindade. Há obrigações dinamizadas por estas ideias da união social, bem como outras interditas. Entre os Massim o homem da mulher – esse que aí não é pai –, deve transferir a sua descendência para o irmão da mãe mal tenham eles o que se denomina a idade da puberdade e esses produtores do irmão da mãe passam a ser produtores diretos de esse irmão da mãe e herdeiros do mesmo em bens e viúvas desta etnia pologínica, em quanto as suas irmãs ou têm um outro homem fora do lar da mãe, ou podem procriar com o homem da sua mãe, por serem de clãs diferentes, não há relação de consanguinidade nem incesto. No entanto, todos eles, são parte da força de trabalho dos Estados que agora têm sido criados. Como acontece com os próprios Massim ou Kiriwina, do Estado da Nova Zelândia, ou os Bosquímanos, que trabalham para como camponeses para os Africanos do Sul ou para os Banto, proprietários de terras.

É preciso entender que a racionalidade na antropologia está relacionada com a da economia. A da economia está orientada a produzir bens dentro da família e redistribuir pelas genealogias que percorrem as linhas do matrimónio ou casamento, os rituais porém, e os meios para suportar as pessoas produzidas por essa trave mestre de todo grupo social, que é a genealogia. Ainda mais, a economia clássica como a neoclássica ou neoliberal, de Smith ou Friedman[23], fazem menção expressa da necessidade da aproximação entre ascendentes e descendentes para ou aprenderem ofícios, ou serem dinamizados para novas atividades ou, ainda, para distribuir os meios ou recursos que vão trabalhar para subsistir ou lucrar, conforme o caso for.

As sociedades costumeiras, porém, guardam dentro de si as maneiras de ser originais e acrescentam as formas legais que as uniões de trabalho ou de nações, impõe por cima das suas leis. Ao qual devo-me referir mais em frente.

 

2- Reciprocidade?

 

 

Apenas um esquema de iniciação. Pelo que os economistas dizem, a desigualdade era mais do que justificada por causa da lógica e da natural servidão do operariado. Mas, como a minha ideia é entrar pela mais-valia no conceito tão usado em Antropologia, não posso menos que acrescentar as seguintes palavras, a partir do texto já citado de Durkheim.

Reciprocidade é um conceito pouco fácil de analisar. Há quem fale da norma de reciprocidade, há quem fale do princípio de reciprocidade. Para entender a diferença, é preciso entender a relação que existe na correlação entre ética, lei, direito, costume e objetivo do conceito. O primeiro que parece ter falado da ideia de reciprocidade, foi Cicero, c 60 BC. Diz: “There is no duty more indispensable than that of returning a kindness. All men distrust one forgetful of a benefit”[24] Há poucos conceitos usados para definir a palavra reciprocidade. Um deles é Samuel Becker, que diz: “I do not propose to furnish any definition of reciprocity; if you produce one, they will be your own achievement”[25] Hobhouse diz que “reciprocity…is the vital principle of society, a key intervening variable through which shared social rules are enabled to yield social stability” [26]. Com a sua ideia muita da escola alemã, Richard Thurnwald assente que “the principle of reciprocity is almost a primordial imperative which pervades every relation of primitive life” [27]. Há as duas ideias, a do princípio e a da norma. Como princípio, tratam do conceito Malinowski[28], Mauss[29], Durkheim[30]. De uma outra maneira, há os autores que pensam do conceito como uma norma e não um princípio ético, orientado pelo direito costumeiro ou pela lei escrita. Entre estas, ao mesmo que Durkheim fala de princípio, fala também de direito à maneiro aprendida do seu mestre Ferdinand Tönnies ao referir que há uma solidariedade mecânica ou comunitária, Gemeinschalft, ou uma orgânica ou associativa ou de trocas, separada pelo intercâmbio ou Société denominada por Tönnies Gessenchalft, que pode levar a uma anomia ou falta de dinâmica social, como vamos ver em breve. Onde a troca dádiva é impossível. O que interessa em esta parte, é entender que Durkheim, ao debater a divisão do trabalho de Adam Smith, refere a existência do apoio que os seres humanos procuram para a produção dos seus bens. Essa que Marcel Mauss, ao procurar o princípio de reciprocidade, nem denomina como tal, apenas entende que há três movimentos para estabelecer um convénio económico entre os seres humanos: dar, receber, devolver. E começa logo com uma pergunta, que é parte da sua hipótese, ao dizer: “Desde há anos que a nossa atenção se debruça ao mesmo tempo sobre o regime de direito contratual e sobre o sistema das prestações económicas entre as diversas secções ou subgrupos de que se compõem as sociedades ditas primitivas e também aquelas que poderíamos dizer arcaicas…que exprimem ao mesmo tempo e de uma só vez todas as espécies de instituições: religiosas, jurídicas e morais –e estas políticas e familiares ao mesmo tempo; económicas – e estas supõem formas particulares de produção e do consumo, ou antes, da prestação e da distribuição….queremos considerar um dos aspeitos apenas, profundo mais isolado: o carácter voluntário, por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e todavia forçado e interessado dessas prestações…onde há senão ficção, formalismo e mentira social, quando há no fundo, obrigação e interesse económico.”[31] A questão que lhe interessa passa de imediato a ser exposta, como uma hipótese: “Qual a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído?.. .Há fenómenos de troca e de contrato nessa sociedades que não estão privadas de mercado económicos como se pretendeu – porque o mercado é um fenómeno humano, que, em nossa opinião, não é estranho a nenhuma sociedade conhecida…mas cujo regime de troca é diferente à nossa. Veremos aí o mercado antes da sua principal invenção, os mercadores e antes da sua principal invenção, a moeda propriamente dita[32]. E passa logo, ao longo de quase duzentas páginas, a analisar as sociedades romana do contrato, a Grega, a Hindu e as do potlatch e do kula, nas quais analisa os conceitos mana e hau, assim, sociedades arcaicas e primitivas. Para concluir das páginas 192 até a 209, de que existe uma noção de valor que é semelhante a nossa, capitalista, embora esteja permeada ou apareça como uma forma diferente à utilitária. No entanto, é a sua conclusão, há procura de lucro bem como há procura de mais-valia como no sistema do capital. O donatário empresta pelo interesse de ver uma outra pessoa ou grupo, vergado à necessidade de restituir que, pelo seu carácter religioso ou sagrado, aparece como uma atividade pela qual há castigo e punição se não fossem cumpridas. Mauss fala de oferta e dádiva, mas nunca fala de reciprocidade. Apenas de três momentos da atividade de trocar que é, para todos os efeitos, utilitária, procura lucro e mais valia. Mas, não fala de reciprocidade, apenas fala de obrigatoriedade de retribuir para não perder a abundância que um povo tem, perante a escassez de um outro. E vai retirando casos, especialmente de hierarquia, que explicitam as formas de comércio encontradas por ele, e, especialmente como diz, por Malinowski que, após ter feito um sério esforço de entender a dádiva pura, apenas é encontrada nos esposos ou na troca para a reprodução de seres humanos.

É neste tipo de análise no qual é preciso procurar porque dádiva e reciprocidade são factos diferentes. Gouldner, no trabalho citado, apenas encontra poucos cientistas que entendam ou tentem definir reciprocidade. E passa para a análise da reciprocidade feita por Durkheim na sua obra póstuma acima referida, bem como a de Marx[33]. No seu texto Le Socialisme[34] quer o autor, quer Mauss no Prefácio, reconhecem terem retirado ideias do texto citado de Marx, bem como do Conde de Saint – Simon e de Proudhoun[35], a denominada por ele “Escola Socialista” da sua época. O conceito usado é o de exploration ou exploração, resultado de uma relação social na qual é “possível apreciar a desigualdade no intercâmbio, por causa de investimentos não ganhos por pessoas que apenas possuem a propriedade dos meios de produção, acabam por receber o lucro dos operários ou a mais-valia de quem trabalhou já o necessário para produzir o seu valor de uso ou consumo próprio, para produzir um valor extra ou não merecido, pelo proprietário” [36]. É a partir destas ideias que Thorstein Veblen trabalha o conceito útil para entender reciprocidade, o de institutionalized explotation[37] O autor Norueguês – Americano entende que existe um Vested Interest ou um interesse de investir que caracteriza como o direito a coisas após nada ter sido feito pelo investidor. É desta ideia que é possível pensar que a reciprocidade tem apenas um interesse, o de lucrar na base do trabalho de outro, enquanto se faz pensar ao trabalhador que existe solidariedade social na medida da segurança social e assistência a quem não trabalha. É destas ideias do Capital, usadas por Thorstein Veblen nos anos 30 na Sociologia Americana, que Mauss e Durkheim usam para disser nos textos dos anos 20 ou póstumos e prefaciados por Mauss, que “a existência de classes sociais, caracterizadas pela importante desigualdade de quem tem e de quem apenas possui a sua capacidade de produção como força de trabalho, fazem impossível que contratos justos sejam negociados entre um possuidor e um não possuidor de meios de produção. O sistema de estratificação social existente constrange (constrains) ou impinge uma desigual troca de bens e serviços, ofendendo assim às expectativas dos povos das sociedades industriais. A exploração impossibilita, por causa da disparidade de poder entre as partes contratantes, uma igualdade necessária para exprimir a vontade, o que coloca à sociedade em risco de extinção ou subversão” [38] Durkheim acrescenta uma ideia que Marx não tinha analisado, essa de ferir os valores das pessoas com a atitude anti-ética dos proprietários do Capital.

