Sem Tustos para o Utilizador

O utilizador do país, vulgo cidadão, é visto, na maior parte dos casos, como um mero contribuinte, isto é, como alguém cuja função é contribuir, alguém que deve pagar o que deve, a que se juntou uma outra obrigação: pagar o que não deve. Resultado: o utilizador não tem um tusto de seu.

Se o utilizador do país fosse visto como um trabalhador, um Américo Amorim, por exemplo, talvez tivesse direito também a receber, não só a contribuir. Porque o trabalhador, tradicionalmente, é visto como alguém que merece ser respeitado, alguém que está protegido da exploração, dos abusos.

Neste momento, o mercado de retalho alimentar está em contracção. Quer isto dizer que mensagem governamental de que é necessário cortar nas gorduras está a ser levada a sério pelos contribuintes?

As contas relativas às chamadas SCUTs levantam, também, algumas questões. Em primeiro lugar, estamos perante uma sigla sádica, a não ser que, agora, signifique “Sem Custos para o Trabalhador”. Depois, é sempre bom confirmar que o Estado pode aumentar os contributos dos contribuintes, aliviando-os de subsídios e outros excessos, mas nem pensar em renegociar os benefícios que os contratos garantem às concessionárias. Finalmente, vai ser engraçado descobrir que, com a introdução das portagens, o dinheiro que o Estado vai gastar com as SCUTs será o mesmo que já gastava, porque o utilizador, que não tem dinheiro para comer, dificilmente poderá pagar portagens ou combustíveis, a não ser que, por dever patriótico, comece a empurrar os carros em direcção aos pórticos.

Comments

  1. Rui Daniel says:

    Esta visão do cidadão, infelizmente é uma visão bastante tacanha e partilhada por uma minoria de portugueses mas penso que esta e outras visões do género têm os dias contados para bem dos portugueses e Portugal,é só uma questão de tempo.

    • Carlos Fonseca says:

      Quer dizer: os rendimentos baixam, os cidadãos cortam nas despesas de consumo, incluindo de bens essenciais. A própria APED, onde se agrupam os principais grupos de distribuição, reconhece a recessão e até resolve chamar Stiglitz a Portugal, mas, no final, ter a visão exacta do que se está a suceder é tacanho. Há cada um!


    • Se calhar o primeiro comentador está dentro do carro que o “palerma” , que parecerá ser o seu proprietário, e que se calhar nem ainda poude pagar, está a empurrar porque, já agora, nem o pode oferecer a ninguém

    • António Fernando Nabais says:

      Também me parece que esta visão tacanha – olhar para o cidadão como um mero contribuinte – é partilhada por uma minoria de portugueses: é a minoria que governa. Também espero que essa visão tenha os dias contados.

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