É natal, deixem os pobres em paz

Entrámos na vertigem da caridadezinha agora chamada de voluntariado, registo que será o do ano de 2012. Não vou agora discutir a mais hipócrita das formas de perpetuar a miséria, é natal e estou contagiado pelo espírito de paz, amor e peúgas. Mas há um limite de decência para a propaganda travestida de jornalismo: os pobres também têm direito ao anonimato e ao sossego, senhores, mesmo que não tenham capacidade de se defenderem da vossa falta de vergonha.

Porque não vão entrevistar o Américo Amorim e acompanham a sua triste consoada? porque não tem Ricardo Espírito Santo direito a uma perguntinha sobre o bacalhau e se estava bem servido? porque não se questiona Belmiro de Azevedo sobre o frio de dezembro e se confirma se teve agasalhos que o abrigassem na noite da consoada?

É mais fácil ir para a rua e para as cozinhas económicas deste mundo entrevistar voluntários muito cristãos (excepto na soberba, no ódio ao franciscano e no esquecimento do velho princípio de que a caridade não se exibe) e sobretudo os desgraçados que além da indigência ainda levam com a devassa da sua privacidade, e essa é a miséria do jornalismo desta quadra. Mas será só por ser mais fácil?

Eu sei que quando um pobre escorrega cai logo em cima de um monte de merda mas um pouco de decência nas televisões ficava bem, ao menos no natal.

13 comentários em “É natal, deixem os pobres em paz”

  1. Ora aí está um tema dos mais interessantes: o jornalismo! Ou seja, a miséria do jornalismo. Muito haveria a dizer sobre os monopólios mediáticos em Portugal e a forma como vêm condicionando a sociedade portuguesa há longa data…

    Nota: “dezembro” grafa-se Dezembro. (A ver se vamos mais devarinho para o “brasileiro”, ou, politicamente mais correcto, o “português do Brasil”)

    1. Dezembro grafa-se com maiúscula no início de uma frase. E não há língua brasileira, há língua portuguesa. Não é uma questão de politicamente correcto ou incorrecto, é do foro das ciências que tratam das línguas. O resto é politiquês barato.

      1. Dezembro grafa-se sempre Dezembro. É uma regra gramatical (nomes de meses… apenas segundo o novo acordo ortográfico se podem grafar com minúscula)
        “Brasileiro” escreveu-se entre aspas e não significa língua brasileira, que até ver, não existe.
        “Português do Brasil”, também entre aspas, poderá já estar de certa maneira ligado à língua portuguesa que se desenvolveu no Brasil.
        Politicamente correcto, porque ae pretendia (sem se conseguir, pelos vistos) ironizar o acordo ortográfico que é meramente político.
        Politiquês só se pode grafar entre aspas, pois a palavra ainda não existe.

        Nota: Opinião minha. No Brasil não se fala a língua portuguesa, tal qual em Portugal não se fala o castelhano. Serão sempre necessários sucessivos acordos ortográficos (e não só…) para que a língua que se fala no Brasil se aparente com a língua que se fala em Portugal. Mas, com o tempo, esse esforço se dará como inútil. Para chegar aqui basta seguir com algum interesse a história da evolução das línguas que se cola à história dos povos…

        1. Não vou agora explicar-lhe que gramática e “segundo o novo acordo ortográfico” é a mesma coisa, a gramática mudou, e eu uso (fora do meu trabalho e quando não me engano) a gramática de acordo comigo, a minha vivência da língua, o que aprendi dela, por exemplo lendo tipos que nem usam maiúsculas em lado nenhum. Nem fazer-lhe reparar que se fôssemos por aí natal era Natal, e recuso-me a grafar natal com maiúscula com muito mais razões do que aquelas que me levam a escrever dezembro.
          Mas quanto a essa da língua, a bem dizer do idioma, é barbaridade tamanha que “se acha” isto ou aquilo como acreditar que Pedro Álvares Cabral descobriu ou achou o Brasil, pontualmente com o tratado de Tordesilhas já assinado.
          E sim, em Portugal fala-se um idioma que tem muito mais de castelhano do que seria desejável não fossem as nossas elites pacóvias, coisa que se aprende muito bem lendo isto:
          http://aspirinab.com/visitas-antigas/fernando-venancio/carta-a-marina-por-causa-do-galego-1/
          e já agora o restante:
          http://www.google.pt/webhp#sclient=psy-ab&hl=pt-PT&source=hp&q=carta%20a%20marina%20por%20causa%20do%20galego%20site%3Aaspirinab.com&pbx=1&oq=&aq=&aqi=&aql=&gs_sm=&gs_upl=&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.r_cp.,cf.osb&fp=17958b987459eb9c&biw=1024&bih=513&pf=p&pdl=3000
          Bom natal.

          1. Antes de voces nascerem ja a lingua portuguesa era falada e escrita por milhoes de pessoas, por vezes numa forma arcaica, mas sem a parvoeira de acordos com alguem que nao conhece a lingua. As vossas dissertacoes sa uma tentativa de mostrarem os vossos dotes narrativos, sem qual utilidade, com a excepcao da verborreia academica.