Malinowski, no entanto, não abandona a procura da ideia de reciprocidade e aí onde Durkheim adverte que a sociedade é instável pela sua falta de solidariedade ou a existência de anomia nas relações sociais,o conceito Gemande de Tönnies, professor de Durkheim, o nosso polaco adverte que há várias formas de reciprocidade[39] Na primeira das obras citadas, Malinowski acaba por dizer que todo o que tem encontrado é apenas uma forma de comerciar estruturada como um ritual, do qual os grupos sociais extraem uma mutua utilidade, é dizer, um do outro, em bens e tempo de trabalho ou recíproca. Na segunda, muda para o campo de psicologia, abandona a economia e decide qualificar a Reciprocidade, com uma primeira questão “Why is it that rules of conduct in a primitive society are observed, even though they are hard and irksome?…” [40]

A conformidade às regras, diz Malinowski ser a base da reciprocidade, por causa da coesão mecânica que ela produz. Uma segunda, é que as pessoas devem-se direitos e obrigações entre elas. A reciprocidade tem lugar fora da esfera económica, por ser um complemento e preenchimento da divisão do trabalho, necessária como ela é para povos sem tecnologia avançada. “Reciprocity, therefore, is a mutually gratifying pattern of exchanging goods and services” [41].

É destas ideias que Lévi-Strauss retira as suas para definir a reciprocidade como o que é oposto à natureza e é fabricado pelo homem, embora a natureza é também humana[42].

Quer Malinowski, quer Lévi-Strauss, vão encontrar relações sociais recíprocas na estrutura do parentesco. O primeiro, ao analisar a psicologia primitiva; o segundo, ao estudar as relações sociais. Como eles, muitos autores. Porque a prometida igualdade parecia estar na troca dádiva, denominada reciprocidade, mas é possível perceber que na sociedade do intercâmbio, nada é gratuito. Não é em vão que Adam Smith fale de permuta, troca e intercâmbio, dentro do mercado. Como ele, toda a escola liberal contra a qual se insurgem as teorias radicais de Marx, Prouhon[43], Saint-Simon[44], Durkheim, Mauss. Estes últimos, tentam, tal e qual Malinowski, comparar sociedades para procurar uma troca – dádiva, que aparece inexistente na sua gratuidade. Eis porquê Durkheim tem que distinguir entre sociedade orgânica ou comunitária, na qual a religião traz, de forma simbólica e ritual, uma forma de colaboração sempre paga pelo donatário; e uma de solidariedade orgânica, na qual a lei é a base de todo contrato, excepto quando é celebrado entre quem nada tem e o proprietário, como diz na obra citada de L’éducation[45] e outras, invocadas nestas páginas. A troca – dádiva tão procurada, parece ser apenas uma permuta, com mais-valia à maneira definida por Marx em 1862 e 1863[46]. Troca que é comercial, como estimo provar no capítulo seguinte.

 

 

3. Reciprocidade.

 

Apenas um esquema de iniciação. Porque sobre reciprocidade tenho escrito bastante, em vários textos publicados[47]. No entanto, o conceito deve ser esclarecido, para além da excelente tentativa de Alvin Gouldner[48] no seu texto clássico, citado neste livro e que tem orientado a minha análise. Mas, antes de entrar pelos comentários de Gouldner, é preciso lembrar outras distinções e definições, normalmente pouco referidas em textos. Diz Vernon Robbins, da Emory University[49], que reciprocidade é “ the informal principle on which a dyadic contract is based, reciprocity is an implicit, non-legal contractual obligation, unenforceable by any authority apart from one’s sense of honour and shame. The principle of reciprocity is the most significant form of social interaction in the limited-good world of the first century. The reciprocity in dyadic contracts is either symmetrical or asymmetrical. There are also several kinds of reciprocity in the distribution system of the pre-industrial-agrarian based economy: balanced, full, weak, negative. Asymmetrical reciprocity, a feature of the patron-client contract, is between partners that are not social equals and make no pretence to equality. Balanced reciprocity occurs where distant tribal kin were involved, the element of watchful calculation grew greater, and the time within which the counter gift would have to be made grew less. Full reciprocity occurs among members of a family, goods and services were freely given. Negative reciprocity occurs outside the tribe mutuality ends–like morality, it only holds good for tribesmen. An outsider was fair game  for clever dealing in an exchange: one could haggle, cheat and lie. Symmetrical reciprocity, a feature of a colleague contract, is between closely located persons of the same social status. Weak reciprocity occurs among members of a cadet line within a clan, gifts would be given; but an eye would be kept on the balanced return-flow of counter gifts.”

Trata-se, a meu ver, da definição mais clássica que existe sobre o conceito, aquela a que normalmente as pessoas se referem ao falar de dar, aceitar, receber, devolver, na base da palavra empenhada ou dada, um contrato oral, não escrito, que obriga a uma continuidade na relação. Esta ideia é retirada das teorias religiosas que são estudadas e professadas na Universidade em causa. Nesta, para mim, romântica forma de entender o real, falta a noção de que o que se dá é um bem, que tem preço, valor económico, e é resultado de trabalho humano, como se não houvera mercado para trocar…         

            Outra definição é proporcionada por Hegel, ao dizer que reciprocidade é: “the completion of the division of Actuality which proves to be the Notion. Reciprocity is the grasping of the thing at the point where cause and effect, action and reaction, possibility and necessity have completely merged with one another. Reciprocity is sometimes called “interaction”, the conception of a complex system as a network of interacting causes and effects, but yet lacking a “notion” or concept of the underlying unifying system to “make sense” of these interactions”[50] Por outras palavras, e se lembrarmos o objetivo da Filosofia Hegeliana, sem reciprocidade o ser humano está incompleto, se não o estava já, ao não ser parte da Ideia Absoluta ou Divindade. Não é em vão que Hegel menciona o processo de interação, tão usado por mim próprio em textos e palestras, ao conceber a vida social como resultado de uma atitude cultural, baseada no reconhecimento da existência de um Ideal Absoluto que orienta as nossas ações, incluindo a razão, e que esse Ideal faz de nós seres incompletos enquanto não tratamos quer com a Divindade, quer com nós próprios e os nossos semelhantes. Pelo que, ao sermos entidades em permanente criação, não somos o que somos, somos a negação de nós próprios, negação que construímos em parceria com os outros: eu sou uma tese, os outros são a minha antítese, em conjunto aprendemos e somos uma síntese. Eis a base da sua dialéctica, que o fez afirmar, nos seus textos, que os seres são completos enquanto coexistem dentro de um mesmo espaço, entendem a sua História e partilham as mesmas ideias: se assim não fora, haveria um conflito de culturas que faria da vida um campo minado, dentro do qual apenas a política aplicada ao Estado e aos indivíduos por eles próprios poderia pacificar. É esta a base da sua ideia de reciprocidade, uma forma de interação social necessária para se viver bem, em paz, em submissão ao Absoluto Ideal ou Divindade; ou, por outras palavras ainda, a reciprocidade define a interação necessária para a vida social. Esta é a ideia que leva a Karl Marx a falar de reciprocidade.

No entanto, há mais ainda a entender, para definir a reciprocidade e a maleabilidade desse conceito central para a Antropologia, como o entendimento que têm teólogos como Martinho Lutero, que a ele se refere enquanto como forma de salvação e conquista do Céu, escapando à condenação ao Inferno, assunto que ao seu tempo preocupava imenso os seres humanos.[51] “…the structure of reciprocity is not as strongly articulated as in the Treaty on Christian Freedom. The main model seems to be one in which everything is received from God and passed on to a neighbour. The presentation moves from sinful man to God’s forgiveness. In the sermons the view from above plays an equally important role, and follows here the movement of the incarnation. This is the reason for Lutero’s placing of the Kingdom of God in actions. However, it is wrong to understand these variations in an absolute way. Both perspectives could be found in both writings, because Lutero’s understanding of Christian man is basically structured by a Chalcedonian Christology.”[52]

 

