Vampiros

Mais do que os juros a pagar à troika pelo financiamento externo, é o injusto custo social suportado por todo um povo. Todo? Não. Tal como os habitantes da aldeia de Astérix, há um irredutível pequeno grupo de gente dita trabalhadora que irá ganhar com isto. Como há sempre alguém a ganhar com a miséria alheia.

Nos últimos tempos, tanto se falou que o endividamento privado para consumo pagava taxas de juros incomportáveis. Face ao que Portugal vai agora pagar com pobreza, é caso para perguntar: onde está a diferença?

Não está. Não existe. A agiotagem persiste, multiplica-se e transmuta-se. Não vive só de juros. Vive da riqueza que se obtém com a miséria, com mais trabalho e menos salário, com as demandas de produtividade para acompanhar a China, com menos assistência social e a privatização de recursos e de bens essenciais, com mais impostos. Vive do lucro ganancioso, pago por quem terá de se esfarrapar para ser produtivo. E a subserviência propaga-se. Agora segue rumo a mais economias latinas, que para as latrinas, do capitalismo sem freio nos dentes, serão mandadas.

Os vendilhões já não trabalham no Templo: tomaram conta dele. A alegada influência cristã da Europa Ocidental, apenas servirá para a caridade a uma pobreza cada vez mais alastrada. A caridade tomará o lugar da solidariedade, e os tostões aliviarão algumas consciências, de modo muito mais barato do que custa um Estado Social.

O que serve de alento para atravessar este vale de castigos e de espinhos? É apontado um país melhor? Uma Europa melhor? Nada disso. Temos sangue, suor e lágrimas de gerações de um povo, sorvidos avidamente, ao longo de anos, de modo impune. Mais sacrifícios. Mais medo. Mais ameaças. Não existe nada de positivo no horizonte. Só trevas e castigo. Ao som das mandíbulas dos mercados e sua fome voraz, das agências e suas chantagens, do discurso político da doutrina da expiação sem fim à vista. Sobre quem nos trouxe aqui, sobre o confisco das fortunas que se fizeram à custa de chegarmos a este ponto, não há uma única palavra ou gráficos. Apenas silêncio.

Ouvir hoje as canções de intervenção, quais gritos contra um passado que se lutou por ser extinto, e sentir em cada palavra, em cada verso, a plena actualidade da contestação, é ponto mais elevado do fracasso poético em que vivemos, como país e como Europa.

 “Eles comem tudo e não deixem nada”.

Até quando deixaremos vilipendiar a nossa carne e o nosso sangue?

(Crónica publicada na edição de 07/12/2011 do semanário famalicense “Opinião Pública”)

Comments

  1. antonio oliveira says:

    PC bem pode clamar: Viva o Euro, abaixo a independência de Portugal.


  2. Vendilhões do Templo ?? será que o templo já foi desmoronado ?? bombistas

  3. MAGRIÇO says:

    Uma análise muito lúcida da situação a que nos conduziram políticas suicidas implementadas por políticos menores. Mas a responsabilidade maior é de quem mandatou estes vendilhões dos tempos modernos, quem os alcandorou a lugares para que não tinham nem a necessária competência nem, o que é pior, a indispensável honestidade. E o eleitorado é igual aqui como em todo o lado: na sua maioria medíocre e ignorante, noutros casos deslumbrados consigo próprios quando conseguem algum desafogo económico, com aspirações pequeno-burguesas que nem lhes permitem um olhar solidário aos mais desfavorecidos, noutros casos ainda os indigentes de pão e de espírito que mesmo não tendo que dar de comer à família se coloca incondicionalmente ao lado daqueles que os exploram. Não é de admirar que esta corja de dirigentes mundiais promovam ao máximo o obscurantismo e a ignorância, a melhor maneira de controlar o rebanho.
    Os pobres de espírito podem pretender ascender ao reino dos céus, mas contribuem muito para o inferno de outros na Terra.

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