Triste fado este!

Rejubilou recentemente a alma da Pátria. O Fado foi considerado património imaterial da humanidade. Ressuscitou Amália Rodrigues em infindáveis momentos televisivos de fervor patriótico. Voltámos a “dar de beber à dor”! Portugal ressurgiu de novo, patrioteiramente, numa hiperbólica liturgia colectiva, só entendível dentro de uma perspectiva secular e mítica da “maneira de ser português”, que se desejaria definitivamente abolida. Devo repetir uma vez mais o que já, por diversas vezes, tenho dito e escrito – gosto muito de fado, mas não gosto do Fado. Entendamo-nos. Gosto de ouvir fado, sobretudo quando cantado por mulheres. Mas não gosto do Fado enquanto símbolo mítico da Pátria, porque dá voz a um Portugal salazarento, pobre, pequenino, resignado, vencido. Não gosto do Fado enquanto mitificação de uma tristeza congénita, de um luto mental, em viagem permanente num “barco negro” existencial de um povo que, desgraçadamente, continua a viver um momento histórico de resignação, de subserviência, de conformismo fatalista, tradutor de um estado de alma tão passivo quão deprimente. Por isso, a atribuição ao Fado de património da humanidade não me aquece nem me arrefece. Não passa de um fait-divers, de uma patetice como outra qualquer. Mas continuo a gostar de fado. Muito.Em Maio de 2000, num texto publicado na revista Amanhecer sob o título “Amália Rodrigues ou o fatalismo feito mito”, escrevi o seguinte: “(…) O Portugal de Amália deverá morrer com ela (Amália morreu em finais de 1999). Deverá morrer esse Portugal de pensamento demasiadamente passadista, fechado num lusitanismo xenófobo, provinciano, tristonho e parolo, incompatível com o espírito moderno. Por isso, Amália morreu no seu século. Um século nostálgico, resignado, triste. Um século de solidão, de lamento, de dores imensas, de demasiadas tristezas. Ficou o mito. O mito de um país e de um povo que tem passado grande parte da sua história a “dar de beber à dor”. Cremos que o Portugal do próximo século nunca poderá ser o Portugal de Amália. Dele restará tão somente a voz e uma mitologia castiça. Um mito mais num país que deles tem vivido em permanência (…). O desaparecimento de Amália pode ser, como escreveu Eduardo Lourenço, ‘Portugal que se despede de si mesmo’. Talvez seja. Mas é sobretudo um Portugal que se despede de um século de tristezas e frustrações e que terá de aprender a converter o sangue e as lágrimas em motivo de fervor e de festa.”

Estávamos, repito, em Maio de 2000. Hoje, cerca de 12 anos volvidos, reconheço que me enganei. Redondamente. Porque Portugal continua a dar-nos um retrato amargo da nossa miséria colectiva. Uma miséria que se cola à pele, insistente e única, “de uma tristeza vil e apagada”. Cada vez mais vil, cada vez mais apagada. Basta recuperar o retrato do país que nos é dado por António Lobo Antunes ou por José Saramago. Lobo Antunes dá-nos a visão negra, radical, de um Portugal “suburbano e colorido pela manha existencial”, um país de falhados. Saramago, por seu lado, mostra-nos “um povo miserável amarrado à miséria espiritual dos que sobre ele reinam”. Hoje, tal como em tempos escrevera, lucidamente, Clara Ferreira Alves, “sobra-nos a indigência, a pobreza intelectual e moral dos políticos que temos”. Dos cavacos, dos coelhos, dos relvas, dos portas, dos seguros. Aberrações com que a natureza, de quando em quando, parece querer “castigar” aqueles que o merecem. Numa espécie de fatalismo inelutável, afinal de contas, o mesmo fatalismo que serviu de suporte para que o Fado fosse considerado património imaterial da humanidade.

A geração que ainda não tinha 20 anos aquando do “25 de Abril” e que hoje ocupa o poder, é uma geração de mentecaptos. De corruptos. De falhados. E, como tal, arrastará no falhanço a geração futura. E só por lá se mantêm porque nunca foi tão fácil governar como é hoje. Ao contrário do que apregoa esta geração de imbecis que nos governa. Porque as propostas do governo tornam-se “imperativos categóricos”. São inevitabilidades. Ou seja, imposições meramente formais, incontestáveis por direito de quem manda e incontestadas pela inércia cobarde de quem é mandado. Estamos em presença de uma espécie de fatalismo. De um Fado, que nos conduziu, ontem como nos conduz hoje, a esta “estranha forma de vida”!

Desgraçadamente, continuamos a ser um Portugal dos pequeninos. Tristonho, melancólico, vencido. Um país doente que mata os que nele se abrigam, “essa massa que dá pelo nome colectivo de portugueses”. Continuamos a ser o Portugal dos pês e dos efes. De putas, de padres e de pedintes. De Fátima, de futebol e de Fado. Património imaterial da humanidade! Paradoxo inexplicável de um povo que inventou um império. E que inventou o Fado. Triste sina! “Quando eu morrer, façam o favor de chorar por mim”, pedira Amália Rodrigues pouco antes da sua morte. Choremos, sim. Mas, choremos por Portugal.

Luís Manuel Cunha in Jornal de Barcelos de 14 de Dezembro de 2011

Comments


  1. Felizmente que Portugal, o fado e a literatura estão muito para além daquilo que, com alguma verdade, tristemente denuncia.

    Para o animar aqui vão dois fados (podiam ser muitos outros…):
    Um com um poema de Luís de Camões e o outro de Alexandre O`Neill
    http://www.youtube.com/watch?v=Say20gm8QHw
    Não me vai dizer que algum destes poetas se enquadra no miserabilismo que jorra das suas cinzentas palavras!

  2. José Manuel says:

    Com este artigo o autor mostra a sua profunda ignorância sobre o que é o Fado, quer como fenómeno musical, quer ainda como fenómeno social, que já existia muitas décadas antes do Salazar nascer.

  3. F Marques says:

    Eu também gosto muito de fado, mas, infelizmente, o texto de Luís Manuel Cunha descreve bem esta forma de estar bem portuguesa, caracterizada pelo deixa andar que alguém há-de resolver, pela cobardia de não querer arriscar a insurgir-se contra o que está mal, com medo de ficar mal visto ou criar inimigos (rsrsrsr). Ao longo da minha vida confrontei-me muitas vezes com este jeito peculiar de estar na vida, ou antes, de não estar. As palavras de LMC são azedas porque este país não pode deixar de criar azia a quem nele tem que viver e conviver com um estado de coisas que são absolutamente contrárias às expectativas criadas por essa pedrada no charco chamada 25 de Abril, perdido aí para trás num ano qualquer do séc.XX e que a classe política costuma comemorar com o objectivo de criar alento ao povinho para que ele continue alegremente a aguentar a loucura fiscal que lhes permite, a eles e aos amigos, viverem como nababos. Até quando irá esta democracia feita à podoa resistir a tanto abuso, permitido pela tradicional passividade lusa? Um grande enigma histórico…

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