Parece evidente a necessidade de um comentário. Porque estamos a falar da raiz da cultura, o que eu denomino a sua lógica em vários dos meus textos[53]. De facto, através da minha observação, ou de membros da minha equipa, em vários sítios de pesquisa da Europa, América Latina e África, as primeiras ideias que as pessoas aprendem em pequenas, com palavras e ideias retiradas dos seus adultos, são as da existência de uma divindade que determina o sermos solidários e caridosos uns com os outros. O rito de Eufuko, analisado por Rosa Maria Melo, da Etnia Handa de Angola, assim testemunha[54]. Bem como o texto de Ângela Nunes sobre as crianças A’Uwe-Xavante do Brasil[55]. Ou, ainda, o texto que organizamos com Manuela Ferreira[56], devotado todo ele ao entendimento das formas de aprendizagem dos mais novos do grupo social. Estes textos que refiro, ensaiam o entendimento da interação entre duas culturas, a do adulto e a da criança, enquanto analisam as formas de aprendizagem das primeiras ideias que derivam das crenças na Divindade. Os Mandamentos da Igreja Romana estão presentes no processo de ensino e aprendizagem. É isto que preocupa Martinho Lutero, ao escrever os seus textos, especialmente os referidos e o seu Catecismo: todo o ser humano está predestinado a viver uma vida de trabalho dentro de vida histórica, para atingir uma vida melhor além História ou na visão da Divindade (definida como Deus Pai; o seu Filho Sacrificado pelos denominados pecados do mundo; e as ideias inculcadas em nós pela terceira pessoa que é parte da Unidade da qual Hegel falara, como Luterano, o Ideal Absoluto: o Espírito Santo a definir a racionalidade da raça humana). Não apenas dos membros da teoria religiosa organizada, a partir da Bíblia traduzida para as línguas faladas pelos membros das Igrejas, por Lutero e Calvino, e mais tarde por Pio V, Papa dos cristãos romanos em 1563. É esta a preocupação demonstrada por Lutero, o facto de que a salvação apenas é possível se existe colaboração entre as pessoas ou atividades recíprocas. É necessário advertir que Lutero, como Calvino nos seus textos referidos a seguir, enfatizam a ideia de ser a Divindade a implantar racionalidade e objeto de trabalho entre as pessoas, desde a Infância, ideia expressa pelo autor sempre por mim citado, Tomas Aquinas, ou Tomás de Aquino, quer no seu texto sobre Economia ou Summa Theologica, ou, ainda,  no Catecismo que retirou do seu compêndio de teologia e economia, a  Summa Theologica de 1260, reeditado e modernizado pelo Papa Benedetto XV, em 1875[57]. Este conjunto de análises etnográficas fundamenta essa preocupação de Lutero que, por sua vez, é uma preocupação universal: como referido por Ludwig Feuerbach em 1841 e 1848-49, a preocupação central do ser humano é a morte e de como a vida pode ser continuada[58]. Estes textos são ensaios histórico-filosóficos que defendem a hipótese de que o ser humano vive alienado pela sua preocupação com a morte e atribui as suas qualidades a uma Divindade que o substitui, adormecendo-o para a realidade como se de ópio se tratasse. Ideia que não se encontra em Lutero, ou Calvino, ou no Catecismo de Aquino, ou do Pio V, cuja base é uma solidariedade entre seres humanos, que Feuerbach reconhece como reciprocidade que colabora na ultrapassagem dos dissabores de uma vida, que, de certeza, deve acabar um dia, na Visão da Divindade ou nas chamas do Inferno. É o que Lutero denominou vocação para se salvar do inferno e Max Weber analisou no seu tempo, em 1905; A ética protestante e o espirito do capitalismo.

É assim que reciprocidade é, no meu ver, um conceito social derivado da lógica religiosa, apesar de Temple e Chabal[59], bem como Godelier[60], fazer uma outra leitura. Uma leitura que começa por remeter a Claude Lévi-Strauss e à sua hipótese de 1948, de ser a reciprocidade uma ligação única entre natureza e cultura, conceito criado por Marcel Mauss. A análise dos textos passa pelas ideias que pensam. Marcel Mauss teria avançado no seu texto, hoje livro, L’Essai sur le don. No entanto, estes três autores colocam uma questão fundamental analisado já no texto de Mauss e que Lévi-Strauss não considerou: a mais-valia, ou moeda retirada aos seres humanos que recebem dádivas ou presentes, que, como refere o próprio Mauss, acaba por ser uma mentira social, por haver Mercado. Temple e Chabal começam por referir que a dádiva é uma gratuidade, mas rapidamente passam para a existência de dinheiro na circulação das gratuitidades e na fabricação dos bens oferecidos. Tal e qual refere Godelier, ao falar da subordinação de quem recebe face a quem oferece. Por outras palavras, materializam um conceito que tinha sido usado como dogma dentro da teoria religiosa e ainda é usado pelos Antropólogos como uma atividade sem mercado, donde, Temple e Chabal referirem as ideias de Marshall Sahlins[61] e de Karl Polanyi[62], autores muito considerados para entender uma invenção da Ciência da Antropologia: as sociedades sem mercado e a sua economia, que Malinowski estuda e conclui que não existem, como refere ao falar no Capítulo VI, parágrafos IV a VII[63], referido em detalhe mais em frente.

É o que eu denomino a Lenda Negra da Antropologia ou a mentira antropológica. Porque, da análise de Temple e Chabal, pode inferir-se a ideia de ser a reciprocidade a base de valores humanos, como é provado profusamente nas 1ª e 2ª parte do livro, dedicado a desenvolver uma hipótese certa e bem desenhada: entre quem recebe e aceita, aparece um Outra ideia dos cientistas, é denominar um Terceiro com poder que entra na relação de dois ou recíproca “Tiers…Le mana, c’est concept vide, n’exprime-t-il pas alors la plénitude du sens, donnée d’emblé à l’homme, ou plutôt crée par lui dès qu’il entre dans un relationm réciproque? Le mana c’est la valeur de la réciprocité, un Tiers entre les hommes, qui n’est pas dejà là, mais à naitre, un fruit, un fils, le Verbe que circule, qui donne à chacun son nom d’être humaine, et sa raison à l’universe.[64] Para acrescentarem, mais em frente ao falarem do Tiers, ou do Outro como nós diríamos, mas um Outro que não tem existência física, uma ideia à Hegel: “Selon notre thèse, dans la structure binaire, le hau ou le mana naît individis de la parité avec autrui…Le Tiers et le produit même de le réciprocité”[65]. Resulta, em consequência, nada estranho que o tratamento de Marshall Sahlins e Malinowski seja pouco certo, sem mencionar outros autores críticos de Marcel Mauss e das suas ideias sobre hau e mana, conceitos que este autor apenas analisara para entender o funcionamento da economia da França do seu tempo, e que os autores citados ignoram. Tal como foi ignorada por Claude Lévi-Strauss a referência clara que faz Marcel Mauss, no começo da sua obra e que diz que procura saber qual é a regra de Direito em sociedades arcaicas, que obriga a devolver um bem emprestado a outrem. A questão estava resolvida já por Malinowski, nas páginas referidas do texto citado: não há dádiva, não há mana e o hau não é esse engano que refere Remo Guideri no seu texto, quando ao analisar as ideias de Marcel Mauss, propõe que o autor ter-se-ia enganado ao interpretar a história do Maori Rainita.Raini-Puri, ao dizer que hau não é nem uma coisa nem o vento que passa pelos ramos de uma árvore, mas sim, a alma da coisa emprestada ou doada que iría atrás do ser que aceita ou solicita esse empréstimo[66].

A análise de Temple e Chabal é poética, é certa, segue as ideias e teorias criadas por Claude Lévi-Strauss e o livro é um prazer de leitura: é um processo de aprendizagem. No entanto – e esta minha frase não é uma crítica, apenas uma ideia que segue no decorrer do meu pensamento –, Marshall Sahlins e Malinowski não podem entrar na sua análise, na forma estrutural que ela é toma. Malinowski, no texto invocado, fala claramente de que existe comércio, troca e intercâmbio nas sociedades não ocidentais (no seu caso, entre os Massim da Kiriwina) e acrescenta que há obrigações sociais a serem cumpridas, como oferecer bens no caso do parentesco matrilinear, ou entre marido e mulher, relações de parentesco político, e outros[67]. O estudo dos autores invocados é um processo de interação, da forma mais sociológica possível, conceito que não é usado por Temple e Chabal.  Marcel Mauss, no seu importante ensaio sobre a dádiva, com o qual continua as ideias de Direito, Estado, Ritual, Lei e Economia, do seu Mestre Émile Durkheim, pergunta-se qual é a lei que orienta os contratos nas sociedades arcaicas, aparentemente sem Estado, sem Mercado e sem Escrita. E acrescenta, logo a seguir, dentro da sua definição de programa de pesquisa: “…Há aqui todo um enorme conjunto de factos. E eles próprios são muito complexos…fenómenos sociais “totais”…religiosos, jurídicos, morais e económicos…queremos destacar apenas o carácter voluntário…aparentemente livre e gratuito, e todavia forçado e interessado por estas prestações… [em] forma de presente, da prenda oferecida generosamente, mesmo quando, nesse gesto que acompanha a transação, não há senão ficção, formalismo e mentira social…e obrigação e interesse económico.[68] É esta parte do texto que acabo por não entender como pode não ter sido lida ou referida, nem por Lévi-Strauss nem pelos autores em causa. Tal como não entendo, que a análise de todos eles se concentre na classificação de bens e prestações e não no Capítulo V, páginas 185 a 208, as bases da Sociologia Económica. O texto de Marcel Maus é importante ao comparar trabalhos de campo de outras culturas, com os acontecimentos actuais do povo francês, referidos nas eternamente omitidas páginas. Tal como não entendo, também, a omissão dos textos políticos de Marcel Mauss, especialmente os textos sobre socialismo e sobre a participação de um cientista na vida pública do seu país[69], tal e qual tinha feito Émile Durkheim ao colaborar na Educação francesa durante o Governo socialista de Gambetta. As obras de Mauss, como a maior parte das de Durkheim, especialmente as que incidem sobre socialismo e materialismo histórico, parece terem sido banidas do repertório científico da Ciência Social, pelo que, no final, acrescentarei a lista das publicações. Para, como sempre refiro, lavar a cara destes nossos autores fundamentais e limpar as autorias dos Antropólogos.