          2. Só vou juntar – possa isso ter algum interesse – que «descobrir» tem um significado mais lato do que aquele que parece atribuir-lhe. Percorra os dicinionários e verá que a decoberta do Brasil, assim tal e qual, tanto se podia fazer com conhecimento de alguns ou sem ele.
            E, a propósito, também lhe direi que não está provado definitivamente (como sabe) que se conhecesse previamente o continente americano.
            Quanto ao (n)Natal: Obrigado, igualmente.

  2. Acabo de ler no jornal OJE que Isabel Jonet estava muito contente não apenas com a generosidade de tantos voluntários mas também pelas grandes “dádivas” da EDP e de nem sei quem mais dos supermercados – e nem quero saber e agradeço à minha memória envelhecida por ir esquecendo pra que também não se avarie a pouca capacidade de raciocinar, que ainda me resta
    Mas não deixei de pensar no aumento brutal da EDP e do preço dos tomates e de outros bens do quotidiano para que, depois de tanto ser roubada ano a ano e mês a mês e com todas as justificações (e obrigada senhor quanto aos meus subsídios a desaparecer e AUMENTO de IRS) – e o melhor exemplo será a EDP e basta – constato que os jornais escritos e “imaginados”, enaltecem a caridade dos ladrões, de que vem resultando a constante e contínua desresponsabilização do estado social, que bem sabe aproveitar
    Mas até se perceberá que muitos dos jovens voluntários & outros, estarão a colaborar e seus pais a achar que têm uns filhotes maravilhosos e, entretanto, o que mais me obrigou a abrir a boca e dizer AH !!!!!! porque não percebi nem ninguém me explicou !!!!! foi o cardeal Patriarca que nem parece mau tipo, ter dito em entrevista há pouco tempo à TV que apoiava o actual governo no que está a fazer para pagar as “dìvidas dos portugueses” e por tanto, creio assim, que o senhor cardeal deveria ter-me agradecido a mim, e a outros tantos como eu – mas se no mundo há muitos generosos há, a par, muitos ingratos- Entretando aos 19 anos, depois de muitas JEC e JUC, resolvi ser um pouco mais independente e guardar o meu Deus de mim, e em mim, e não mais o que havia “empinado” em menina
    E que Deus guarde a todos porque é necessário de tudo para fazer o mundo e, também, aqueles que ontem, e até inesperadamente, foram verdadeiramente “generosos” para mim porque amigo (e generoso) é, aquele que depois de todos se terem ido embora, ficou

  3. Concordo plenamente com o teor do post.
    Por muito úteis que sejam estas campanhas, para dar algum calor e alimento a quem precisa, é degradante virem exibir quem não tem lugar para passar o Natal, como se fossem animaizinhos no Jardim Zoológico! Também não entram nas casas das outras pessoas, sem pedir licença ,para lhes as filmar na consoada!
    Partem do princípio que os “generosos” patrocinadores ganharam o direito de apresentar assim os seus troféus de carne e osso. Nota-se que muitos dessas pessoas ficam incomodadas por serem filmadas. Mas mesmo que não ficassem, as TVs deveriam ter o pudor de os respeitar e não o fazer. Todos os anos há este carnaval, mas este ano está a ser demais, a ultrapassar todos os recordes!
    E algumas das empresas que dão estas esmolas são aquelas que ajudam à miséria e que poderiam facilitar a vida às pessoas de outra forma (lembro-me, por exemplo, de tanta gente a quem cortam a água e a luz sem complacência!). É que agora a mensagem nojenta que querem passar é : que o mundo é como é, sempre existirão “pobrezinhos” para todo o sempre e a culpa é muitas vezes deles, pobrezinhos,que são preguiçosos; por isso, em vez de se manterem as leis mais justas, há que continuar o neoliberalismo feroz e depois dar uns trocos solidários aos pobres, inclusivé àqueles a quem se causa a miséria!
    Nojo! :((
    Que vão perguntar ao primeiro-ministro se está a apreciar o bacalhauzinho ou ao PR se lhe sabe bem o bolo-rei! De certeza que terão daquelas mensagens muito animadoras e piedosas para transmitir, enquanto, lançam migalhas e perdigotos! :((
    Festas felizes, JJCardoso.

    1. … mas deveria ter revisto! Este espaço está cheio de fundamentalistas da língua. Eles não vão gostar, vão chamar-lhe nomes feios (ou pensar!). Existem pessoas para quem a “ciência da língua” é quase tão importante como as ideias que as palavras pretendem exprimir… E como (muitos) sabemos, “o português” é escasso de ideias e abundante de preconceitos.
      Por muito grosseiro que possa parecer a alguns, para mim, quando ouço falar empertigadamente em “língua” sinto comichão nasal e nunca me vem à cabeça a gramática. Fico antes hesitante entre a visão duma glossite ou uma síndrome Melkersson-Rosenthanl assim bem “grudados” (por dentro) na cabeça de certas pessoas…

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