 

Como é o caso de Marshall Sahlins, muito criticado por distinguir quando a teoria da Ciência da Economia deve ser usada e quando não, para entender e explicar a vida doméstica dos Bosquímanos e de outras economias denominadas de subsistência. Para se explicar, concebe o conceito de Modo de Produção Doméstico[70]. Ideia que passo a referir. Sahlins afirma no seu texto, que é possível apreciar as formas da caça e colheita de alimentos, apenas quando se tem necessidade e passar o resto do tempo no que ele denomina uma estrutura de carência ou de baixa produtividade. [71] E investe bastante na defesa de uma forma de produção doméstica que não precisa de continuidade no trabalho, nem de indústrias, nem de mercado. É preciso entender e comparar os capítulos 1 e 2, para perceber que o autor experimenta distinguir entre analisar o comportamento social como recíproco e de entreajuda, e o comportamento pela ciência que ele denomina burguesa – não para analisar classe social, mas para analisar a possibilidade de empregar os conceitos de Economia a povos como os Bosquímanos de Calaári, os Aborígenes Australianos, e outros da América Latina, cuja economia é a de trabalhar quando é preciso guardar bens de consumo, para descansar ou usar o tempo em entretenimentos e rituais ou a ensinar crianças e jovens. Por outras palavras, o conceito de reciprocidade usado por Sahlins, tem mais a ver com o comportamento social que com o económico, por não existirem ideias sobre mais-valia, lucro, maximização, conceitos todos usados nas economias com tecnologias, que satisfazem as necessidades humanas de forma rápida e facilitada[72]. Conceitos a analisar noutro ensaio. Entretanto, era necessário entender que o comportamento social de grupos que baseiam o seu processo reprodutivo na colheita e na caça, entram em contradição com um elemento principal da economia de lucro: a falta de propriedade, porque para quem subsiste de forma nómada, a propriedade seria um laço contraditório para o seu “hand-labour”[73]. A denominada propriedade, em sociedades não industriais, está atribuída à Autoridade do grupo, que distribui os sítios de procura de alimento e de sítios de caça, enquanto na sociedade com indústrias, esta propriedade é individual, como refere no Capítulo 2, páginas 92 a 94. É a partir desta ideia, que refere reciprocidade e o que denomina sharing, ou partilhar os frutos do trabalho, se este faltar aos parentes ou pessoas relacionadas[74], quer na produção e colaboração, quer ainda na distribuição dos meios de trabalho ou objetos de recolha e caça, para acabar com o que ele denomina a Lei de Chayanov que diz: “in the community of domestic producing group, the greater the relative working capacity of the house-hold, the less its members work”. Ideia que Anton Vladimir Chayanov tinha desenvolvido ao estudar o trabalho nas denominadas unidades económicas camponesas[75], ou MIR, onde os camponeses russos, na época feudal, suplementavam a sua economia por não ser suficiente o trabalho nas terras do Senhor, a quem deviam entregar grande parte da colheita[76]. De facto, Sahlins usa as ideias de Chayanov apenas uma vez, para sustentar a sua ideia de Modo Doméstico de Produção e atingir a sua definição de reciprocidade, diferente da proporcionada por Marcel Mauss, que ele cita no seu texto[77]. O que interessa a Sahlins, é teorizar sobre o impossível: o pooling que evita a anarquia e dispersão referidas pelo autor, caso não haja uma redistribuição de bens entre parentes e amigos, que transcenda o que ele denomina redistribuição de funções ou trabalho recíproco, especialmente entre homem e mulher, ideia retirada de Malinowski, mas sem citar o autor desta interação que Malinowski denomina comercial e sem a mínima relação de reciprocidade. Ideia, enfim, que fez Lévi-Strauss usar o conceito para falar do parentesco, como base de toda reciprocidade.

Como dizem Temple e Chabal na obra referida, a frase maori que refere Reciprocidade, é normalmente tomada como intercâmbio: a procura de um Outro não existe, esse Tiers ou terceira pessoa que refere Rainita Raina- Puri, é um ciclo de dádivas. Há duas pessoas; há quem entrega um bem, quem oferece, há quem aceita ou não. Atitude tomada como intercâmbio por Sahlins: “ Il croit, comme Mauss que le troisème personage du cycle èconomique évoqué par Ranapiri est un artífice pour rendre visible quelque chose ; il conteste que cette chose soit le mana du donnateur”[78] . « Le Tiers est l’obligation de rendre », como definem os autores no título de um parágrafo do Capítulo 2, página 61. Por outras palavras, a reciprocidade Maori existe entre quem doa e quem recebe e torna a doar, e apenas para um tipo de bens, os taonga ou um nome que representa palavras, pinturas da cara ou do corpo, colares, braceletes e outros semelhantes. Entre nós, Ocidentais, parece não existir este tipo de bens e, no entanto, o conceito é usado: “Cês reflets de la gloire, cês miroirs du nom ont une importance particulière dès les moment où il peuvent être aussitôt confiés à otroui ou même donnés. La distinction fait par Mauss entre deux sortes de richesses et dons et s’éclaire : les uns engendrent du nom, les autres les représentent. Les seconds symbolisent l’autorité acquise par la redistribution des premieres.Ils sont de la renommée gravé, du prestige sculpté, de l’âme thésesaurisées.Les indigènes, on l’a vu, , font eux – mêmes cette distinction….Cette capacité des objets précieux d’incarner la valeur de renomée acquise para le don des objets d’usage, est  peut-etre ce qui conduit  Mauss à croire à croire que les indigènes prêtaaint systematiquement de l’âme aux choses.Il observe en effet  surtout le transport d’objets auxquels sont délibérément associées des valeurs spirituelles : trésors, talisman, blasons, nattes et idoles sacrées qui représentent de l’âme »[79].

Por outras palavras. Temple e Chabal isolam a sua própria cultura, o seu etnocentrismo, relativizam as suas vidas, usam o seu saber clássico, para entender o que o sábio Maori quis dizer e que o próprio Mauss não tinha entendido. E, não tinha entendido, por ser a sua análise apenas um ponto de comparação entre a sua sociedade, tal e qual tinha feito o seu Mestre Durkheim, que investigara no Ocidente antes de ir pelas avenidas dos Aborígenes Australianos. O próprio Mauss retoma textos Massim e Kwakiutl, e apenas um trecho que lhe tinha sido proporcionado por Robert Hertz, para estudar o hau, conceito que se viu impossibilitado de debater em seguida, por Hertz ter morrido na Grande Guerra do Século XX. Dominique Temple e Mireille Chabal vivem com os Maori e assim é que os entendem, como fazemos todos nós, antropólogos de terreno. Tentam ultrapassar a falta de entendimento do conceito citando Sir Raymond Firth, ele próprio filho de Maori e com trabalho de campo feito entre eles, mas que, como bom nativo, renega as suas origens, donde, nada é demonstrado[80]. Firth sabe imenso de reciprocidade familiar, entende as formas de ensino e aprendizagem, fala da correlação entre matrimónio, herança e circulação de pessoas dentro dos Hapu, ou grupos domésticos, mas não refere reciprocidade; ou, por outras palavras, refere, à maneira de Malinowski, comércio e modernidade.

O que experimenta fazer Sahlins? Estudar “formas arcaicas”, mas a sua cultura atraiçoa-o, acabando por aplicar a economia ocidental, como Mauss, enquanto estes nossos autores centram a sua análise no interior da cultura Maori e, se escrevem em francês e vão passando pelos vários autores, isso deve-se à necessidade de explicar Etnologia a Antropólogos, Etnógrafos, Formalistas, Substantivistas ou Estruturalistas. Recorrem aos autores que falam de sociedades sem mercado, para ajudar no entendimento de um comportamento que existe no meio de um outro: há dádiva dentro da realidade da troca mercantil. Tenho observado entre os Mapuche Rauco do Sul do Chile, entre os Mapuche Picunche do Centro, ouvi do meu colega e amigo Roger Dale da Universidade de Auckland[81], como todos estes nativos, fora da sua terra natal, resistem a falar na sua língua e fazem por esquecer a sua procedência. Caso diferente em Temple e Chaball, eles passam pelos Maori, não são Maori. Caso diferente de Polanyi, Sahlins, o próprio Marcel Mauss e, no seu minuto, Émile Durkheim e Sigmund Freud[82]: o estudo feito é de seres humanos distantes, incógnitos. Marcel Mauss teve Hubert[83], Hertz[84]e Durkheim filho, André, para essa essencial parte da Antropologia: o trabalho de campo com residência continuada. Mas como desapareceram, e a análise antropológica passou a ser uma semiologia, ainda em vida de Mauss, o entendimento de reciprocidade ficou sob a interpretação de Malinowski, Firth e, especialmente na França, origem dos dados para o conceito, de Claude Lévi-Strauss e a sua escola. Acaba por ser um problema falar de reciprocidade, usando o conceito entre tantas atividades diferentes e diferentes culturas. Mauss aplica-o para entender a mais-valia no seu país, conceito que não tenho visto ser analisado por autor nenhum, por enquanto. Os economistas referem a desigualdade na base da lógica cultural diferenciada entre proprietários e não proprietários, da natural servidão do operariado. Mas, como a minha ideia é entrar pela mais-valia nesse conceito tão usado em Antropologia, não posso deixar de acrescentar as seguintes palavras, a partir do texto já citado de Durkheim e do desenvolvimento estruturado por Marcel Mauss (mas usado de forma tão diferente por toda a Ciência Social, como provam os autores referidos mais acima, e os que vou referir a seguir).

Reciprocidade não é um conceito fácil de analisar. Há quem fale da norma de reciprocidade, há quem fale do princípio de reciprocidade. Para entender a diferença, é preciso entender a relação que existe na correlação entre ética, lei, direito, costume e objetivo do conceito. O primeiro que parece ter falado da ideia de reciprocidade, foi Cicero, c.60 BC, factos referidos ao começo do ensaio. Diz: “There is no duty more indispensable than that of returning a kindness. All men distrust one forgetful of a benefit”[85] Há poucos conceitos usados para definir a palavra reciprocidade. Um deles é de Samuel Becker, que diz: “I do not propose to furnish any definition of reciprocity; if you produce one, they will be your own achievement”[86] Hobhouse diz que “reciprocity…is the vital principle of society, a key intervening variable through which shared social rules are enabled to yield social atsbility” [87]. Richard Thurnwald, na sua ideia, muito da escola alemã, constata que “the principle of reciprocity is almost a primordial imperative which pervades every relation of primitive life”[88]. Há as duas ideias, a do princípio e a da norma. Como princípio, tratam do conceito Malinowski[89], Mauss[90], Durkheim[91]. De uma outra maneira, há os autores que pensam do conceito como uma norma e não como um princípio ético, orientado pelo direito costumeiro ou pela lei escrita. Entre estas, ao mesmo tempo que Durkheim fala de princípio, fala também de direito à maneira aprendida do seu mestre Ferdinand Tönnies, ao referir que há uma solidariedade mecânica ou comunitária Gemeinschalft, ou uma orgânica ou associativa ou de trocas, separada pelo intercâmbio ou Société denominada por Tönnies Gessenchalft, que pode levar a uma anomia ou falta de dinâmica social. Donde a troca/dádiva é impossível. Mas o que interessa nesta parte, é entender que Durkheim, ao debater a divisão do trabalho de Adam Smith, refere a existência do apoio que os seres humanos procuram para a produção dos seus bens. Essa que Marcel Mauss, ao procurar o princípio de reciprocidade, nem denomina como tal, apenas entende que há três movimentos para estabelecer um convénio económico entre os seres humanos: dar, receber, devolver. E começa logo com uma pergunta, que é parte da sua hipótese, ao dizer: “Desde há anos que a nossa atenção se debruça ao mesmo tempo sobre o regime de direito contratual e sobre o sistema das prestações económicas entre as diversas secções ou subgrupos de que se compõem as sociedades ditas primitivas e também aquelas que poderíamos dizer arcaicas…que exprimem ao mesmo tempo e de uma só vez todas as espécies de instituições: religiosas, jurídicas e morais – e estas políticas e familiares ao mesmo tempo; económicas – e estas supõem formas particulares de produção e do consumo, ou antes, da prestação e da distribuição… .queremos considerar um dos aspeitos apenas, profundo mais isolado: o carácter voluntário, por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e todavia forçado e interessado dessas prestações…onde há senão ficção, formalismo e mentira social, quando há no fundo, obrigação e interesse económico.”[92]

A questão que lhe interessa passa de imediato a ser exposta como hipótese: “Qual a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente retribuído? Há fenómenos de troca e de contrato nessas sociedades que não estão privadas de mercado económicos como se pretendeu – porque o mercado é um fenómeno humano, que, em nossa opinião, não é estranho a nenhuma sociedade conhecida…mas cujo regime de troca é diferente à nossa. Veremos aí o mercado antes da sua principal invenção, os mercadores e antes da sua principal invenção, a moeda propriamente dita[93]. E, ao longo de quase duzentas páginas, analisa a sociedade romana do contrato, a grega, a hindu e as do potlatch e do kula, nas quais analisa os conceitos mana e hau. Para concluir, das páginas 192 a 209, que existe uma noção de valor que é semelhante à nossa, capitalista, embora esteja permeada ou apareça como uma forma diferente à utilitária. No entanto – é a sua conclusão – há procura de lucro, bem como há procura de mais-valia tal como no sistema capitalista. O donatário empresta pelo interesse de ver uma outra pessoa ou grupo, vergado à necessidade de restituir, o que, pelo seu carácter religioso ou sagrado, aparece como uma atividade pela qual há castigo e punição pelo incumprimento. Mauss fala de oferta e dádiva, mas nunca fala de reciprocidade. Apenas de três momentos da atividade de trocar, que é, para todos os efeitos, utilitária, procura lucro e mais-valia. Não fala de reciprocidade, apenas fala de obrigatoriedade de retribuir, para não perder a abundância que um povo tem, perante a escassez de um outro. E vai retirando casos, especialmente de hierarquia, que explicitam as formas de comércio por si encontradas, e, especialmente, como diz, por Malinowski que, após ter feito um sério esforço de entender a dádiva pura, apenas a encontra nos esposos ou na troca para a reprodução de seres humanos.

É neste tipo de análise em que é preciso trabalhar, porque dádiva e reciprocidade são factos diferentes. Gouldner, no trabalho citado, encontra poucos cientistas que entendam ou tentem definir reciprocidade. E passa para a análise da reciprocidade feita por Durkheim na sua obra póstuma, bem como a de Marx[94]. No seu texto Le Socialisme[95], a ser analisado mais adiante neste meu texto, quer o autor, quer Mauss no Prefácio, reconhecem terem retirado ideias de Marx, bem como de Saint-Simon e de Proudhoum, ou a por ele denominada “Escola Socialista” da sua época. O conceito usado é o de exploitation ou exploração, resultado de uma relação social na qual é “possível apreciar a desigualdade no intercâmbio, por causa de investimentos não ganhos por pessoas que apenas possuem a propriedade dos meios de produção, acabam por receber o lucro dos operários ou a mais-valia de quem trabalhou já o necessário para produzir o seu valor de uso ou consumo próprio, para produzir um valor extra ou não merecido, pelo proprietário”[96]. É a partir destas ideias que Thorstein Veblen trabalha o conceito útil para entender reciprocidade, o de institutionalized explotation[97] O autor noruego-americano entende que existe um Vested Interest ou um interesse de investir, que caracteriza como o direito a coisas após nada ter sido feito pelo investidor. É a partir desta ideia que é possível pensar que a reciprocidade tem apenas um interesse, o de lucrar na base do trabalho de outro, enquanto se faz o trabalhador pensar que existe solidariedade social, na medida da segurança social e assistência a quem não trabalha. E é destas ideias do Capital, usadas por Thorstein Veblen nos anos 30 na Sociologia Americana, que Mauss e Durkheim usam, para dizer nos textos dos anos 20 ou póstumos e prefaciados por Mauss, que “a existência de classes sociais, caracterizadas pela importante desigualdade de quem tem e de quem apenas possui a sua capacidade de produção como força de trabalho, fazem impossível que contratos justos sejam negociados entre um possuidor e um não possuidor de meios de produção. O sistema de estratificação social existente constrange (constrains) ou impinge uma desigual troca de bens e serviços, ofendendo assim às expectativas dos povos das sociedades industriais. A exploração impossibilita, por causa da disparidade de poder entre as partes contratantes, uma igualdade necessária para exprimir a vontade, o que coloca à sociedade em risco de extinção ou subversão” [98] Durkheim acrescenta uma ideia que Marx não tinha analisado, essa de ferir os valores das pessoas com a atitude anti-ética dos proprietários do Capital.

Malinowski, no entanto, não abandona a procura da ideia de reciprocidade e aí, onde Durkheim adverte que a sociedade é instável pela sua falta de solidariedade ou a existência de anomia nas relações sociais, a Gemande de Tönnies, professor de Durkheim, o nosso polaco adverte que há várias formas de reciprocidade[99] Na primeira das obras citadas, Malinowski acaba por dizer que tudo o que tem encontrado é apenas uma forma de comercializar o que é ritual, da qual um grupo social extrai utilidade de um outro, em bens e tempo de trabalho. Na segunda, muda para o campo de psicologia, abandona a economia e decide qualificar a Reciprocidade, com uma primeira questão “Why is it that rules of conduct in a primitive society are observed, even though they are hard and irksome?…” [100]

A conformidade às regras, diz Malinowski, é base da reciprocidade pela coesão mecânica que produz. Uma outra é o facto das pessoas deverem, entre elas, direitos e obrigações nascidas ou da interacção social ou do trabalho em conjunto. A reciprocidade teria lugar fora da esfera económica, por ser um complemento e preenchimento da divisão do trabalho, necessária como ela é para povos sem tecnologia avançada. “Reciprocity, therefore, is a mutually gratifying pattern of exchanging goods and services” [101]

É destas ideias que Lévi-Strauss retira as suas, para definir a reciprocidade como o que é oposto à natureza e é fabricado pelo homem, embora a natureza seja também humana[102].

Quer Malinowski, quer Lévi-Strauss, vão encontrar relações sociais recíprocas na estrutura do parentesco. O primeiro, ao analisar a psicologia primitiva; o segundo, ao estudar as relações sociais. E, como eles, muitos autores. Porque a prometida igualdade parecia estar na troca-dádiva, denominada reciprocidade.

É no entanto possível perceber que, na sociedade do intercâmbio, nada é gratuito. Não é em vão que Adam Smith fala de permuta, troca e intercâmbio, dentro do mercado. E, como ele, toda a escola liberal, contra a qual se insurgem as teorias radicais de Marx, Proudhon, Saint-Simon, Durkheim, Mauss. Estes últimos, tentam, tal e qual Malinowski, comparar sociedades para procurar uma troca-dádiva, que aparece inexistente enquanto gratuidade. Eis porque Durkheim tem que distinguir entre uma sociedade mecânica ou comunitária, na qual a religião traz, de forma simbólica e ritual, uma forma de colaboração sempre paga pelo donatário; e uma de solidariedade orgânica, na qual a lei é a base de todo contrato, excepto quando é celebrado entre quem nada tem e o proprietário, como diz na obra citada L’éducation e outras, invocadas nestas páginas. A troca – dádiva tão procurada, parece ser apenas uma permuta, com mais-valia, à maneira definida por Marx em 1862 e 1863[103]. Troca que é comercial, como estimo provar no livro que nasce desta conferência[104].

Raúl Iturra

lautaro@netcabo.pt


[1] Refiro-me a de 1756 The theory of moral sentiments, Website http://www.adamsmith.org/smith/tms/tms-p1-s2-c5.htm que trata especialmente da admiração que desejamos causar nos outros e em como desejamos sermos ricos, desenvolvido especialmente na Parte II, Secção III do seu livro, páginas 133 e seguintes, do qual se depreende que sermos ricos ou acumular bens é o nosso objetivo. Objetivo que é a seguir, cuidadosamente tratado como um plano para se ser racionalmente lucrativo no seu livro de 1776 An inquiry into the reasons and causes of the wealth of nations, Website http://www.adasmith.org/won-b5-cl-article-2-ss1.htm. Ao longo de toda a obra, Smith traça um plano de como se pode acumular bens, troca-los e produzi-los, bem como faz referência à pobreza que é a falta de trabalho.

[2] Iturra, Raúl, (1979) 1988: Antropologia Económica de la Galicia Rural, Xunta de Galiza, Compostela. Motor de pesquisa Google.

[3] Iturra, vide “Introdução” da obra citada, bem como o reestudo feito em 1997-1998 e que resultou no texto O crescimento das crianças, Profedições, Porto. Website http://www.pagina.pt/

[4] Durkheim, Émile, (1893) 1971: A divisão do trabalho social, Presença, Lisboa. Website http://gallica.bnf.fr/Catalogue/Notices/txt/N088267.htm; e 1912: Les formes élémentaires de la vie religieuse, PUF, Paris.

[5] Sahlins, Marshall, 1972: Stone age economics, Tavistock Publications, Londres. Website http://www.primitivism.com/original-affluent.htm

[6] Malinowski, Bronislaw, 1922: Argonauts of the Western Pacific, Routledge and Kegan Paul, Londres. Website http://www.echonyc.com/~goldfarb/mal-wtkc.htm

[7] Mauss, Marcel, (1924) 1954, The gift, Free Press, Nova Iorque. Guideri, Remo, 1984: L’abondance des pauvres, Èditions de Seuil, Paris. Website http://gallica.bnf.fr/Fonds_Tables/009/M0093915.htm ou http://www.uqac.uquebec.ca/…/classiques/mauss_marcel/socio_et_anthropo/ 2_essai_sur_le_don/essai_sur_le_don.html.

[8] Hubert, Henri e Mauss, Marcel, 1906: Mélanges d’histoire des religions: «Préface» ou «Introduction à l’analyse des quelques phénomènes religieux», originalmente publicado na Revue d’histoire des religions, 56. Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[9] Hertz, Robert, 1928: Sociologie religieuse et folklore. Recueil des textes publiés entre 1907 e 1917, originalmente publicado pela PUF, Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[10] Boas, Franz, 1911: The Mind of Primitive Man, University of Chicago. Página Web www.infoplease.com/ce6/people/A0808026.html

[11] Thurnwald, Richard, 1933: The Psychology of Primitive Man, The Chicago University Press. Website http://www.staffs.ac.uk/schools/sciences/psychology/ chop/subject/Anthropology.html  

[12] Malinowski, op. cit., página 62 do texto citado antes.

[13] Polanyi, Karl, (1944) 1957: The Polanyi, Arensberg e Pearson, 1957: Trade and markets in the early empires, The free Press, Nova Iorquegreat transformation, Beacon Press, Boston; e “The economy as an instituted process”, in . Website http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/ipe/polanyi.htm

[14] Marx, Karl, Grundrisse ou Critica da Economia Política, 1859, Website http://www.marxists.org/archive/marx/works/1859/critique-pol-economy/index.htm. Marx não critica a Adam Smith, apenas debate com os seguidores como John Stuart Mill faz no seu texto de 1848: The principles of political economy, Website http://www.uqag.uquebec.ca//zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/Mill.htn , referido também mais em frente.

[15] Dalton, George, 1961: “Economic theory in primitive societies” in American Anthropologist. Nº 63. entre outros textos. Website, Google:   www.mnsu.edu/emuseum/information/biography/ abcde/dalton_george.htm l

[16] Polanyi, 1975: “The economy as an instituted process”, in Polanyi,Karl; Arensberg, Conrad: Pearson, Harry (orgs.) Trade and Markets in the Early Empires, The Free Press, página 243. Webpage http://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/ipe/polanyi.htm

[17] Malinowski, Bronislaw, 1945: The functional  theory of culture, Yale University Press, bem como em 1982, escrito pelo seu discípulo Julio de la Fuente na base dos Diários de Campo de ambos  em pesquisa no México: Malinowski in México. The economics of a Mexican market system, Routledge and Kegan Paul, Londres. Duas das obras póstumas de Malinowski. Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[18]Wolf, Eric,1966b Peasants London: Tavistock. Website nota seguinte.

[19] Wolf, Erick, 1966: Peasants, Prentice Hall, New Jersey. http://www.indiana.edu/~wanthro/wolf.htm  Ideias todas retiradas das análises de Alexander Vladimir Chayanov, 1925, Website http://era.anthropology.ac.uk/Era_Resources/Era/Peasants/theory07.htm1 e publicadas em Buenos Aires, Editorial Nueva Visión: La organización de la unidad campesina, introducida e prefaciada para nós por Eduardo Archetti. Ideias das quais Theodor Shanin retira as suas próprias, que vamos analisarem ao falar de camponeses..

[21] Polanyi, Karl, ob.cit.: “The economy as instituted process”, páginas 243 e 245 e ss. Website nota 12.

[22] Giddens, Anthony, : The third way and its critics, Polity Press, Cambridge, Grã-Bretanha. Website: http://www.1se.ac.uk/Giddens/ThirdWayCriticsPR.htm

[23] Friedman, Milton and Rose Marie, 1979: Free to Choose, Harcourte Brace Jovanovich, Chicago. Edição Portuguesa da Europa-América, 1979. Website http://www.cepa.newschool.edu/het/schools/Chicago.htm   

[24] Cicero, c. 65 BC, Oratio against Catiline, citado por Alvin Gouldner no seu texto essencial para entender este conceito, “ The norm of reciprocity: A preliminary statement” in American Sociological Review Volume 25. Nº2, April 1960, University of St Louis, Washington. Website http://www2.pfeiffer.edu/~Iridener/courses/NORMRECP.HTML

[25] Becker, Howard, 1956: Man in reciprocity, Prager, New York, page 1.Website http://www.google.pt/search?q=cache:ntmqeqW_cjkJ:www.petersingerlinks.com/exp… ou , http://home.earthlink.net/~hsbecker/qa.htm1

[26] Hobhouse, Leonard Trelawney , 1906: Morals en evolution: A study case in comparative ethics, Chapman and Hall, página 12, ou http://www.Ise.ac.uk/Isehistory/hobhouse.htm

[27] Thurnwald, Richard, 1932: Economics in primitive communities, Oxford University Press, página 106. http://www.britannica.com/eb/article?eu=74231

[28] Malinowski, Bronislaw, 1926, Crime and custom in primitive society, Routledge and Kegan Paul, Londres, Website em francés http://pages.infinit.net/sociojmt

[29] Mauss, Marcel, 1923-24 : « Essai sur le don. Formes et raison de l’échange dans les sociétés archaïques » in L’Année Sociologique, Nouvelle Série, Félix Alcan Paris, Vol I. Website http://gallica.bnf.fr/Fonds_Tables/009/M0093915.htm

[30] Durkheim, Émile, 1925: L’éducation morale, Félix Alcan, Paris

[31] Mauss, obra citada, versão portuguesa tratada por mim, páginas 53 e 54, versão portuguesa de 2000.

[32] Mauss, obra citada de 2000, página 54.

[33] Marx, Karl, (1867)1946: El Capital,  Vol. I, FCE, México. Website referido nota 15

[34] Durkheim, Émile, 1928: Le socialisme, PUF, Paris, prefaciado por Marcel Mauss. Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[35] Proudhon, Pierre-Joseph, 1862: Théorie de la propriété, Website http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Clasiques_des_sciences_sociales/index/htm1 ou  perso.wanadoo.fr/jean-pierre.proudhon/ p_j_prou/prop_auto.htm

[36] Marx, obra citada, in passim, a minha tradução.

[37] Veblen, Thorstein, 1934: The theory of the leisure class, Modern Library, New York, página 246. Website http://xroads.virginia.edu/~HYPER/VEBLEN/veblenhp.htm1 

[38] Durkheim, Émile, obra póstuma citada, 1928 Le socialisme, PUF com Prefácio de Mauss. Mauss faz notar o desgosto de Durkheim pela guerra, a revolução e a luta de classes. Esta ideia está defendida na sua crítica à economia utilitária e clássica, no seu texto de 1893 e nos seus comentários à obra de Marx na Revue Philosophique de Dezembro de 1897, Paris. Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[39] Malinowski, Bronislaw, 1922: The Argonauts of Western Pacific, páginas 117 à 226 da versão Catalana de Península, Website http://www.echonyc.com/~goldfarb/mal-wtkc.htm; e 1926: Crime and custom in primitive societies, Routledge and Kegan Paul, Londres, Website  http://pages.infinit.net/sociojmt

[40] Malinowski, 1926, página 21 de I Parte da versão Castelhana de Ariel. Website nota anterior.

[41] Malinowski, Crime and Custom, página 55, da versão publicada. Website nota 23.

[42] Lévi-Strauss, Claude, 1949, Les formes élémentaires de la parenté, Mouton, Paris. Website

http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/clasiques/Le

[43] Proudhon, Pierre-Joseph, 1840: Théorio de la propriété, 1862. Website nota 30.

[44] Saint-Simon, Henry de, 1821: Du système industriel, Motor de pesquisa Gallica.

[45] Durkheim, Émile, 1902-1903: L’éducation morale. Cours de sociologie dispensée à la Sorbonne, Website http://pages.infinit.net/sociojmt

[46] Marx, Karl, 1862 e 1863(1977): Theories of Surplus Value, Oxford University Press. Website http://www.marxists.org/archive/marx/works/1863/theories-surplus-value/preface.htm

[47] Iturra, Raúl, 1988: Antropologia Económica de la Galicia Rural, Edições Xunta de Galiza, Compostela: website com texto: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Ra%C3%BAl+Iturra+Antropologia+Econ%C3%B3mica+de+la+Galicia+Rural&btnG=Pesquisar&meta= ; O crescimento das crianças, Profedições, Porto, website para debate: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Ra%C3%BAl+Iturra+Como+era+quando+n%C3%A3o+era+o+que+sou.+O+crescimento+das+crian%C3%A7as&btnG=Pesquisar&meta=; A Economia deriva da religião, Afrontamento, 2000, website nota 2; “O conceito de reciprocidade”, Seminário da Universidade de Múrcia, Espanha, em Protohistória, Buenos Aires, Argentina. http://www.prohistoria.com.ar/seminariomurcia/ponencias/ponenia­_iturra_texto.htm

[48] Gouldner, Alvin, 1960: “The norm of reciprocity: a preliminary statement” in American Sociological Review, April 1968, Vol. 25, Nº 2. Website com texto http://www.garfield.library.upenn.edu/classics1979/A1979HT60900001.pdf

[49] Robbins, Vernon, 1996: Exploring the texture of texts, Vallet Forge, Trinity Press  International,  http://www.cyberclass.net/reciprocity.htm

[50] Hegel, Friederick, 1812-1816: Science of Logic, on line. Há versão portugues pela Guimarães Editora. Website para pesquisa:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Friedrich+Hegel+Science+of+logic+&meta=

[51] Luther, Martin, (1529) 1991: Small Catechism, Concordia Publishing House, St Louis, USA; (1517) 1989: The Ninety-Five Thesis; (1522)1989: Eight Sermons at Wittenberg, Ausburgs Fortress, USA. Website com texto

 http://www.ccel.org/l/luther/small_cat/small_cat.txt

[52] Retirado da síntese dos textos de Martin Luther, especificamente dos Sermões de Wittenberg de 1522, por Bo Kristian Holm, e referidos em 1999, no texto: Life and Law. Martin Luther Understands of Christian Existence and the Challenge from the “New Perspective on Paul”, texto on line   http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Kristian+Holm+Life+and+Law+Martin+Luther&btnG=Pesquisar&meta=. Website com textos de Wittenberg:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Martin+Luther+Serm%C3%B5es+de+Wittenberg&btnG=Pesquisar&meta=

[53] Iturra, Raúl, 2003: “A religião é a lógica da cultura” entregue a Editora Afrontamento para um livro do Seminário realizado na Universidade da Beira Interior. Bem como no meu texto de 2002: A economia deriva da religião, Afrontamento, Porto, e o referido de Protohistória: “O conceito de reciprocidade. Ver nota 45

[54] Melo, Rosa Maria, 2001: O rito do Eufuko entre os Handa de Angola, tese de Doutoramento, ISCTE, policopeado.

[55] Nunes, Ângela, 2000: A sociedade das crianças A’Uwe-Xavante do Brasil. Por uma Antropologia da criança, IIE, Lisboa. Bem como a sua tese de Doutoramento de 2003: Brincando de ser criança, ISCTE, policopiado.

[56] Ferreira, Manuela (org): Crescer e aparecer ou para uma sociologia da infância, in Educação Sociedade e Culturas, Afrontamento, Porto, Nº17.

[57] Comentários sobre estes textos, vide Iturra 2001 e 2003, livros sobre teoria religiosa, bem como os comentários de outras ideias do presente texto.

[58] Feuerbach, Ludwig, 1841: Das Wesen des Christentums ou A Essência do Cristianismo, Papirus, Brasil, 1988; Website com texto: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Ludwig+Feuerbach+1841+A+Ess%C3%AAncia+do+Cristianismo&btnG=Pesquisar&meta= e 1848.49: Vorlesunger über das wesen der religion ou A Essência da Religião, Papirus, Brasil, 1989. Website biográfico e analítico da obra: http://www.pucsp.br/~filopuc/verbete/feuerba.htm 

[59] Temple, Dominique, e Chabal, Mireille, 1995: La réciprocité et la naisance des valeurs humaines, L’Harmattan, Paris ou http://dominique.temple.chez.tiscali.fr/structures.htm1

[60] Godelier, Maurice, 1996 : L’Enigme du don, Fayard, Paris. Website publicitário e debate : http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Maurice+Godelier+L%27+Enigme+du+don&btnG=Pesquisar&meta=

[61] Sahlins, Marshall, 1974: Stone Age Economics, Tavistock Publications, Londres. Website para debate  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Marshall+Sahlins+Stone+Age+Economics&spell=1 

[62] Polanyi, Karl, 1944: The Great Transformation. The political and economic origins of our time, Beacon Press, USA. Website debate e pesquisa: cepa.newschool.edu/het/profiles/polanyi.htm

[63] Malinowski, Bronislaw, 1922: Argonauts of the Wester Pacific, Routledge and Kegan Paul, Londres. Uso a versão castelhana de Ediciones Península, Barcelona, 1973, páginas 173 a 198. Website debate, teoria, etnografia http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Bronislaw+Malinowski+The+argonauts+of+the+Western+Pacific&spell=1

[64] Temple et Chabal, ob.cit. página 15. Website nota 57

[65] Temple et Chabal, página 68 da obra referida. Esta análise nasce do comentário feito ao começo do livro sobre o que Lévi-Strauss pensa do conceito de reciprocidade, acima referido, na sua obra de 1948: Les strcutures élémentaires de la parénté, PUF, Paris. Website para debate, informação, base teórica: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Claude+L%C3%A9vi-Strauss+Les+structures+elementaires+de+la+parent%C3%A9&spell=1

[66] Guidderi, Remo, 1984: L’abondance des pauvres, Seuil, Paris, citação in pasim. No entanto, diz na página 40 da sua obra: “ Le mystère de la reciprocité, à  suposser toujours qu’elle existe, rédide entièrement dans cette idée d’ « equivalance » d’une chose que je donne avec un chose que je reçoi…” Website para debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Remo+Guideri+&btnG=Pesquisar&meta=

[67] Nas páginas 196 e 198 do texto que uso, o autor refere 8 relações relacionadas a atividades económicas. Aliás, o parágrafo VII referido nesta linha, é denominado pelo autor “obrigações económicas” que nascem de relações sociais e, conforme Durkheim, essas relações são as mais fortes dentro de um grupo. Não consigo entender como Temple e Chabal descuraram esta parte do texto em análise por eles próprios. É verdade que Malinowski esquematiza a interação sem mercado, mas é também verdade que repete inúmera vezes que “deve suspender a análise do Kula”, para voltar às relações de comércio. Malinowski 1922 obra referida, in passim em todo o livro.

[68] Mauss, Marcel, obre referida, versão portuguesa de 1988, Edições 70, Lisboa. A edição de 2000 é bem mais certa e esclarecida. As minhas reticências e parêntese.Website com texto, ver nota 27

[69] Mauss, Marcel, textos entre 1896 a 1942, 1997: Marcel Mauss- Écrits Politiques. Textes réunis et présentés par Marcel Fournier, Fayard, Paris. Website sobre textos políticos do autor, partes de textos, cartas e debate http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/classiques/mauss_marcel/ecrits_politiques/ecrits_politiques.html

[70] Sahlins, Marshall, 1974: Stone Age Economics, Tavistock Publications, Londres. Website nota 59

[71] Sahlins, obra citada, página 42 e seguintes do texto usado, Tavistock e Net.

[72] Sahlins, obra citada, páginas 44 e seguintes, em contraste com página 1 e seguintes. A frase que ele usa é “an affluent society is one in wich all the people’s material wants are easily satisfied”, página 1. E acrescenta a seguir, uma frase que estimo genial: “to assert that the huntres are affluent is to deny then that human condition is an ordained tragedy, with man the prisoner at hard labour of a perpetual disoarity between his unlimited wants and his insufficient menas”. Páginas 1, 4 e 6, especificamente. Nota e Website nº 59

[73] O que em português denominamos força de trabalho.

[74] Sahlins sintetiza o seu argumento na frase da página 86: “In brief, by this characteristich of Domestic Mode of Production – that is a production of use values – …entertains limited economic goals…” páginas 86 e seguintes. Website nota 59

[75] Chayanov, op. cit. Pág. 47 e seguintes (versão castelhana de 1974). Website debate e teoria: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=A.V.+Chayanov+La+organizaci%C3%B3n+de+la+unidad+econ%C3%B3mica+campesina&btnG=Pesquisar&meta

[76] A análise de Sahlins, está contida nas páginas 94 e seguintes; as de Chayanov, no seu texto citado por Shanin, The theory of Peasant Economy, 1966, American Economic Association. O que eu tenho ussado para referir este entendimento do “pooling”, “sharing” e reciprocidade como defininido por Chayanov, é de 1905- data da escrita-, editado pela Nueva Visón de Buenos Aires en 1976. Há outros textos editados nos anos 80 do Século XX por Theodor Shanin, especialmente no seu The awkward class-Russia 1910.1925, texto dedicado às análises de Chayanov sobre a Rúsia Rural, fonte não usada por Sahlins, apesar de referir Chayanov trazido para o Ocidente no texto citado, por Theodor Shanin, discípulo de Chayanov e que refere reciprocidade que Sahlins omite. Website para debate, teoria e pesquisa:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Theodor+Shanin+The+awkward+class&btnG=Pesquisar&meta=

[77] Sahlins, obre em referência, páginas 150 e seguintes, com o mesmo erro de não entender a comparação mausiana das sociedades sem contrato e com contrato, parta definir a Sociologia Económica, que Sahlins ignora.

[79] Temple et Chabal, página 44, texto em formato de papel. Tenho transcito esta extensa passagem do texto, porque ajuda ao entendimento da reciprocidade maori, que é, como bem sabemos, diferente à nossa. Os autores fizeram um reestudo, que nem Sahlins nem Guidéri tinham feito, para entender o conceito original, que Lévi-Strauss não precisou de fazer por ter sido não apenas estudante de Mauss, mas porque analisa o real através de símbolos. Em caso nenhum, é a autoridade de outros semelhantes a esta para entender reciprocidade.

[80] Firth, Raymond, 1929: Primitive Economy of the New Zealand Maori, Routledge and Kegan, Londres. Website para debate e teoria etnográfica:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Raymond+Firth+Primitive+Economy+of+the+New+Zealand+Maori&btnG=Pesquisar&meta=

[81] Dale, Roger, 1994 : « A promoção do mercado educacional e a polarização da educação” in Educação, Sociedade e Culturas, nº 2, Afrontamento. A informação foi-me transmitida pessoalmente. Website de sintese  http://www.fpce.up.pt/~ciie/revistaesc/pagina2.htm

[82] Durkheim, Émile, entre outros, 1912 ou Les structures élémentaires de la vie religieuse, Felix Alcan, Paris ; ou 1914 :«L’avenir de la religion », troisiéme entretien , pp 97-105 , 1906 : «Determination du fait moral », Bulletin de la Société française de Philosophie, 1906 »Internationalisme et lutte des classes », Libre Entretiens2e série, 1906 : « Organisation sociale Masai », 1903, com Marcel Mauss : De quelques formes primitives de classification », Année Sociologique VI, «Communauté et societé selon Tönnies », Revue philosophique, 27, 1898 : »Représentations individuelles et représentations collectives », Revue de Métaphisique et de Morale, VI, Nº Maio. Todos eles em : http://www.geocites.com/areqchicoutimi_valin ou http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index-html. Freud, Sigmund, (1913) 1918: Totem and tabu, Routledge and Kegan Sons, Londres

[83] Hubert, Henri et Mauss, Marcel, 1906: « Mélanges d’histoire des religions ou Introduction à l’analyse des quelques phénomènes religieux » Revue d’histoire des religions, 58, Classiques_des_sciences_socieles/index1.

[84] Hertz, Robert, póstumo, 1928 : Sociologie religieuse et folklore.Recueil des textes publiés entre 1907-1917, PUF, Paris ou http://www.uqac.uquebec.ca/zone 30/ Classiques_des_sciences_sociales/index.html

[85] Cicero, c.65 BC, Oratio against Catiline, citado por Alvin Gouldner no seu texto essencial para entender este conceito, “The norm of reciprocity: A preliminary statement” in American Sociological Review Volume 25. Nº2, April 1960,University ofSt Louis, Washington.Website nota 46

[86] Becker, Howard, 1956: Man in reciprocity, Prager, New York, page 1. Website teoria e pesquisa http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Howard+Becker+1956+Man+in+reciprocity&btnG=Pesquisar&meta=

[87] Hobhouse, Leonard Trelawny, 1906: Morals en evolution: A study case in comparative ethics, Chapman and Hall, página 12. Website para debate e textos: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Hobhouse+LT+1906+Morals+en+evolution+A+study+case+in+comparative+ethics&btnG=Pesquisar&meta=

[88] Thurnwald, Richard, 1932: Economics in primitive communities, Oxford University Press, página 106 do texto em suporte de papel. Website:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Richard+Thurnwald+1932+Economics+in+primitive+communities&btnG=Pesquisar&meta=

[89] Malinowski, Bronislaw, 1926, Crime and custom in primitive society, Routledge and Kegan Paul, Londres. Website em francês, texto completo: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Bronislaw+Malinowski+Moeurs+et+coutume+dans+les+societes+primitives&btnG=Pesquisar&meta=

[90] Mauss, Marcel, 1923-24 : « Essai sur le don. Formes et raison de l’Exchange dans les sociétés archaïques » in L’Année Sociologique, Nouvelle Série, Félix Alcan Paris, Vol I.Website com texto, nota 27

[91] Durkheim, Émile, 1925: L’éducation morale, Félix Alcan, Paris. Website com texto, nota 43

[92] Mauss, obra citada, versão portuguesa tratada por mim, páginas 53 e 54.

[93] Mauss, obra citada, página 54 da versão Edições 70 em formato de papel de 2001. Website 27

[94] Marx, Karl, (1867) 1946: El Capital, Vol. I, FCE, México. Website com texto dos três volumes: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Karl+Marx+Capital&btnG=Pesquisar&meta=

[95] Durkheim, Émile, (1888) 1928:Le socialisme, PUF, Paris, prefaciado por Marcel Mauss. Website com texto, nota 26

[96] Marx, obra citada, in passim, a minha tradução. Website nota 92.

[97] Veblen, Thorstein, 1934: The theory of the leisure class, Modern Library, New York, página 246. Website  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Thorstein+Veblen+1934+The+theory+of+the+leisure+class&btnG=Pesquisar&meta=

[98] Durkheim, Émile, obra póstuma citada de 1928, com Prefácio de Mauss. Mauss faz notar o desgosto de Durkheim pela guerra, a revolução e a luta de classes. Esta ideia está defendida na sua crítica à economia utilitária e clássica, no seu texto de 1893 e nos seus comentários à obra de Marx na Revue Philosophique de Dezembro de 1897, Paris. Website nota 26. Website e texto obra 1893, nota 106.

[99] Malinowski, Bronislaw, 1922: The Argonauts of Western Pacific, páginas 1172 1 226 da versão Catalana de Península; e 1926: Crime and custom in primitive societies, Routledge and Kegan Paul, Londres. Website para debate, teoria e etnografia, nota 61 para Argonautas; e nota 87 para Crime e Costume.

[100] Malinowski, 1926, página 21 de I Parte da versão Castelhana de Ariel. Há versão francesa Web, nota 87, e inglesa Routledge.

[101] Malinowski, Crime and Custom página 55. Ver nota anterior.

[102] Lévi-Strauss, Claude, 1949, Les formes élémentaires de la parenté, Mouton, Paris. Website nota 63

[103] Marx, Karl, 1862, e 1863 (1977): Theories of Surplus Value, Oxford University Press. Website, texto e comentários: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Karl+Marx+1862+1863+%281977%29+Theories+of+Surplus+Value&btnG=Pesquisar&meta=

[104] Este texto é parte das minhas aulas aos meus discentes do ISCTE, hoje IUL, proferida a 7 de Março de 2005. Adoeci gravemente, com cancro a tiróideas, mas escrevi o livro: O presente, essa grande mentira social. A  mãis- valia na reciprocidade, que reescrevo hoje 14 de Novembro de 2011.